Quarenta jogadores. Onze seleções. Quinze clubes brasileiros representados.
Os números da atual Super Data Fifa ajudam a dimensionar uma transformação que aconteceu silenciosamente nos últimos anos: o Campeonato Brasileiro deixou de ser apenas uma grande competição nacional e se transformou numa das principais vitrines do futebol internacional fora da Europa.
Nesta janela de seleções, jogadores que disputam a Série A foram chamados por Brasil, Argentina, Paraguai, Colômbia, Uruguai, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela, Cabo Verde e Camarões. Apenas cinco dos 20 clubes do Brasileirão não tiveram representantes convocados.
O Palmeiras lidera a lista, com sete atletas. O Flamengo aparece logo depois, com seis.
Mas o dado mais importante talvez nem esteja na disputa entre os dois clubes.
Está no mapa.
Do Equador a Camarões
A presença internacional do Brasileirão aparece com clareza quando os convocados são separados por seleção.
A Seleção Brasileira chamou 11 jogadores que atuam na Série A. O Equador levou oito atletas do campeonato brasileiro. O Paraguai convocou seis. A Colômbia chamou quatro e o Uruguai, três.
Argentina e Peru têm dois jogadores cada. Bolívia, Venezuela, Cabo Verde e Camarões completam a relação com um atleta do Brasileirão em cada seleção.
Ou seja, não estamos falando apenas de brasileiros servindo à Seleção.
Estamos falando de um campeonato acompanhado diretamente por comissões técnicas de seleções espalhadas por dois continentes.
Convocados do Brasileirão por seleção
Brasil — 11 Pedro e Samuel Lino (Flamengo); Breno Bidon, Hugo Souza e Matheuzinho (Corinthians); Gabriel Bontempo (Santos); Arthur Dias (Athletico-PR); Danilo Santos (Botafogo); Otávio (Cruzeiro); Pedro Morisco (Coritiba); Martinelli (Fluminense).
Equador — 8 Anthony Valencia e Gonzalo Plata (Flamengo); Alan Franco, Alan Minda e Angelo Preciado (Atlético-MG); Keny Arroyo (Cruzeiro); Félix Torres (Internacional); Andrés Hurtado (Red Bull Bragantino).
Paraguai — 6 Gustavo Gómez, Maurício e Ramón Sosa (Palmeiras); Mathías Villasanti (Grêmio); Gustavo Caballero (Santos); Antonio Sanabria (Internacional).
Colômbia — 4 Jhon Arias (Palmeiras); Kevin Castaño (Atlético-MG); Kevin Viveros (Athletico-PR); Andrés Gómez (Vasco).
Uruguai — 3 Joaquín Piquerez (Palmeiras); Giorgian de Arrascaeta e Guillermo Varela (Flamengo).
Argentina — 2 Agustín Giay e Flaco López (Palmeiras).
Peru — 2 André Carrillo (Corinthians) e Erick Noriega (Grêmio).
Bolívia — 1 Miguelito (Santos).
Venezuela — 1 Nahuel Ferraresi (Botafogo).
Cabo Verde — 1 Jovane Cabral (Grêmio).
Camarões — 1 Duplex Tchamba (Remo).
Não é pouca coisa.
Quando o jogador viaja, o clube vai junto
Uma convocação não significa apenas que determinado atleta deixou o clube por alguns dias.
Quando Arrascaeta se apresenta ao Uruguai, ele continua sendo jogador do Flamengo.
Quando Piquerez veste a camisa uruguaia, o Palmeiras aparece junto.
Quando Plata e Anthony Valencia chegam à seleção equatoriana, o desempenho deles no Brasil interessa à imprensa e à comissão técnica do Equador.
O mesmo ocorre com paraguaios, colombianos, peruanos, venezuelanos e atletas de outros países.
Isso coloca os clubes brasileiros permanentemente no radar de outros mercados.
Não significa que milhões de pessoas de cada um desses países passarão automaticamente a assistir ao Campeonato Brasileiro. Mas significa que o Brasileirão passa a fazer parte do noticiário, do acompanhamento das seleções, do trabalho de scouts e da discussão futebolística desses mercados.
Essa exposição tem valor.
O Brasil virou destino, não apenas exportador
Durante décadas, a principal relação do futebol brasileiro com o mercado internacional esteve na exportação.
O Brasil revelava e vendia.
Esse cenário ainda existe, principalmente com os talentos mais jovens, mas outra movimentação ganhou força: o país também se tornou destino.
O poder econômico dos principais clubes brasileiros aumentou. Jogadores importantes do continente passaram a encontrar aqui salários competitivos, estádios cheios, Libertadores, grandes audiências e possibilidade de continuar defendendo suas seleções.
A convocação de 29 jogadores estrangeiros que atuam na Série A para dez seleções de fora do Brasil nesta Data Fifa é uma demonstração concreta desse novo cenário.
O Brasileirão não recebe apenas estrangeiros.
Recebe jogadores de seleção.
E isso muda o tamanho da competição.
O estrangeiro também traz olhos para o Brasileirão
Essa internacionalização cria uma rede difícil de medir apenas pela audiência de televisão.
Há jornalistas acompanhando atletas de seus países.
Seleções monitorando semanalmente suas atuações.
Empresários observando o mercado.
Clubes estrangeiros acompanhando jogadores.
Torcedores procurando informações sobre atletas de suas seleções.
Cada uma dessas conexões aumenta a circulação internacional do futebol brasileiro.
É também por isso que a discussão sobre estrangeiros precisa ultrapassar a simples contagem de vagas numa súmula.
O estrangeiro não traz apenas uma opção técnica ao treinador.
Ele também abre uma porta para que o Brasileirão seja acompanhado no mercado de seu país.
Uma vitrine que pode ficar menor
É nesse ponto que as mudanças aprovadas pela CBF merecem atenção.
A entidade decidiu reduzir gradualmente o número de estrangeiros que poderão ser relacionados por partida. O limite cairá ano após ano até chegar a cinco em 2030.
A medida tem como um dos objetivos aumentar o espaço destinado aos jogadores brasileiros, especialmente aos mais jovens.
Mas existe um possível efeito colateral.
Se houver menos espaço para estrangeiros, os clubes naturalmente precisarão ser mais seletivos nas contratações internacionais.
E, com menos jogadores estrangeiros atuando no país, o Brasileirão poderá perder parte das conexões internacionais que construiu nos últimos anos.
Não significa que 11 seleções deixarão de observar o Brasil.
Nem que o campeonato perderá imediatamente seu interesse internacional.
Mas uma redução relevante desse fluxo pode significar menos jogadores de outros países, menos seleções acompanhando atletas aqui e menos presença espontânea dos clubes brasileiros em mercados estrangeiros.




