O ex-jogador argentino Alejandro Mancuso, que defendeu Flamengo e Palmeiras na década de 1990, está no centro de uma investigação jornalística que revelou a negociação de licenças de treinador consideradas falsas pela Associação de Técnicos do Futebol Argentino (ATFA). O caso envolve nomes históricos do futebol brasileiro e internacional e levanta questionamentos sobre a autenticidade de documentos utilizados na formação e no registro de técnicos.

A investigação foi conduzida durante quase dois anos pela jornalista Joanna de Assis, do UOL, e publicada em 7 de outubro de 2026. O trabalho reuniu mensagens, áudios, documentos e depoimentos de jogadores e ex-jogadores procurados pelo argentino.

Entre os nomes mencionados na reportagem estão Thiago Silva, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Dejan Petkovic, Paolo Guerrero, Diego Lugano, Luiz Gustavo e Paulinho, além de outros profissionais do futebol.

Como funcionava a oferta das licenças

Segundo a apuração do UOL, Mancuso oferecia um caminho acelerado para que atletas conhecidos obtivessem quatro níveis de certificação para treinadores: C, B, A e PRO.

O pacote custava aproximadamente R$ 100 mil, equivalente a US$ 20 mil na oferta apresentada, e os documentos poderiam chegar em cerca de dez dias. O procedimento dispensaria etapas de formação que normalmente exigem anos de estudo e avaliações.

A proposta era apresentada como uma facilidade destinada a jogadores de carreira consolidada, que já possuíam experiência dentro de campo e pretendiam continuar no futebol após a aposentadoria.

Mancuso, que também trabalhou como auxiliar de Diego Maradona na seleção argentina durante a Copa do Mundo de 2010, utilizava sua trajetória e seus contatos no futebol para transmitir confiança aos interessados.

Entidade argentina nega validade dos documentos

A ATFA declarou ao UOL que Mancuso não possuía vínculo institucional ou autorização para agir em nome da entidade.

Segundo a associação, os certificados analisados não correspondem à documentação legítima emitida por sua estrutura de formação.

A investigação identificou inconsistências nos papéis, como datas incompatíveis, problemas em códigos de verificação, erros de preenchimento e ausência de procedimentos necessários à regularização das licenças.

Um dos exemplos envolve um certificado de Alex de Souza que apresentava a palavra referente a futsal no lugar da modalidade futebol.

A apuração também apontou problemas relacionados ao Anexo 9, documento previsto nos procedimentos de transferência e autorização para formação de treinadores entre associações nacionais.

Mancuso, por sua vez, negou ao UOL ter vendido licenças falsas. Ele afirmou que atuava na aproximação entre interessados e a entidade argentina, atribuindo os problemas à falta de conclusão de etapas presenciais por parte dos atletas.

A ATFA informou ainda que fatos relacionados ao caso foram investigados pela Justiça argentina em 2025. A investigação criminal mencionada foi posteriormente arquivada.

Felipe Melo desconfiou e recuperou o dinheiro

Em novo desdobramento publicado em 8 de outubro, Joanna de Assis revelou que Felipe Melo conseguiu recuperar o valor pago após desconfiar da documentação recebida.

O ex-volante, que negociou um desconto de 50% no preço originalmente apresentado, teria desembolsado US$ 10 mil.

Segundo seu relato, a desconfiança surgiu quando as atividades presenciais prometidas não foram realizadas, apesar da entrega dos documentos.

Felipe solicitou a devolução do dinheiro e recebeu reembolso em setembro de 2025. O ex-jogador afirmou ter acreditado inicialmente na legitimidade da proposta.

Diego Souza chegou a ser registrado como treinador

Outro caso revelado pela jornalista em 8 de outubro envolve Diego Souza, ex-jogador de Vasco, Grêmio e Palmeiras.

Segundo a reportagem, Diego foi registrado como treinador do Joinville no sistema da CBF utilizando uma licença PRO atribuída à ATFA que, posteriormente, foi identificada como falsa.

Diego declarou que acreditava na regularidade da documentação recebida de Mancuso e afirmou ter sido surpreendido pelas informações da investigação.

Questionada pelo UOL, a CBF informou que cabe aos clubes verificar a autenticidade dos documentos apresentados para o registro profissional.

O episódio ampliou a dimensão do caso porque mostrou que o problema não se limitava à compra e ao recebimento de certificados: uma documentação questionada chegou a integrar um procedimento de registro de treinador.

Qual é a situação dos jogadores citados?

A presença de um atleta na investigação não significa, por si só, que ele tenha participado conscientemente de uma falsificação.

Os relatos publicados apresentam situações diferentes. Alguns profissionais disseram acreditar que estavam adquirindo uma facilidade legal destinada a ex-jogadores. Outros reconheceram que aceitaram a promessa de obter certificações sem completar a formação tradicional.

Alex de Souza, por exemplo, reconheceu ao UOL que errou ao aceitar o procedimento oferecido por Mancuso e informou que não utilizou a licença argentina.

Petkovic relatou que não concluiu a etapa presencial exigida, enquanto Felipe Melo afirmou ter desconfiado posteriormente e conseguido seu dinheiro de volta.

Portanto, é necessário distinguir a falsidade documental apontada pela entidade argentina da eventual responsabilidade individual de cada pessoa envolvida.

O que o caso pode representar para o futebol

O episódio expõe dificuldades na verificação de certificações internacionais e levanta uma questão central: como impedir que documentos irregulares sejam apresentados ou utilizados por profissionais em busca de oportunidades como treinadores?

Também evidencia a importância da formação técnica, que envolve conhecimentos sobre metodologia, gestão de equipes, preparação de jogos e outras competências que não dependem exclusivamente da experiência como atleta.

No caso de Mancuso, a repercussão é especialmente relevante para o público brasileiro por sua passagem pelo Flamengo e pelo Palmeiras, além da presença de ídolos de diferentes gerações entre os nomes citados.

A investigação de Joanna de Assis trouxe ao conhecimento público uma prática que, segundo a reportagem, circulava entre personagens conhecidos do futebol havia anos.

Com novos relatos divulgados e a identificação de documentos questionados, o caso continua produzindo repercussões. O esclarecimento sobre eventuais responsabilidades depende da análise individual dos fatos, das provas e das autoridades competentes.