O boicote à reunião com o governo federal já virou fato consumado. Agora, a discussão entre os clubes brasileiros entra em outra fase: o que fazer para tentar reverter, suspender ou ao menos reduzir os efeitos da Medida Provisória que proibiu a operação das bets no país.

Flamengo e Palmeiras aparecem entre os clubes mais ativos na articulação que levou ao esvaziamento do encontro marcado para esta terça-feira (29), em Brasília. A reunião acabou cancelada pelo próprio governo depois que dirigentes de várias equipes indicaram que não enviariam representantes. Folha de S.Paulo

Mas o ponto mais importante agora não é mais o boicote.

A questão passa a ser o próximo movimento.

Há, neste momento, três caminhos sendo discutidos em paralelo: a contestação da MP no Supremo Tribunal Federal, a atuação política no Congresso Nacional e a possibilidade de ações judiciais envolvendo os prejuízos sofridos pelos clubes.

STF já entrou no jogo

A reação jurídica já começou, embora ainda não diretamente por meio dos clubes.

A Associação Nacional pela Segurança Jurídica dos Jogos e Apostas ingressou no Supremo Tribunal Federal com a Ação Direta de Inconstitucionalidade 8024. A entidade pede a suspensão integral da MP e questiona, entre outros pontos, a existência dos requisitos de urgência necessários para edição de uma Medida Provisória. Notícias STF

A MP 1.394/2026 extingue as autorizações federais, estaduais e distritais para exploração das apostas e estabelece que as empresas não terão direito à devolução dos valores pagos pelas outorgas nem a indenização.

Outras entidades ligadas ao setor também articulam medidas judiciais e políticas para tentar impedir que a proibição se torne definitiva. UOL Economia

Para os clubes, essa frente interessa diretamente porque o futuro dos contratos de patrocínio depende do que acontecer com a validade da medida.

Bap já apontava STF e Congresso como caminhos

Na entrevista concedida ao MengoCast, canal oficial do Flamengo, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, deixou claro que espera uma mudança de rumo por meio das instituições.

“Espero sinceramente que [...] isso seja revisitado, ou pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Congresso Nacional”, afirmou o dirigente.

Bap também defendeu que o tema passe pelo Legislativo e argumentou que a rejeição da medida não deveria ser tratada apenas como defesa das casas de apostas, mas como uma discussão sobre o processo utilizado para alterar regras que atingem contratos já estabelecidos. UOL

A declaração ganha outro peso agora.

Quando o presidente do Flamengo falou, ainda não estava consolidado o movimento coletivo que acabaria esvaziando a reunião em Brasília. Dias depois, Flamengo e outros grandes clubes passaram a atuar de maneira coordenada.

A sequência dos fatos mostra que a reação deixou de ser apenas individual.

Ação contra a União também aparece no horizonte

Existe ainda uma possibilidade diferente da tentativa de derrubar a MP.

Especialistas em direito consultados pela imprensa afirmam que clubes prejudicados por rescisões ou suspensão de contratos podem tentar buscar ressarcimento judicial contra a União.

José Frederico Cimino Manssur, especialista em regulação de apostas esportivas, avaliou que os clubes podem ajuizar ações buscando compensação pelas perdas provocadas pela mudança regulatória. Folha de S.Paulo

Isso não significa, neste momento, que Flamengo ou qualquer grupo de clubes já tenha protocolado uma ação conjunta.

É importante fazer essa distinção.

Há uma possibilidade jurídica em discussão e uma reação organizada dos clubes, mas ainda não existe confirmação pública de uma ação coletiva já apresentada contra a União.

Paralisação do Brasileiro entra nas discussões

A pressão também pode ultrapassar os tribunais e o Congresso.

Dirigentes de clubes passaram a discutir até mesmo a possibilidade de uma paralisação do Campeonato Brasileiro como forma de protesto contra os efeitos da MP.

Neste momento, trata-se de uma hipótese em debate, e não de uma decisão tomada pelos clubes. Folha de S.Paulo

O simples fato de essa alternativa ter entrado nas conversas mostra, porém, o tamanho da insatisfação.

O futebol brasileiro recebe mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios diretos de casas de apostas apenas entre clubes da Série A. Em 2025, esse valor chegou a aproximadamente R$ 1,03 bilhão, segundo levantamento da consultoria Convocados citado nas discussões sobre o tema. Folha de S.Paulo

Por isso, os dirigentes argumentam que uma mudança imediata nas regras produz consequências que vão muito além da retirada de uma marca das camisas.

Governo fala em alternativas; clubes resistem

Antes do cancelamento da reunião, integrantes do governo estudavam discutir linhas de crédito e mecanismos de renegociação de dívidas com os clubes.

Parte dos dirigentes, porém, não vê essas propostas como substitutas diretas das receitas de patrocínio.

O entendimento entre algumas equipes é simples: uma linha de crédito continua sendo uma dívida a ser paga, enquanto um patrocínio representa receita comercial entrando diretamente no caixa.

Esse contraste também ajuda a explicar por que Flamengo e Palmeiras aparecem entre os clubes mais resistentes à proposta de discussão feita pelo governo. Ambos possuem situação financeira diferente de equipes altamente endividadas e dependem menos de programas de renegociação para equilibrar suas contas. Folha de S.Paulo

O próprio Palmeiras já indicou que não pretende utilizar eventual programa de “socorro” governamental para compensar o fim das bets. UOL

O movimento agora é maior que o Flamengo

O Flamengo é protagonista dessa discussão porque possui um dos maiores contratos de patrocínio do futebol brasileiro e porque Bap assumiu posição pública bastante firme contra a medida.

Mas o problema deixou de ser exclusivamente rubro-negro.

Clubes de diferentes divisões passaram a avaliar o impacto financeiro, departamentos jurídicos começaram a estudar alternativas e entidades do setor já levaram a discussão ao STF.

O que começou como uma decisão regulatória agora se transforma numa disputa envolvendo futebol, contratos privados, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal.

A próxima etapa será justamente observar se a articulação dos clubes conseguirá transformar a insatisfação atual em uma ação coordenada concreta.