A PANELA DE PRESSÃO CHAMADA FLAMENGO

A eliminação do Flamengo diante do Estudiantes, em pleno Maracanã lotado, pela semifinal da Copa Libertadores da América, parece ter retirado a tampa de uma panela que já vinha fervendo havia muito tempo. O que se viu depois da queda continental não foi apenas a frustração de uma torcida que esperava disputar mais uma final. Foi um verdadeiro turbilhão de informações, questionamentos e problemas de relacionamento que colocaram em evidência as fragilidades do departamento de futebol. A impressão é de que o Flamengo acumulou pressão durante meses e agora começa a sentir as consequências.

Há muito tempo venho chamando a atenção para os sinais de desequilíbrio nos bastidores rubro-negros. Não estamos falando apenas de resultados ruins ou de escolhas equivocadas durante as partidas. Estamos falando de três camadas fundamentais para o funcionamento de um clube de futebol: a diretoria, a comissão técnica e os jogadores.

Quando essas estruturas deixam de trabalhar em sintonia, os problemas inevitavelmente aparecem dentro de campo. E o que se observa no Flamengo é justamente uma sucessão de relatos de desgaste, dificuldades de comunicação e questionamentos sobre a forma como o futebol está sendo conduzido.

O caso de José Boto é um exemplo preocupante. O diretor de futebol enfrenta críticas relacionadas ao distanciamento do elenco e à maneira como conduz seu relacionamento com os jogadores. Um dirigente não precisa ser amigo dos atletas, participar de todas as conversas ou frequentar diariamente o vestiário.

Mas precisa construir confiança, estabelecer diálogo e demonstrar presença nos momentos difíceis. Os relatos sobre o uso frequente de seguranças também alimentam questionamentos sobre sua postura. Existe algum problema em um dirigente utilizar segurança?

Evidentemente que não. Pode haver razões perfeitamente legítimas. O problema é quando a imagem de distanciamento se soma às reclamações sobre comunicação e liderança.

Nesse cenário, a proteção física acaba se tornando, para muitos, um símbolo da distância entre quem dirige e quem joga.

E essa discussão não começou agora. A saída de Filipe Luís, a chegada de Leonardo Jardim e as mudanças na condução do departamento de futebol já haviam provocado questionamentos. Agora, o próprio futuro dos dois portugueses está em discussão.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, Jardim poderá deixar o Flamengo mesmo que conquiste o Campeonato Brasileiro, enquanto José Boto, cujo contrato termina em dezembro, também terá seu trabalho avaliado. Ainda não existem demissões oficialmente anunciadas, mas o simples fato de o clube considerar mudanças importantes evidencia que a confiança no projeto está sendo colocada à prova.

A grande pergunta é: como um clube que investe tanto dinheiro, reúne jogadores experientes e possui uma das estruturas mais poderosas do continente consegue chegar à reta decisiva da temporada cercado por tantas dúvidas? O Flamengo pode conquistar o Brasileirão, mas um título não deveria servir para esconder problemas de gestão. Da mesma forma, uma eliminação não pode apagar automaticamente tudo o que foi construído.

É preciso avaliar o conjunto da obra. E, neste momento, o conjunto revela um departamento de futebol pressionado, uma comissão técnica questionada e um elenco que precisa recuperar a confiança depois de uma eliminação dolorosa.

Como se tudo isso não fosse suficiente, surgiu nesta sexta-feira, 23 de outubro, uma informação de enorme repercussão. O jornalista Thiago Asmar, conhecido como Pilhado, divulgou que Jorginho teria apresentado resultado positivo em um exame antidoping da Conmebol. Segundo o comunicador, uma contraprova estaria prevista para terça-feira, dia 27.

O exame mencionado não seria referente ao confronto contra o Estudiantes. A informação é grave, especialmente porque envolve um dos jogadores mais importantes do atual elenco rubro-negro. Entretanto, até este momento, não existe confirmação oficial de infração, e o jogador tem direito aos procedimentos de análise e defesa.

Não podemos confundir uma informação jornalística com uma condenação.

Jorginho, aliás, já havia vivido uma noite amarga contra o Estudiantes. O volante teve sua cobrança defendida por Muslera na disputa de pênaltis que decretou a eliminação do Flamengo. Trata-se de um jogador experiente, com trajetória no futebol europeu, liderança e importância na organização do meio-campo.

Uma eventual suspensão seria um problema esportivo considerável, mas não existe qualquer fundamento para relacionar o pênalti perdido ao suposto exame antidoping. O que preocupa, neste momento, é o efeito de mais uma notícia de grande impacto sobre um ambiente que já enfrenta enorme desgaste emocional e cobranças intensas.

E é justamente aí que a metáfora da panela de pressão ganha sentido. Primeiro veio a eliminação. Depois, voltaram à superfície os questionamentos sobre Leonardo Jardim e José Boto.

Agora, a informação divulgada por Pilhado acrescenta mais um foco de preocupação. Enquanto tudo isso acontece, o Flamengo segue líder do Campeonato Brasileiro, com 67 pontos, apenas um à frente do Palmeiras. São sete rodadas para defender uma liderança que pode representar a salvação esportiva da temporada.

O desafio não é apenas vencer partidas: é impedir que os problemas externos comprometam a concentração de um elenco que ainda disputa um título importante.

O presidente Bap precisa compreender que administrar o Flamengo não significa apenas contratar jogadores, escolher dirigentes ou anunciar investimentos. Significa também construir um ambiente capaz de suportar derrotas, cobranças e decisões difíceis. A responsabilidade pelo momento atual não pode ser depositada exclusivamente no treinador ou nos atletas. Quem tomou as decisões que moldaram este projeto também precisa responder pelos resultados. O Flamengo não pode viver permanentemente entre mudanças de comando, crises de relacionamento e promessas de reconstrução.

Uma panela de pressão não explode simplesmente porque está quente. Ela se torna perigosa quando a pressão aumenta e os mecanismos de controle deixam de funcionar. No Flamengo, os sinais de alerta estão aparecendo por todos os lados. Ainda existe tempo para reorganizar o ambiente, recuperar a confiança e buscar o Campeonato Brasileiro. Mas será preciso muito mais do que discursos após as partidas.

Quando começa a sair fumaça, é sinal de que alguma coisa precisa ser feita. E se ninguém controlar o fogo, a panela pode explodir.

Os próximos capítulos envolverão o futuro de Leonardo Jardim, a continuidade de José Boto e os esclarecimentos sobre a informação divulgada a respeito de Jorginho. Três situações diferentes, mas que se encontram dentro da mesma estrutura pressionada.

O Flamengo ainda pode terminar o ano campeão brasileiro. A questão é saber em que condições chegará até lá — e o que restará desse projeto quando a temporada acabar.