O Flamengo teve um jogo de altos e baixos no Mineirão.
Fez um primeiro tempo muito bom, controlou o Cruzeiro durante vários momentos, abriu o placar e parecia ter a partida nas mãos.
Depois veio o segundo tempo.
E foi como se outro Flamengo tivesse entrado em campo.
A equipe se desligou. Perdeu o controle, deixou o Cruzeiro crescer e viu uma partida que estava vencendo por 1 a 0 terminar em derrota por 2 a 1.
Três pontos foram embora.
E, como se não bastasse, o Palmeiras entrou em campo no dia seguinte, venceu o Vasco e voltou a abrir seis pontos de vantagem sobre o Flamengo no Campeonato Brasileiro.
Mas será que o problema foi somente a derrota?
Ou aquilo que a derrota acabou escancarando?
Porque quando olhamos além do placar, começamos a enxergar algumas situações que precisam ser discutidas.
O que aconteceu naquela reunião?
Há pouco tempo, Flamengo passou por uma reunião envolvendo elenco, comissão técnica e dirigentes.
Uma daquelas conversas internas em que problemas precisam ser colocados sobre a mesa.
Podemos chamar de reunião, cobrança ou até de uma verdadeira “lavagem de roupa suja”.
Depois dela, o Flamengo apresentou melhora dentro de campo.
Isso é positivo.
Mas existe também uma segunda leitura.
Quando jogadores, treinador e direção precisam sentar para discutir profundamente aquilo que não está funcionando, é porque alguma coisa não estava bem.
E algumas das informações que surgiram daquele encontro apontavam justamente para divergências sobre a maneira como o Flamengo estava jogando.
O elenco teria mostrado desconforto com determinadas situações táticas, especialmente com a tentativa de fazer o time atuar de maneira mais reativa, entregando a bola ao adversário em determinados momentos.
E esse é um ponto importante.
O Flamengo possui características muito próprias.
É um elenco montado para ter bola, controlar partidas, pressionar adversários e jogar no campo ofensivo.
Quando você tenta transformar esse time em algo que ele não consegue executar naturalmente, os problemas aparecem.
Samuel Lino deu uma pista
Depois da derrota para o Cruzeiro, Samuel Lino disse que o clima no vestiário estava muito ruim.
É claro que uma derrota provoca frustração.
Ninguém espera encontrar jogadores sorrindo depois de perder de virada uma partida tão importante.
Também seria irresponsável pegar apenas essa frase e anunciar uma crise no Flamengo.
Mas precisamos olhar para o contexto.
Não estamos falando de uma declaração isolada.
Estamos falando de um ambiente que já passou por reunião interna, cobranças sobre modelo de jogo e ajustes pedidos pelo próprio elenco.
Quando tudo isso começa a aparecer ao mesmo tempo, é natural perguntar:
o Flamengo está realmente em sintonia?
E Leonardo Jardim também falou
A entrevista coletiva de Leonardo Jardim depois do jogo também chamou atenção.
O treinador criticou a maneira como o Flamengo administrou a partida.
Falou sobre erros, perdas de bola, falta de controle e dificuldade para comandar o jogo quando estava em vantagem.
E ele tem razão em cobrar.
O técnico precisa apontar os erros de seus jogadores.
Mas existe uma diferença entre corrigir internamente e começar a expor publicamente determinadas insatisfações.
Principalmente quando, pouco tempo antes, surgiram informações de que o próprio elenco havia feito cobranças em relação ao modelo utilizado pelo treinador.
Imagine a situação.
Os jogadores dizem ao comandante que determinada forma de jogar não está funcionando.
O treinador precisa mudar algumas coisas.
A equipe melhora.
Pouco depois, acontece uma derrota e o comandante vai publicamente dizer que seus jogadores não souberam controlar a partida.
É possível que isso seja apenas futebol.
Treinador cobra jogador, jogador conversa com treinador e a temporada continua.
Mas também é possível que exista ali uma relação que ainda não encontrou seu equilíbrio.
E é isso que precisa ser observado.
E onde está a direção de futebol?
Só que os problemas do Flamengo não podem ser colocados apenas nas costas de Leonardo Jardim.
Existe outra pergunta que precisa ser feita:
onde está a direção de futebol?
José Boto chegou ao Flamengo cercado de expectativa.
Esperava-se um dirigente atuante no mercado, capaz de antecipar movimentos, identificar necessidades do elenco e oferecer soluções ao treinador.
Até agora, vemos muitos nomes especulados.
Muitas possibilidades.
Muitos acenos.
Mas poucas soluções concretas.
Em determinados momentos, José Boto parece exercer quase um papel de figuração.
Uma espécie de Rainha da Inglaterra do futebol rubro-negro: aparece, acena, participa das conversas, mas o torcedor continua esperando aquilo que realmente importa — reforços e respostas.
O Flamengo possui um grande elenco.
Isso é verdade.
Mas possuir um grande elenco não significa não precisar de ajustes.
As carências existem.
O calendário é pesado.
Existem jogadores desgastados.
Existem posições nas quais uma lesão ou suspensão reduz rapidamente as opções.
E a janela não fica aberta para sempre.
BAP falou em corrigir a rota
BAP utilizou uma metáfora que ficou marcada.
Disse que precisou descer do trem porque ele estava seguindo pelo caminho errado, para então corrigir a rota.
Pois bem.
A pergunta agora precisa ser feita:
essa rota realmente está sendo corrigida?
Porque o futebol não pode ser administrado apenas com frases fortes.
É preciso mostrar o caminho através das decisões.
E aqui existe uma ironia difícil de ignorar.
Sem qualquer trocadilho, o antigo “maquinista” desse trem começou uma nova caminhada na Europa vencendo.
Filipe Luís estreou no Campeonato Francês com vitória pelo Monaco e já soma dois triunfos em seus dois primeiros jogos oficiais pelo clube.
É cedo?
Claro que é.
Duas partidas não provam absolutamente nada.
Da mesma maneira que uma derrota do Flamengo para o Cruzeiro não destrói o trabalho de Leonardo Jardim.
Mas o futebol é feito também de símbolos.
E enquanto o Flamengo tenta encontrar estabilidade depois de mudanças profundas no comando do futebol, Filipe Luís começa sua aventura europeia vencendo.
Então surge inevitavelmente outra pergunta:
será mesmo que aquele trem estava no caminho errado?
O Flamengo precisa olhar para dentro
O Flamengo continua possuindo um dos melhores elencos do continente.
Continua vivo nas grandes competições.
Continua capaz de fazer grandes partidas.
O primeiro tempo contra o Cruzeiro mostrou isso.
O problema é justamente a distância entre aquilo que esse Flamengo pode ser e aquilo que algumas vezes ele se transforma durante os jogos.
Um time dominante durante 45 minutos não pode simplesmente desaparecer no segundo tempo.
Uma equipe que luta pelo título não pode desperdiçar constantemente oportunidades de diminuir a diferença para o líder.
E uma estrutura do tamanho da do Flamengo não pode permitir que treinador, jogadores e direção pareçam caminhar em velocidades diferentes.
Talvez a derrota no Mineirão tenha sido apenas uma derrota.
Futebol também é isso.
Mas talvez ela tenha feito algo muito mais importante:
escancarado problemas que as vitórias anteriores estavam conseguindo esconder.
O Palmeiras abriu seis pontos.
A temporada continua.
Ainda existe tempo para reagir.
Mas antes de tentar alcançar quem está na frente, talvez o Flamengo precise descobrir se todos dentro do clube estão realmente seguindo na mesma direção.
Porque, se o trem precisa corrigir a rota mais uma vez, é melhor descobrir agora.
Antes que seja tarde demais.




