O Maracanã virou um centro de discussões nos últimos dias. Liminares, disputas judiciais, manifestações públicas, documentos e divergências sobre as condições do gramado colocaram novamente Flamengo, Fluminense e Vasco em lados opostos.
Mas, para mim, toda essa confusão deixa uma conclusão cada vez mais evidente: o Flamengo precisa ter seu próprio estádio.
Quantas vezes já ouvimos a frase: “O Maracanã é a casa do Flamengo”?
Será mesmo?
Quando somos donos de uma casa, temos autonomia sobre ela. Quando alugamos um imóvel, existem contratos, direitos e obrigações que precisam ser respeitados. O proprietário não pode simplesmente aparecer dizendo que vai dar uma festa, receber convidados ou dormir naquela residência porque decidiu que tem esse direito.
Tudo tem regras. Tudo tem limites.
É claro que o Maracanã é um patrimônio público e que sua concessão possui características diferentes das de um contrato residencial. Mas isso não elimina uma questão fundamental: quem assume os custos e as responsabilidades pela administração precisa ter condições de exercer sua função com segurança e previsibilidade.
Uma casa onde muita gente quer mandar
Flamengo e Fluminense venceram a licitação do Maracanã e assumiram compromissos financeiros importantes. São responsáveis pela operação, manutenção, conservação e pelos investimentos previstos no contrato.
Não estamos falando apenas de abrir os portões nos dias de jogos.
Estamos falando de cuidar do gramado, preservar estruturas, realizar reparos, administrar funcionários e garantir que o estádio esteja em condições de receber milhares de pessoas.
Enquanto isso, acompanhamos uma sucessão de disputas sobre a utilização do Maracanã por outros clubes, especialmente o Vasco.
Quero deixar claro que não defendo o fechamento do estádio para o Vasco ou para qualquer outra instituição. O futebol brasileiro precisa de estádios disponíveis e bem administrados.
O que questiono é até que ponto uma concessão pode oferecer tranquilidade a seus administradores quando decisões sobre sua utilização acabam constantemente discutidas na Justiça.
Existem cláusulas contratuais que precisam ser cumpridas. Existem direitos de terceiros que devem ser respeitados. Mas também existem limites técnicos, necessidades de manutenção e responsabilidades de quem administra.
O Maracanã não pode se transformar em uma casa onde todos querem decidir, mas poucos precisam enfrentar diretamente as obrigações da gestão.
O Flamengo precisa pensar além da concessão
Em setembro de 2024, Flamengo e Fluminense assinaram um contrato de concessão com duração de 20 anos.
São duas décadas de administração, investimentos e compromissos com um patrimônio que continuará pertencendo ao Estado.
E é justamente isso que me incomoda.
O Flamengo pode administrar o Maracanã durante muitos anos, transformá-lo em uma operação rentável e continuar sendo reconhecido como seu principal protagonista esportivo.
Mas nunca será proprietário do estádio.
A concessão pode ser um excelente negócio. Pode gerar receitas e oferecer vantagens comerciais importantes. Ainda assim, não representa a independência que um estádio próprio poderia proporcionar.
E não estou falando apenas de dinheiro.
Estou falando de autonomia para organizar um calendário, planejar eventos, explorar comercialmente a estrutura e tomar decisões dentro dos limites legais sem depender de uma concessão pública compartilhada.
BAP precisa olhar novamente para o sonho do estádio
Por isso, acredito que o presidente Luiz Eduardo Baptista, o BAP, precisa olhar com ainda mais carinho para o projeto do estádio próprio do Flamengo.
Sei que existem estudos, dificuldades técnicas, custos elevados e preocupações legítimas com a saúde financeira do clube. Construir um estádio não pode significar enfraquecer o futebol ou comprometer o futuro da instituição.
Mas o projeto também não pode perder sua importância estratégica.
O terreno do Gasômetro representa a possibilidade de construir algo que ultrapasse uma gestão presidencial. Um patrimônio do Flamengo, para o Flamengo e para as próximas gerações de rubro-negros.
E os acontecimentos recentes no Maracanã mostram por que essa discussão precisa continuar viva.
Não se trata de abandonar o estádio amanhã. Trata-se de planejar uma alternativa definitiva para que o Flamengo não dependa eternamente de um patrimônio que administra, mas não possui.
Maracanã pode ser nossa paixão, mas precisamos de uma casa nossa
O Maracanã faz parte da história do Flamengo. Ali conquistamos títulos, vivemos noites inesquecíveis e construímos uma relação emocional que nenhuma obra de concreto poderá apagar.
Mas história e propriedade são coisas diferentes.
O Flamengo pode continuar amando o Maracanã e, ao mesmo tempo, trabalhar para conquistar sua independência.
Não afirmo que um estádio próprio necessariamente dará mais lucro. Isso dependerá de investimento, financiamento, capacidade, receitas e eficiência na gestão. Mas acredito que oferecerá ao clube algo que hoje permanece limitado: o controle sobre seu próprio patrimônio.
O Flamengo cresceu, modernizou suas receitas e se tornou uma potência financeira do futebol sul-americano.
Agora precisa pensar em um futuro no qual também seja dono da sua casa.
Porque existe uma diferença enorme entre dizer que o Maracanã é nossa casa e realmente poder chegar, abrir a porta e afirmar:
“Cheguei. Estou na minha casa.”
E essa casa precisa ser do Flamengo.




