O futebol costuma reservar encontros curiosos entre passado e presente. Enquanto Leonardo Jardim tenta recuperar a confiança da torcida do Flamengo depois da eliminação para o Estudiantes, Filipe Luís, seu antecessor no comando rubro-negro, continua construindo seu caminho no futebol europeu. Na quinta-feira (22), o treinador brasileiro comandou o Monaco na vitória por 3 a 0 sobre o Freiburg, pela segunda rodada da Conference League, e voltou a colocar seu trabalho em evidência.
O resultado no Stade Louis-II confirmou o segundo triunfo consecutivo do Monaco na competição continental. Depois de superar o CSKA Sofia por 2 a 1, fora de casa, a equipe francesa recebeu o adversário alemão e construiu uma vitória convincente, com gols de Paris Brunner, ainda no primeiro tempo, Lamine Camara e Ansu Fati, ambos na etapa final.
A partida também representou uma resposta importante para Filipe Luís. No domingo anterior, o Monaco havia sofrido sua primeira derrota na temporada ao perder por 1 a 0 para o Lorient, pelo Campeonato Francês. A equipe deixou escapar a liderança da Ligue 1, mas conseguiu reagir poucos dias depois em uma competição europeia.
Não se trata de afirmar que o Monaco já encontrou sua versão definitiva ou que o treinador brasileiro esteja imune a críticas. Filipe Luís ainda enfrenta o desafio de consolidar seu trabalho em um campeonato competitivo e transformar bons resultados em regularidade. Entretanto, a sequência europeia oferece elementos concretos para acompanhar sua evolução.
No Flamengo, a situação é diferente. Leonardo Jardim chegou ao clube cercado de expectativas, mas a eliminação diante do Estudiantes voltou a colocar suas decisões em discussão. O time rubro-negro não conseguiu superar a equipe argentina durante os dois confrontos da semifinal e acabou deixando a Libertadores na disputa de pênaltis no Maracanã.
A queda continental foi especialmente dolorosa porque o Flamengo entrou na temporada com um elenco de alto investimento e a ambição de disputar todos os títulos. Em jogos eliminatórios, porém, qualidade individual e orçamento não substituem organização, capacidade de adaptação e eficiência nos momentos decisivos.
Jardim ainda tem um argumento esportivo importante a seu favor: a liderança do Campeonato Brasileiro. Após vencer o Bahia por 3 a 0, o Flamengo chegou aos 67 pontos e assumiu novamente a primeira posição, um ponto à frente do Palmeiras, antes dos compromissos desta rodada.
A diferença é que o Campeonato Brasileiro exige regularidade ao longo de muitos meses, enquanto uma semifinal de Libertadores cobra respostas imediatas. Um treinador pode apresentar resultados consistentes em pontos corridos e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades em confrontos eliminatórios. São aspectos diferentes de um trabalho que precisam ser avaliados em conjunto.
É justamente essa distinção que torna a comparação entre Filipe Luís e Leonardo Jardim interessante. De um lado, o ex-técnico rubro-negro tenta afirmar sua identidade em uma nova realidade, diante de adversários e exigências do futebol europeu. Do outro, seu sucessor procura manter o Flamengo competitivo internamente enquanto enfrenta o desgaste de uma eliminação continental.
A análise, portanto, não pode ficar restrita aos resultados mais recentes. Os dois treinadores comandam elencos diferentes, disputam competições de características distintas e trabalham sob pressões particulares. Ainda assim, a trajetória de Filipe Luís reacende uma discussão legítima sobre as escolhas de planejamento feitas pela direção do Flamengo.
A decisão de trocar de treinador precisa ser julgada não apenas pelas expectativas criadas na contratação, mas também pelo desenvolvimento coletivo da equipe, pela utilização dos jogadores e pela capacidade de alcançar os objetivos estabelecidos para a temporada.
No caso de Jardim, a reta final do Brasileirão terá peso decisivo. O Flamengo depende de suas próprias respostas em campo para preservar a liderança e transformar a campanha nacional em uma conquista. Já Filipe Luís terá novos testes na França e na Europa para demonstrar até onde seu projeto pode chegar.
A vitória do Monaco sobre o Freiburg não decide a comparação entre os dois treinadores. Mas mantém viva uma pergunta que ganhou ainda mais força depois da eliminação rubro-negra: o Flamengo fez a escolha certa ao interromper o trabalho de Filipe Luís?








