O Flamengo pode entrar em 2027 diante de uma realidade financeira muito diferente daquela considerada quando assinou alguns dos principais contratos de seu atual planejamento. E o alerta não veio de fora do clube. Partiu do próprio presidente rubro-negro, Luiz Eduardo Baptista, o Bap.

Em entrevista ao Poder360, na sexta-feira (25), Bap colocou números no impacto do fim das bets, mas foi além. Falou sobre contratos que já foram assinados, citou Lucas Paquetá, mencionou renovações de jogadores e deixou uma pergunta que ajuda a dimensionar a preocupação dentro do Flamengo:

“A quem que a gente reclama?”

A pergunta apareceu quando Bap explicou que o Flamengo assumiu compromissos considerando um fluxo de receitas que fazia parte do planejamento do clube e vinha de uma atividade legal e regulamentada.

É exatamente aí que o problema deixa de ser apenas a perda de um patrocinador e passa a atingir diretamente o Flamengo de 2027.

Paquetá entra na conta

Bap usou um exemplo que qualquer rubro-negro consegue entender: Lucas Paquetá.

O meia foi a maior contratação da história do futebol brasileiro. O Flamengo investiu cerca de R$ 260 milhões para tirá-lo do West Ham no início desta temporada.

Mas uma contratação desse tamanho não impacta somente o caixa do dia em que o jogador é apresentado.

Existem parcelas, salários e compromissos distribuídos ao longo do contrato. Ao mesmo tempo, o Flamengo renovou vínculos de outros jogadores e montou seu planejamento esportivo considerando receitas futuras.

Foi justamente isso que Bap colocou na mesa.

Ao falar dos contratos assumidos, o presidente citou a contratação de Paquetá e também as renovações feitas pelo clube. Na avaliação dele, essas decisões foram tomadas dentro de uma realidade em que as receitas provenientes das bets eram legais, estavam regulamentadas e faziam parte das projeções financeiras.

O contrato foi assinado.

O jogador foi contratado.

Os compromissos continuam existindo.

O que pode desaparecer é uma das receitas consideradas quando essas decisões foram tomadas.

Por isso, Bap classificou a situação como “perturbadora e altamente desconfortável”.

Não significa que o Flamengo esteja dizendo que não conseguirá pagar Paquetá ou qualquer outro jogador.

Bap não afirmou isso.

O que o presidente questiona é como o clube deverá reorganizar suas contas para continuar cumprindo compromissos já assumidos se uma fonte tão grande de receita desaparecer praticamente de uma temporada para outra.

E é aí que o tamanho dos números começa a preocupar.

Não são apenas os R$ 269 milhões da camisa

O contrato da Betano é gigantesco. O Flamengo recebe aproximadamente R$ 268 milhões por ano, no maior patrocínio máster do futebol brasileiro.

Seria natural, portanto, imaginar que esse é o tamanho máximo do problema.

Segundo Bap, não é.

O presidente estima que a exposição financeira do Flamengo ao ecossistema das apostas esteja entre R$ 400 milhões e R$ 430 milhões por ano.

Isso acontece porque o dinheiro das bets não chega ao clube somente pela marca estampada na camisa.

Há publicidade nas competições, placas ao redor do campo, propriedades comerciais, receitas vinculadas aos campeonatos e outras formas pelas quais o dinheiro desse mercado circula dentro do futebol brasileiro e acaba chegando aos clubes.

Um levantamento da Sports Value ajuda a dimensionar essa dependência. Em 2025, o Flamengo recebeu R$ 269 milhões de empresas de apostas. O valor representou 50% de toda a receita de marketing do clube naquele ano.

É um número enorme.

E ajuda a entender por que simplesmente retirar uma empresa da camisa e procurar outra não necessariamente resolveria o problema.

Todo mundo procuraria patrocinador ao mesmo tempo

Esse foi outro ponto importante levantado por Bap.

Se as casas de apostas desaparecerem do futebol brasileiro, o Flamengo não estará sozinho procurando dinheiro.

Camisas de outros clubes ficarão disponíveis.

Placas publicitárias ficarão disponíveis.

Propriedades comerciais dos campeonatos precisarão de novos anunciantes.

Programas esportivos, transmissões e outros produtos ligados ao futebol também irão ao mercado atrás de empresas capazes de substituir os investimentos das bets.

E isso cria um problema adicional.

O futebol colocaria uma quantidade enorme de espaços publicitários no mercado justamente no momento em que perderia um dos setores que mais dinheiro colocou nesses espaços nos últimos anos.

O Flamengo possui uma das marcas mais fortes do continente e certamente continuará atraindo empresas interessadas em associar seus nomes ao clube.

A questão é outra: existiriam empresas suficientes dispostas a pagar os mesmos valores?

Bap considera extremamente difícil substituir integralmente, no curto prazo, o dinheiro que hoje vem desse mercado.

É por isso que o problema não termina na camisa.

Bap prevê “efeito dominó”

Quando perguntado sobre as consequências dessa perda de receita, Bap foi direto:

“Vai haver um efeito dominó nisso, sem sombra de dúvida.”

Essa talvez seja a frase que melhor resume o tamanho do alerta.

Imagine as peças.

A primeira é a receita das bets.

Se ela cai, o Flamengo precisa encontrar centenas de milhões de reais em novas receitas.

Se não conseguir substituir tudo, chega a segunda peça: o orçamento precisa ser revisto.

Depois vêm as demais.

Novas contratações.

Renovações.

Folha salarial.

Estrutura administrativa.

Funcionários.

Futebol feminino.

Esportes olímpicos.

Contratos que já estão em vigor.

Bap não anunciou cortes em nenhuma dessas áreas. Também não afirmou que o Flamengo reduzirá necessariamente o investimento no futebol.

Mas deixou claro que ajustes seriam necessários caso a perda projetada se concretize.

É isso que ele chama de efeito dominó.

Feminino e esportes olímpicos também entram no alerta

A preocupação fica ainda mais evidente quando Bap sai do futebol masculino.

Segundo o presidente, o Flamengo gasta aproximadamente R$ 70 milhões por ano entre futebol feminino e esportes olímpicos.

Desse total, ele calcula que algo entre R$ 20 milhões e R$ 21 milhões, perto de 30%, tenha relação direta ou indireta com receitas provenientes do ecossistema das apostas.

Isso não significa que 30% dessas modalidades serão cortados.

Significa que existe uma parcela relevante do dinheiro utilizado para sustentá-las que precisaria ser substituída.

E modalidades com menor capacidade de geração própria de receita acabam ficando mais expostas quando o orçamento geral do clube sofre uma mudança brusca.

Por isso a declaração sobre o efeito dominó ganha importância.

A discussão não envolve apenas quem o Flamengo poderá contratar na próxima janela.

Envolve a estrutura inteira do clube.

Flamengo tem força para reagir, mas existe uma diferença

É importante separar preocupação de colapso.

O Flamengo continua sendo um clube com enorme capacidade de geração de receitas.

Em 2025, o faturamento chegou a R$ 2,09 bilhões. Os R$ 269 milhões provenientes dos patrocínios das bets representaram aproximadamente 13% desse total.

Além disso, Flamengo tem torcida, audiência, exposição internacional e uma força comercial que poucos clubes brasileiros possuem.

Portanto, dizer que o clube ficará sem condições de pagar suas contas seria ir muito além do que Bap declarou.

O problema colocado pelo presidente é mais específico.

Uma coisa é preparar um orçamento sabendo antecipadamente que determinada receita não existirá.

Outra completamente diferente é assinar contratos plurianuais contando com uma receita legal e, posteriormente, precisar reorganizar o planejamento porque essa fonte pode desaparecer.

Foi justamente sobre isso que Bap falou.

O dinheiro das bets não financiava apenas decisões futuras.

Ele também estava dentro das projeções utilizadas para decisões que já foram tomadas.

E agora, 2027?

É por isso que 2027 passa a ser tão importante.

Paquetá continuará sendo jogador do Flamengo.

Os contratos renovados continuarão vigentes.

As parcelas assumidas pelo clube continuarão vencendo.

Funcionários continuarão recebendo.

O futebol feminino continuará precisando de orçamento.

Os esportes olímpicos continuarão custando dinheiro.

E o Flamengo continuará querendo competir pelos principais títulos.

O que poderá mudar é a quantidade de dinheiro disponível para fazer tudo isso.

Se Bap estiver correto e o impacto alcançar algo entre R$ 400 milhões e R$ 430 milhões por ano, a diretoria terá basicamente três caminhos: substituir receitas, reduzir despesas ou fazer as duas coisas simultaneamente.

O tamanho de cada movimento dependerá do que acontecer daqui para frente.

Mas a entrevista ao Poder360 revelou algo que até então não estava colocado dessa maneira pelo próprio presidente:

o Flamengo assumiu compromissos contando com uma fonte de receita que agora está ameaçada.

E essa conta não desaparece junto com as bets.