O Flamengo entrou em campo contra o Cruzeiro, no Mineirão, e mais uma vez não foi apenas o resultado dentro das quatro linhas que chamou atenção. A transmissão da Globo alcançou 31 pontos de audiência e 49% de participação no Rio de Janeiro, o melhor desempenho da emissora na Libertadores de 2026 na praça carioca. O número ficou 24% acima da média da competição.

Para muita gente, isso pode parecer apenas mais uma estatística de televisão. Para nós, não. Esses números ajudam a explicar uma parte importante do tamanho do Flamengo no futebol brasileiro.

Existe o Flamengo esportivo, que ganha, perde, empata, contrata, erra e acerta. E existe o Flamengo como fenômeno de público. Esse segundo continua mostrando uma força que poucos clubes conseguem alcançar.

Não é a primeira vez que acontece. Basta um jogo grande, um clássico, uma decisão ou uma partida de Libertadores para a audiência reagir.

O torcedor rubro-negro quer assistir. O rival também quer assistir. Quem gosta do Flamengo liga a televisão. Quem torce contra também aparece.

E é justamente essa mistura que transforma o clube em um produto tão valioso para quem transmite futebol.

O Flamengo não recebe espaço de graça

Durante anos se repetiu que a televisão mostrava demais o Flamengo, como se isso fosse uma espécie de presente das emissoras ao clube.

Essa interpretação ignora a lógica mais básica do mercado.

Emissora vive de audiência. Audiência atrai publicidade. Publicidade gera dinheiro. Quando um jogo entrega números acima da média, existe uma razão comercial para colocá-lo em destaque.

O Flamengo não ocupa espaço simplesmente porque alguém na televisão decidiu favorecer o clube. Ele ocupa espaço porque entrega público.

Pode parecer uma diferença pequena, mas não é.

Uma coisa é receber exposição sem retorno. Outra é ser escolhido porque milhões de pessoas querem acompanhar o que você faz.

Cruzeiro x Flamengo mostrou isso mais uma vez.

Era uma partida importante, com um grande adversário, em um estádio lotado e valendo muito na Libertadores.

Evidentemente, o Cruzeiro também tem peso na audiência e não pode ser retirado dessa conta. Mas os números registrados no Rio mostram novamente o tamanho da mobilização rubro-negra.

Até quem odeia o Flamengo ajuda

Existe ainda uma característica curiosa nesse fenômeno: o Flamengo não depende somente de seus torcedores para gerar interesse.

O clube provoca reação.

É amado por milhões e rejeitado por outros tantos. Isso faz com que um jogo do Flamengo tenha audiência de quem quer vê-lo vencer e também de quem espera vê-lo perder.

No futebol, ser indiferente talvez seja pior do que ser odiado.

Um clube que não provoca reação dificilmente movimenta grandes audiências.

O Flamengo provoca. Muito.

Por isso, quando entra em uma competição importante, tudo cresce em volta. Discussões nas redes sociais, programas esportivos, transmissões, vídeos, comentários e repercussão no dia seguinte.

É um ciclo que alimenta a própria dimensão da marca.

A diretoria precisa entender o tamanho desse ativo

E aqui está um ponto que merece atenção.

Ter uma torcida gigantesca e uma audiência dessa dimensão não pode servir apenas para alimentar discurso de grandeza.

Precisa ser transformado em vantagem real para o clube.

O Flamengo possui um dos maiores ativos de mídia do esporte brasileiro. Isso precisa aparecer na negociação de patrocínios, nos direitos de transmissão, na expansão internacional, no conteúdo digital e na construção da marca.

Quando 49% dos televisores ligados em uma praça como o Rio estão acompanhando uma partida, existe valor comercial ali.

Muito valor.

A diretoria precisa tratar esse patrimônio com o mesmo profissionalismo com que trata receitas de estádio, vendas de jogadores ou contratos de patrocínio.

A torcida não é apenas uma multidão que compra ingresso e camisa.

É também o principal motor comercial do clube.