Durante boa parte do Campeonato Brasileiro, toda análise sobre a posição do Flamengo carregava uma ressalva.
O Rubro-Negro tinha um jogo a menos.
Era uma frase repetida na classificação, nas transmissões, nas entrevistas e nas contas dos torcedores. Se vencesse a partida atrasada contra o Mirassol, poderia diminuir a diferença para o Palmeiras. Se aproveitasse a oportunidade, mudaria a pressão da competição. Se confirmasse os três pontos, entraria definitivamente na briga.
Na noite desta quarta-feira, todos esses “ses” desapareceram.
O Flamengo venceu o Mirassol por 2 a 0 no Maracanã, chegou aos 51 pontos e agora está apenas um atrás do Palmeiras, líder com 52. Carrascal e Lucas Paquetá marcaram os gols ainda no primeiro tempo.
Mais importante do que simplesmente reduzir a distância foi acabar com a distorção que acompanhava a tabela.
Agora Flamengo e Palmeiras podem ser comparados diretamente.
E essa comparação aumenta a responsabilidade rubro-negra.
O Flamengo finalmente conhece sua posição real
O jogo atrasado funcionou durante meses como uma espécie de crédito que o Flamengo ainda precisava transformar em pontos.
Isso podia ser confortável para algumas análises.
Quando a distância para o Palmeiras aumentava, existia sempre a lembrança de que o Flamengo ainda tinha três pontos potenciais por disputar. Quando diminuía, o jogo a menos alimentava a possibilidade de uma aproximação ainda maior.
Mas ponto potencial não ganha campeonato.
Contra o Mirassol, o Flamengo finalmente transformou aquela partida pendente em vitória.
E a fotografia real do Brasileiro agora é simples: um ponto separa os dois principais candidatos ao título.
Não há mais conta escondida.
Não há mais partida atrasada.
Não há mais necessidade de imaginar como ficaria a classificação caso o Flamengo vencesse o Mirassol.
Ele venceu.
A partir daqui, a discussão passa a ser outra.
O problema agora é transformar força em regularidade
Talvez esse seja o maior desafio de Leonardo Jardim.
Poucas equipes do futebol brasileiro possuem tantas soluções quanto o Flamengo. O elenco recebeu reforços, recuperou jogadores importantes e ganhou novas opções para uma sequência que ainda envolve Campeonato Brasileiro e Libertadores.
Mas campeonato de pontos corridos não premia necessariamente o time que apresenta o melhor futebol durante determinados períodos.
Premia quem consegue repetir resultados.
Esse é um ponto fundamental para o Flamengo nesta reta final.
A equipe já apresentou partidas de enorme superioridade nesta temporada, mas também desperdiçou oportunidades que poderiam ter colocado o clube em uma situação ainda melhor na classificação.
A diferença atual de apenas um ponto mostra justamente o tamanho de cada tropeço.
Um empate inesperado deixa de ser apenas dois pontos perdidos.
Pode significar perder a liderança.
Uma derrota pode transformar uma rodada equilibrada em quatro pontos de distância.
Quando dois candidatos chegam tão próximos à reta final, a margem para desperdício diminui drasticamente.
A vitória sobre o Mirassol mostrou duas versões do Flamengo
O jogo desta quarta também apresentou algo que Leonardo Jardim ainda tenta equilibrar.
O Flamengo foi muito superior no primeiro tempo.
Carrascal abriu o placar cedo, Paquetá ampliou antes do intervalo e o Rubro-Negro teve controle suficiente para encaminhar a vitória.
Depois, diminuiu o ritmo.
Desta vez, diferentemente de outras partidas, a equipe conseguiu controlar o resultado sem permitir uma reação capaz de ameaçar os três pontos. Jorginho chegou a destacar após o confronto essa evolução na capacidade de administrar momentos do jogo.
Isso pode ser importante na reta final.
Nem toda rodada será marcada por grandes atuações.
Campeões também precisam saber vencer jogos sem transformar todos eles em partidas espetaculares.
Ao mesmo tempo, a queda de produção depois do intervalo não pode simplesmente ser ignorada.
O próprio Flamengo já reconheceu em semanas anteriores que vinha apresentando oscilações entre primeiro e segundo tempo.
Contra o Mirassol, a diferença é que o placar já estava construído.
Em uma partida mais equilibrada, esse comportamento pode custar caro.
O elenco será testado de verdade agora
Leonardo Jardim tem insistido numa ideia desde que assumiu o Flamengo: não pretende trabalhar apenas com 11 jogadores.
Agora terá a oportunidade de provar isso.
Gonzalo Plata retorna ao elenco depois da negociação frustrada com o Dínamo de Moscou. Anthony Valencia e Joaquín Freitas foram incorporados. Jogadores importantes continuam disputando espaço e o calendário exigirá mudanças constantes.
O problema de Jardim, portanto, não parece ser falta de opções.
Será administrar todas elas.
Com Brasileirão e Libertadores caminhando simultaneamente para fases decisivas, recuperação física, suspensões e lesões começarão a influenciar cada vez mais as escalações.
Pulgar, por exemplo, deixou a partida contra o Mirassol após sofrer uma pancada.
Ter um elenco numeroso deixa de ser luxo nesse momento.
Passa a ser necessidade.
E talvez aí esteja uma das maiores vantagens competitivas do Flamengo.
A pressão também mudou de lado
Existe ainda uma mudança psicológica importante.
Durante boa parte do campeonato, o Flamengo era o time que precisava alcançar o Palmeiras.
Agora pode obrigar o Palmeiras a responder.
Na próxima rodada, por exemplo, uma vitória rubro-negra antes da partida do líder pode colocar o Flamengo provisoriamente na primeira posição.
É uma situação completamente diferente.
O Palmeiras deixa de olhar apenas para a própria campanha e começa a conviver com um adversário imediatamente atrás.
Análises feitas antes mesmo da partida contra o Mirassol já apontavam que a sequência poderia permitir ao Flamengo aumentar essa pressão caso confirmasse seus resultados.
O primeiro passo foi dado.
Mas isso não significa que o Flamengo tenha assumido qualquer favoritismo definitivo.
Significa apenas que agora o Palmeiras sabe que qualquer erro pode custar a liderança.
O título não será decidido por projeção
Esse talvez seja o principal ponto da nova fase do campeonato.
Durante meses, o Flamengo viveu também de projeções.
“Se ganhar o jogo a menos.”
“Se encostar no Palmeiras.”
“Se aproveitar a sequência.”
Agora a matemática ficou muito mais simples.
O Flamengo precisa vencer.
O Palmeiras também.
E os dois precisarão conviver com Libertadores, desgaste físico, pressão, lesões e confrontos capazes de alterar completamente a tabela.
Há ainda muito campeonato pela frente.
Mas pela primeira vez em muito tempo, o Flamengo não precisa imaginar como estaria a classificação caso aproveitasse seu jogo atrasado.
Já sabemos.
Está a um ponto da liderança.
E isso transforma tudo.
Porque, daqui até o fim, o Flamengo não será mais avaliado pelo que pode fazer com uma partida pendente.
Será avaliado pelo que efetivamente fizer com cada oportunidade que aparecer.




