Existe uma armadilha perigosa para qualquer clube que chega a outubro disputando dois títulos importantes: começar a olhar tanto para a próxima decisão que se esquece da partida que está diante dos olhos.

O Flamengo vive exatamente esse momento.

No domingo, enfrenta o Fluminense pelo Campeonato Brasileiro. Ao mesmo tempo, precisa administrar a preparação para seus compromissos decisivos na Libertadores.

É natural que a competição continental desperte uma expectativa enorme. A possibilidade de disputar mais uma decisão histórica mexe com o torcedor. Mas existe algo que precisa ficar muito claro: o Campeonato Brasileiro não pode virar uma competição de segunda importância.

E muito menos quando o próximo adversário é o Fluminense.

O PERIGO DE ADMINISTRAR DEMAIS

Não sou contra poupar jogadores. Pelo contrário. Um elenco que disputa competições simultâneas precisa de planejamento físico e de uma comissão técnica capaz de identificar riscos.

O problema aparece quando administrar o elenco se transforma em administrar a ambição.

Há uma diferença enorme entre preservar um jogador desgastado e entrar em campo transmitindo a impressão de que o verdadeiro compromisso será apenas o seguinte.

O Flamengo chega ao Fla-Flu depois de deixar escapar uma vitória sobre o Santos. O empate na Vila Belmiro, independentemente das controvérsias de arbitragem, custou dois pontos importantes.

Por isso, o clássico não pode ser tratado apenas como um compromisso inconveniente colocado no calendário antes da próxima decisão internacional.

Cada rodada do Brasileiro oferece três pontos. Não existe uma rodada que devolva os pontos desperdiçados porque o clube estava preocupado com outro torneio.

O CLÁSSICO EXIGE MAIS DO QUE UMA BOA ESCALAÇÃO

Flamengo e Fluminense carregam uma rivalidade histórica. Um Fla-Flu tem uma dimensão própria para as duas torcidas, independentemente da classificação ou da competição disputada.

Isso não significa que o treinador deva colocar em campo atletas sem condições físicas apenas para atender à expectativa de um clássico.

Significa que quem entrar precisa compreender a responsabilidade do jogo.

Se Leonardo Jardim utilizar titulares, quero ver intensidade e organização. Se decidir fazer mudanças, quero ver jogadores preparados para aproveitar a oportunidade.

O que não pode acontecer é um Flamengo sem agressividade, esperando o relógio avançar enquanto pensa nos próximos compromissos.

Um time que deseja conquistar o Brasileiro e a Libertadores precisa ter capacidade de competir em contextos diferentes, mesmo quando não consegue utilizar sua formação considerada ideal.

A LIBERTADORES NÃO PODE SERVIR DE DESCULPA

Existe uma tendência recorrente no futebol brasileiro de justificar desempenhos ruins no campeonato nacional pela proximidade de uma partida internacional.

Às vezes, o desgaste realmente explica parte das dificuldades. Mas ele não pode se transformar em uma resposta automática para qualquer tropeço.

O Flamengo investiu na formação de um elenco numeroso e qualificado justamente para disputar grandes competições ao mesmo tempo.

Se o clube decidir concentrar toda a energia em apenas um torneio, precisará assumir que está fazendo uma escolha esportiva com consequências.

Não considero que essa deva ser a postura de um Flamengo que chega à reta final do ano ainda em condições de lutar por duas conquistas.

Competir em duas frentes exige encontrar soluções, e não simplesmente aceitar que uma delas será prejudicada.

UMA RESPOSTA ANTES DA PRÓXIMA DECISÃO

O Fla-Flu também representa uma oportunidade de o Flamengo recuperar confiança.

Depois de abrir dois gols de vantagem diante do Santos e terminar a partida com um empate, a equipe precisa demonstrar capacidade de reagir.

E reagir não significa necessariamente produzir uma goleada ou uma apresentação espetacular.

Significa jogar com concentração, saber lidar com momentos difíceis e demonstrar que cada ponto continua tendo importância.

Uma vitória no clássico pode oferecer mais do que uma boa posição na tabela. Pode devolver tranquilidade ao ambiente e fortalecer a confiança para os próximos confrontos.

Da mesma maneira, uma atuação displicente pode ampliar dúvidas justamente quando a equipe mais precisa de segurança.

O PESO DA CAMISA PRECISA APARECER EM CAMPO

Não basta ter um elenco caro, jogadores experientes e uma estrutura considerada entre as melhores do futebol brasileiro.

Essas condições precisam se transformar em respostas dentro de campo.

O Flamengo não pode permitir que a expectativa por uma competição comprometa sua trajetória em outra. É justamente nos momentos de maior exigência que a qualidade de um elenco deve aparecer.

Os jogadores precisam compreender que a responsabilidade não diminui porque o adversário seguinte será mais difícil ou porque existe uma decisão internacional no horizonte.

A torcida não escolhe quais três pontos merecem ser disputados com intensidade. Ela espera compromisso em todas as partidas.

E essa cobrança é absolutamente legítima.

O Flamengo não precisa escolher entre sonhar com a Libertadores e defender sua posição no Brasileiro.

Precisa mostrar que é capaz de fazer as duas coisas.

É para isso que existem planejamento, elenco e investimento.

Porque títulos não são conquistados apenas nas grandes noites internacionais. Também são construídos nas rodadas em que um clube decide não abrir mão de competir.

O domingo vale três pontos fundamentais para a trajetória do Flamengo no Campeonato Brasileiro.

E o time precisa entrar em campo sabendo disso.

Por Rogério Sampaio — Portugal