O Flamengo venceu Corinthians e Red Bull Bragantino, somou seis pontos e abriu três de vantagem na liderança do Campeonato Brasileiro. Olhando apenas a tabela, dificilmente haveria motivo para preocupação.
O campo, porém, mostra um detalhe que merece atenção.
O time de Leonardo Jardim está criando o suficiente para vencer com tranquilidade, mas continua deixando os adversários vivos por muito mais tempo do que deveria.
Contra o Corinthians, o placar terminou 2 a 1. Contra o Bragantino, novamente 2 a 1.
Foram duas vitórias importantes. Mas também foram dois jogos em que a diferença no marcador ficou muito abaixo do volume produzido pelo Flamengo.
E o mais curioso é que esse não foi o padrão do time durante boa parte do campeonato.
Flamengo amassou o Corinthians e quase pagou caro
O exemplo mais evidente aconteceu diante do Corinthians.
Dependendo do provedor estatístico, o Flamengo terminou aquela partida com 31, 32 ou 33 finalizações. A diferença ocorre pela metodologia usada para contabilizar determinadas tentativas, mas não altera o tamanho do domínio.
O Scoutinho registrou 32 finalizações contra apenas três do Corinthians, além de 20 escanteios a zero e seis grandes chances criadas. No primeiro tempo, a posse rubro-negra chegou a 76%, enquanto o adversário praticamente não conseguiu atacar.
Mesmo assim, o intervalo chegou em 0 a 0.
Paquetá finalmente abriu o placar no início da segunda etapa, mas o Corinthians empatou em uma de suas raríssimas chegadas.
O Flamengo precisou esperar até os minutos finais para Bruno Henrique, de cabeça e após cruzamento de Joaquín Freitas, fazer o gol da vitória.
Leonardo Jardim resumiu o tamanho da diferença de uma maneira bem-humorada. Disse que, se existisse justiça pela quantidade de oportunidades, o jogo poderia ter terminado “10 a 1”.
A brincadeira escondia um problema real: um jogo completamente controlado quase escapou porque o Flamengo não matou quando teve oportunidade.
Contra o Bragantino, roteiro voltou a aparecer
Uma semana depois, o cenário mudou pouco.
O Flamengo abriu o placar cedo com Varela, depois de ótimo cruzamento de Carrascal, e poderia ter construído vantagem maior ainda no primeiro tempo.
Tiago Volpi apareceu diversas vezes. Arrascaeta acertou a trave. Outras boas chegadas morreram nas mãos do goleiro ou na última decisão.
No segundo tempo, Pedro fez 2 a 0 após cobrança de escanteio e desvio de Jorginho.
Parecia resolvido.
Não estava.
Nos minutos finais, o Bragantino diminuiu após desvio de Bruno Henrique contra a própria meta e transformou novamente uma partida controlada em alguns minutos de tensão.
Os dados mostram que a quantidade de finalizações foi menor do que contra o Corinthians, mas a qualidade das chances permaneceu alta. O Zerozero calculou 2,23 gols esperados (xG) para o Flamengo, contra 0,80 do Bragantino.
Jardim voltou a reconhecer a falta de eficiência, embora tenha preferido valorizar a capacidade da equipe de chegar ao gol.
Para o treinador, pior seria não criar.
É um raciocínio compreensível. A preocupação maior de qualquer comissão técnica aparece quando a equipe não consegue produzir.
Mas criar e não transformar também pode cobrar preço.
Os quatro gols vieram pelo alto
Existe ainda outro detalhe curioso nos dois jogos.
Todos os quatro gols do Flamengo contra Corinthians e Bragantino nasceram de jogadas aéreas ou de bolas levantadas na área.
Contra o Corinthians, Paquetá aproveitou uma sobra depois de escanteio. Bruno Henrique decidiu de cabeça após cruzamento de Joaquín Freitas.
Diante do Bragantino, Varela atacou a área para completar o cruzamento de Carrascal. Pedro marcou depois de cobrança de escanteio e desvio de Jorginho.
A bola aérea, portanto, virou uma arma importante.
Isso é positivo.
Um time que disputa Brasileiro e Libertadores precisa encontrar diferentes maneiras de vencer, principalmente quando encontra adversários fechados.
O alerta aparece em outro lugar: o Flamengo trabalha muito pelo chão, ocupa o campo adversário, troca passes perto da área e produz volume, mas está conseguindo transformar muito mais facilmente bolas levantadas na área do que ataques construídos por dentro.
Em jogos grandes, encontrar outras soluções pode fazer a diferença.
Problema já apareceu antes com Jardim
A falta de pontaria não surgiu agora.
Em maio, após partidas contra Athletico-PR e Vitória, o Flamengo acumulou 46 finalizações para apenas um gol.
Naquele momento, Jardim usou praticamente o mesmo argumento que apresenta hoje: estaria mais preocupado caso o time deixasse de criar oportunidades.
Só que há uma diferença importante.
Depois daquela fase, o Flamengo reagiu.
E reagiu muito.
No fechamento do primeiro turno, levantamento do Gato Mestre mostrava o Rubro-Negro como a equipe mais eficiente do Campeonato Brasileiro.
Até aquele momento, eram 35 gols em 245 finalizações: praticamente um gol a cada sete tentativas, o melhor índice da competição.
Por isso, seria errado dizer que o Flamengo passou o ano inteiro desperdiçando oportunidades.
Não passou.
O ponto é justamente o contrário: um time que chegou a ser o mais eficiente do país voltou a apresentar dificuldade para transformar domínio em placar justamente quando a temporada entra na fase decisiva.
A conta muda quando chegam Libertadores e reta final
Contra Corinthians e Bragantino, o desperdício não custou pontos.
O Flamengo venceu os dois.
Mas a margem diminui quando chegam semifinal de Libertadores e últimas rodadas de Brasileiro.
Uma grande chance desperdiçada contra um adversário inferior pode virar apenas um susto.
Contra uma equipe do mesmo nível, pode virar eliminação.
E existe uma diferença enorme entre controlar um jogo por 70 minutos e realmente encerrá-lo no placar.
Foi isso que Varela já havia alertado anteriormente ao falar que o Flamengo precisava “matar” as partidas quando tivesse oportunidade.
Os últimos jogos deram razão à preocupação.
O Flamengo está chegando.
Está finalizando.
Está colocando jogadores dentro da área.
O que falta é transformar esse domínio em uma diferença no placar que represente melhor aquilo que acontece no campo.




