Flamengo precisa provar que sabe ser rico

Segundo levantamento realizado a partir das demonstrações financeiras do clube, o Flamengo ainda tem aproximadamente R$ 614,5 milhões a pagar em compromissos relacionados à contratação de jogadores.

O número não significa que o Flamengo esteja quebrado.

Muito pelo contrário.

O clube construiu uma potência financeira, aumentou suas receitas, montou um dos melhores elencos das Américas e hoje consegue entrar em negociações que poucos clubes brasileiros sequer poderiam considerar.

Mas existe uma diferença enorme entre ter dinheiro e saber gastá-lo.

Esse, para mim, é o próximo grande teste da gestão rubro-negra.

BAP já falou publicamente sobre o gigantesco poder de investimento que o Flamengo alcançou. No fim de 2025, chegou a dizer, em reunião com associados, que o clube poderia investir até R$ 1 bilhão em contratações.

A frase representa bem o tamanho que o Flamengo atingiu.

Mas dinheiro, mesmo quando existe em grande quantidade, não é infinito.

E quanto maior é o poder financeiro, maior precisa ser a responsabilidade.

O maior perigo não é perder uma contratação

Na minha opinião, o maior perigo para o Flamengo hoje não é perder Luiz Henrique, Thiago Almada ou qualquer outro jogador para um rival.

O perigo é começar a contratar para responder à pressão da torcida, das redes sociais e do mercado.

Existe uma diferença enorme entre contratar porque o elenco precisa e contratar porque existe a sensação de que um clube rico precisa obrigatoriamente ganhar todas as disputas da janela.

O Flamengo não precisa disso.

O elenco já tem qualidade.

Lucas Paquetá protagonizou a maior contratação da história do futebol brasileiro.

Pedro é um dos principais centroavantes do continente.

O clube possui jogadores de seleção e peças extremamente valorizadas em praticamente todos os setores.

Portanto, cada contratação daqui para frente precisa responder a uma pergunta:

esse jogador melhora realmente o Flamengo na proporção do dinheiro que será investido?

Luiz Henrique vale mais €30 milhões para este elenco?

Vamos usar Luiz Henrique como exemplo.

Estamos falando de um ótimo jogador.

Se o Flamengo o contratar, naturalmente o elenco ficará ainda mais qualificado.

Mas essa não deveria ser a única pergunta.

Se uma operação chegar a €30 milhões ou €35 milhões, estamos falando de mais uma contratação que pode ultrapassar facilmente a casa dos R$ 200 milhões dependendo do câmbio, bônus, comissões e estrutura da negociação.

Então precisamos perguntar:

Luiz Henrique melhora tanto assim o Flamengo atual para justificar acrescentar outra operação dessa dimensão a uma estrutura que já possui R$ 614,5 milhões em compromissos com jogadores?

Não estou dizendo que não.

Estou dizendo que essa análise precisa existir.

Porque dinheiro não evapora de uma vez.

Ele desaparece aos poucos, através de contratos, parcelas, comissões, salários e decisões que individualmente parecem suportáveis.

O Flamengo já gastou parte do dinheiro do futuro

Esse talvez seja o ponto que mais precisa ser entendido.

Quando o Flamengo parcela uma contratação, ele consegue ter o jogador agora e distribuir o pagamento pelos anos seguintes.

Isso é absolutamente normal no futebol.

O problema aparece quando muitas operações gigantes começam a se acumular.

Lucas Paquetá ainda representa uma obrigação enorme nos próximos balanços.

Samuel Lino também.

Outras contratações feitas anteriormente continuam sendo pagas.

Portanto, uma parte da receita futura do Flamengo já possui destino antes mesmo de entrar no caixa.

Isso não é necessariamente ruim.

Pode ser excelente quando o dinheiro foi aplicado em jogadores que aumentam a chance de títulos, valorização do elenco e novas receitas.

Mas exige disciplina.

Porque ser o clube mais rico do país não significa possuir um cheque em branco.

Palmeiras mostra outro caminho com a base

Existe ainda um ponto em que acredito que o Flamengo precisa olhar com mais atenção para o Palmeiras.

Não estou dizendo que tudo feito pelo rival é melhor.

Estou falando especificamente da capacidade de transformar jogadores formados em casa em ativos extremamente valiosos.

Endrick foi vendido ao Real Madrid.

Estêvão foi para o Chelsea.

Agora Allan está sendo negociado com o Manchester City em uma operação que pode chegar a €40 milhões, sendo €37,5 milhões fixos e €2,5 milhões em bônus.

E existe algo interessante no caso de Allan.

Ele não apareceu como uma estrela instantânea.

Passou pela base, recebeu oportunidades no profissional, ganhou minutos, mostrou qualidade e se valorizou.

O jogador que poderia sair sem grande impacto financeiro terminou transformado em uma negociação gigantesca.

É exatamente aí que o Flamengo pode evoluir.

A base precisa ser também uma estratégia financeira

O Flamengo possui uma das melhores categorias de formação do Brasil.

Mas formar jogador não basta.

É preciso criar caminho.

Estamos vendo Josmar, com apenas 17 anos, começar a treinar com Leonardo Jardim.

Esse é o processo que precisa acontecer com mais frequência.

O jogador da base não precisa imediatamente virar titular.

Precisa entrar.

Precisa jogar 15 minutos.

Depois 30.

Precisa disputar algumas partidas.

Precisa ser observado contra profissionais.

E, principalmente, precisa ser visto pelo mercado.

Imagine a diferença financeira entre vender uma promessa que jogou apenas no sub-20 e negociar um jovem que acumulou 30 ou 40 partidas no profissional do Flamengo.

A camisa do Flamengo valoriza jogador.

Mas para isso ele precisa vestir essa camisa dentro de campo.

Nem todo problema precisa ser resolvido com uma compra

Um clube rico corre um risco curioso: começar a acreditar que toda necessidade precisa ser solucionada no mercado.

Não precisa.

Às vezes, a solução está no Ninho.

Talvez o jogador da base ainda não seja melhor que uma contratação de €30 milhões.

Mas ele pode ser suficientemente bom para ocupar determinadas funções, permitir que o clube economize em uma posição e concentre seus grandes investimentos onde existe uma carência realmente decisiva.

Isso é gestão de elenco.

Não significa abandonar grandes contratações.

O Flamengo precisa continuar buscando jogadores de elite quando eles realmente elevarem o nível da equipe.

Mas precisa abandonar a ideia de que deixar de contratar um nome caro significa demonstrar fraqueza.

Às vezes, não comprar é uma das decisões mais inteligentes de uma janela.

O exemplo do São Paulo precisa servir de alerta

O futebol brasileiro já mostrou inúmeras vezes que poder econômico não é permanente.

O São Paulo é um exemplo importante.

Durante muitos anos, foi referência de administração, estrutura e futebol.

Foi campeão mundial, venceu Libertadores, Brasileiro e parecia estar muitos passos à frente dos concorrentes.

Poucos imaginariam naquela época algumas das dificuldades financeiras e esportivas que o clube enfrentaria posteriormente.

Isso não significa que o Flamengo esteja seguindo o mesmo caminho.

As situações são completamente diferentes.

Mas existe uma lição que vale para qualquer instituição:

nenhuma vantagem é eterna.

Receita cai.

Gestões mudam.

Contratos ruins permanecem.

Dívidas acumulam.

Resultados esportivos desaparecem.

Por isso, o melhor momento para proteger o futuro não é quando o dinheiro acaba.

É justamente quando existe dinheiro sobrando.