O que deve estar passando pela cabeça de Leonardo Jardim neste momento?
Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes da reta final da temporada do Flamengo.
Arrascaeta está fora após sofrer uma fratura no punho esquerdo defendendo a seleção uruguaia. O camisa 10 passou por cirurgia no dia 1º de outubro, procedimento que, segundo o Flamengo, terminou com sucesso e sem intercorrências.
Perder Arrascaeta em qualquer momento já seria um problema.
Perdê-lo quando o Flamengo lidera o Campeonato Brasileiro e está entrando numa semifinal de Libertadores transforma a ausência num desafio muito maior.
Só que, na minha visão, existe uma coisa que Leonardo Jardim não precisa fazer agora:
inventar.
Arrascaeta não tem substituto
Antes de discutir nomes, é necessário admitir o óbvio.
Não existe outro Arrascaeta no elenco.
O uruguaio enxerga espaços que poucos jogadores enxergam, aproxima meio e ataque, encontra Pedro dentro da área e decide partidas em um passe ou uma finalização.
Não adianta colocar outro jogador naquela região do campo e esperar que automaticamente produza a mesma coisa.
Paquetá não é Arrascaeta.
Carrascal não é Arrascaeta.
Samuel Lino não é Arrascaeta.
E nenhum deles precisa ser.
O trabalho de Jardim não é encontrar uma cópia do uruguaio. É montar uma equipe capaz de continuar funcionando sem ele.
E para isso o treinador possui opções.
Samuel Lino por dentro funcionou, mas o contexto era outro
Existe uma lembrança recente que naturalmente voltou à discussão.
No fim de maio, Leonardo Jardim utilizou Samuel Lino com muita liberdade por dentro diante do Coritiba.
Funcionou muito bem.
O Flamengo venceu por 3 a 0, Lino marcou dois gols, deu uma assistência para Pedro e participou diretamente dos três gols da partida.
Foi uma atuação excelente.
Mas é fundamental lembrar em que circunstâncias aquela solução apareceu.
O Flamengo tinha dez desfalques.
Nove jogadores estavam liberados para suas seleções antes da Copa do Mundo e Jorginho estava lesionado.
Entre os ausentes estavam justamente Lucas Paquetá, Jorge Carrascal e Arrascaeta.
Ou seja: Jardim não tinha os seus principais jogadores de criação.
Precisava encontrar uma solução emergencial.
Encontrou em Samuel Lino.
E o mérito do treinador foi enorme justamente por conseguir adaptar um jogador às necessidades daquele momento.
Mas transformar aquela emergência numa obrigação agora seria ignorar que o cenário mudou completamente.
Hoje Jardim tem opções que não tinha naquela partida.
E existe outro detalhe.
Samuel Lino acabou de voltar da Seleção Brasileira depois de marcar dois gols contra a Índia, os primeiros dele com a camisa do Brasil. É um jogador confiante, agressivo e capaz de desequilibrar vindo principalmente pelo lado esquerdo.
Por que retirar automaticamente um jogador dessa faixa justamente quando ele volta em alta?
Ele pode jogar por dentro?
Pode.
Já mostrou isso.
Mas uma coisa é utilizar essa alternativa quando a partida pede. Outra é começar a reconstrução do Flamengo tirando um dos melhores jogadores de sua posição natural quando existem outras soluções disponíveis.
Paquetá pode jogar mais atrás
Lucas Paquetá talvez seja a peça que ofereça mais possibilidades para Jardim.
Durante a temporada, ele já apareceu como segundo volante, mais avançado pelo centro e até deslocado pela direita.
Para mim, uma das possibilidades mais interessantes é justamente mantê-lo numa função de segundo homem do meio.
Paquetá oferece força física, capacidade de condução, pressão sem a bola e chegada à área.
Colocá-lo alguns metros atrás permite que participe da construção sem exigir que seja o responsável exclusivo pelo último passe.
Nesse desenho, Carrascal poderia ocupar uma faixa mais central.
E talvez aí esteja a solução mais natural.
Carrascal sabe jogar entre linhas
Jorge Carrascal possui características que fazem sentido para ocupar o espaço central deixado por Arrascaeta.
É um jogador que gosta da bola.
Conduz.
Dribla.
Procura tabelas.
Recebe entre linhas.
Consegue acelerar uma jogada individualmente.
Naturalmente não possui a mesma leitura de jogo de Arrascaeta, mas não precisa possuir.
Se Jardim utilizar Paquetá mais atrás e Carrascal como homem de criação, o Flamengo mantém jogadores atuando em funções que conhecem.
E ainda preserva Samuel Lino pelo lado.
Para mim, esse é um ponto importante.
Estamos entrando no período em que uma escolha errada pode significar perder uma semifinal de Libertadores ou pontos decisivos no Campeonato Brasileiro.
Não é mais maio.
Não é mais um jogo em que dez jogadores estão ausentes e o treinador precisa criar uma solução praticamente de emergência.
Agora é a vera.
Saúl também aumenta as possibilidades
Existe ainda Saúl Ñíguez.
O espanhol amplia as combinações possíveis porque permite que Jardim modifique a estrutura sem necessariamente improvisar alguém.
Uma formação com um volante mais posicional e Saúl no setor central, por exemplo, poderia liberar Paquetá para atuar mais à frente.
Outra possibilidade seria manter Paquetá como segundo volante e entregar a Carrascal a criação.
Também é possível utilizar Paquetá mais adiantado, Carrascal partindo de um dos lados e preservar Samuel Lino na esquerda.
Existem várias combinações.
E esse é justamente o ponto.
Leonardo Jardim possui peças suficientes para escolher uma estrutura sem precisar transformar a reta decisiva num laboratório.
A situação de Jorginho muda a Libertadores
Existe ainda uma diferença importante entre o Campeonato Brasileiro e a Libertadores.
Nos jogos nacionais, Jardim poderá contar com Jorginho.
Na partida de ida contra o Estudiantes, em La Plata, não.
Jorginho estará suspenso depois da expulsão diante do Independiente del Valle.
Isso significa que provavelmente não haverá uma única escalação para resolver todos os problemas.
Contra o Santos, Jardim poderá utilizar uma configuração.
Na Argentina, talvez precise de outra.
E é justamente aí que Saúl pode ganhar ainda mais importância.
Sem Jorginho, ter um jogador experiente no setor permite que Paquetá seja movimentado para outras zonas sem desmontar completamente a estrutura do meio-campo.
O treinador não precisa escolher hoje uma fórmula e utilizá-la em todos os jogos.
Precisa escolher jogadores de acordo com aquilo que cada partida exige.
Isso é diferente de fazer experiências.
Não é hora de descobrir; é hora de decidir
Samuel Lino como jogador central foi uma descoberta interessante da temporada.
Pode voltar a ser utilizado dessa maneira?
Claro.
Talvez durante uma partida.
Talvez diante de determinado adversário.
Talvez em algum momento em que Jardim queira um Flamengo mais móvel e agressivo.
Mas eu não começaria por aí.
O Flamengo montou um elenco com Paquetá, Carrascal, Saúl, Jorginho, Pulgar, Samuel Lino, Pedro e várias outras alternativas exatamente para poder atravessar momentos como este.
Arrascaeta fará uma falta enorme.
Talvez ainda maior nos jogos em que o Flamengo encontrar adversários fechados, pouco espaço entre as linhas e precisar de alguém capaz de encontrar uma solução onde aparentemente ela não existe.
É nesses momentos que aparecem os jogadores diferentes.
Arrascaeta é um deles.
Mas sua ausência não obriga Jardim a reinventar o Flamengo.
Obriga o treinador a utilizar melhor aquilo que tem.
E aquilo que ele tem é muito.
Paquetá pode atuar como segundo volante ou mais avançado.
Carrascal pode assumir maior responsabilidade na criação.
Saúl pode oferecer equilíbrio.
Jorginho continua disponível no Brasileiro.
Samuel Lino pode permanecer onde está produzindo e, se necessário, também aparecer por dentro.
Há alternativas.
Agora Jardim precisa escolher.
Porque a fase das experiências ficou para trás.
Começou a fase em que cada escolha pode aproximar ou afastar o Flamengo de um título.




