FLAMENGO E PALMEIRAS: O PREÇO DA CONTINUIDADE E DAS MUDANÇAS
Flamengo e Palmeiras estão entre as maiores potências financeiras e esportivas do futebol brasileiro. Investem em elencos competitivos, possuem estruturas de alto nível e protagonizam disputas pelos principais títulos do país e da América do Sul.
Mas, quando o assunto é gestão do futebol, os dois clubes seguem caminhos diferentes.
Desde novembro de 2020, o Palmeiras mantém Abel Ferreira como treinador. No mesmo período, dez técnicos diferentes comandaram o Flamengo, incluindo Domènec Torrent, que já ocupava o cargo quando Abel chegou ao Brasil.
O contraste ganhou força em outubro de 2026. O Palmeiras está classificado para a final da Libertadores, segue na semifinal da Copa do Brasil e disputa o título brasileiro. O Flamengo, eliminado dos dois torneios de mata-mata, tem no Brasileirão sua principal possibilidade de conquista na reta final da temporada.
Mais do que comparar resultados, os números levantam uma questão sobre o planejamento esportivo: o Flamengo poderia alcançar maior regularidade mantendo seus projetos técnicos por mais tempo?
DEZ TREINADORES CONTRA UM
Abel Ferreira estreou pelo Palmeiras em 5 de novembro de 2020. Desde então, construiu uma das passagens mais duradouras de um treinador no futebol brasileiro recente.
No Flamengo, a lista de comandantes que trabalharam durante esse intervalo inclui Domènec Torrent, Rogério Ceni, Renato Gaúcho, Paulo Sousa, Dorival Júnior, Vítor Pereira, Jorge Sampaoli, Tite, Filipe Luís e Leonardo Jardim.
São dez profissionais diferentes em um período no qual o Palmeiras manteve um único técnico principal. Nove deles assumiram o Flamengo depois da estreia de Abel.
Cada mudança de treinador pode representar uma nova metodologia de treinamento, ajustes táticos, preferências na montagem do elenco e alterações no planejamento.
Isso não significa que todas as substituições tenham sido equivocadas. O Flamengo conquistou títulos importantes com diferentes profissionais, demonstrando a força esportiva de sua estrutura.
Entretanto, a quantidade de mudanças abre espaço para discutir se o clube consegue desenvolver projetos duradouros ou se permanece excessivamente condicionado aos resultados de curto prazo.
ABEL FERREIRA: 11 TÍTULOS E QUATRO FINAIS DE LIBERTADORES
A continuidade no Palmeiras apresenta resultados expressivos.
Abel Ferreira conquistou 11 títulos oficiais, tornando-se o treinador mais vencedor da história alviverde.
Entre as conquistas estão duas Libertadores, dois Campeonatos Brasileiros, uma Copa do Brasil, quatro Paulistas, uma Recopa Sul-Americana e uma Supercopa do Brasil.
A regularidade continental também impressiona.
O Palmeiras chegou às finais da Libertadores de 2020, 2021, 2025 e 2026 sob o comando do português. Venceu as duas primeiras, perdeu a decisão de 2025 para o Flamengo e terá outra oportunidade de conquistar o continente neste ano.
Em 2026, o clube também permanece na Copa do Brasil, com semifinal marcada contra o Vasco, e disputa o Campeonato Brasileiro.
O desempenho não representa uma garantia de novas conquistas, mas demonstra a capacidade do Palmeiras de permanecer competitivo em diferentes temporadas.
Nem mesmo a ausência de títulos em 2025 provocou o encerramento do trabalho.
ABEL NÃO É UM TREINADOR SEM PROBLEMAS
A estabilidade do Palmeiras não significa que Abel Ferreira esteja livre de críticas.
Ao longo de sua passagem pelo futebol brasileiro, o treinador protagonizou reclamações contra a arbitragem, expulsões e processos disciplinares.
Em abril de 2026, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva manteve uma suspensão de seis partidas aplicada por desrespeito à arbitragem no confronto contra o São Paulo.
Em outro processo, envolvendo uma expulsão diante do Fluminense, a punição foi reduzida de duas partidas para uma.
As decisões somaram sete jogos de suspensão.
Em setembro, Abel recebeu outra punição de duas partidas, em primeira instância, por conduta antidesportiva após chutar um equipamento de captação de áudio durante uma partida contra o Mirassol.
É importante distinguir os casos: a decisão de abril foi definitiva no STJD, enquanto a punição de setembro ainda admitia recurso quando anunciada.
Os episódios demonstram que o Palmeiras preserva seu projeto mesmo diante de problemas disciplinares envolvendo o treinador.
Isso não significa que o clube aprove suas atitudes. Também não elimina a necessidade de cobrar uma postura profissional.
A diferença está em não transformar automaticamente cada episódio negativo em motivo para interromper o trabalho.
2025: O ANO EM QUE O PALMEIRAS PERDEU PARA O FLAMENGO
A temporada de 2025 oferece um exemplo significativo das diferentes políticas esportivas.
O Palmeiras terminou o ano sem títulos, apesar de disputar o Campeonato Brasileiro e chegar à final da Libertadores.
Nas duas competições, o Flamengo levou a melhor.
O Rubro-Negro conquistou o Brasileirão e venceu a decisão continental, confirmando uma temporada de grande sucesso sob o comando de Filipe Luís.
Para o Palmeiras, os resultados representaram frustrações importantes. Abel Ferreira foi cobrado, mas a direção optou por manter o treinador.
O clube preservou a comissão técnica e iniciou 2026 com o mesmo comandante.
A decisão não impediu novas dificuldades ao longo da temporada, mas permitiu que o projeto continuasse sem uma mudança estrutural no banco de reservas.
No Flamengo, a trajetória foi diferente.
FILIPE LUÍS: CAMPEÃO E DEMITIDO MESES DEPOIS
Filipe Luís assumiu o Flamengo em 2024 e construiu rapidamente uma trajetória vitoriosa.
Conquistou a Copa do Brasil de 2024, a Supercopa do Brasil de 2025, o Campeonato Carioca de 2025 e os títulos do Brasileirão e da Libertadores em 2025.
Mesmo com esse currículo, o treinador não resistiu ao início irregular de 2026.
Depois de derrotas em decisões da Supercopa do Brasil e da Recopa Sul-Americana, além das cobranças sobre o desempenho da equipe, Filipe Luís foi demitido em março.
A saída ocorreu após uma goleada por 8 a 0 sobre o Madureira, que classificou o Flamengo para a final do Campeonato Carioca.
O episódio resume um dos principais contrastes entre os clubes.
O Palmeiras manteve Abel após uma temporada sem conquistas. O Flamengo interrompeu o trabalho de Filipe Luís poucos meses depois de uma temporada com títulos de enorme importância.
As circunstâncias administrativas e esportivas eram diferentes. Ainda assim, as decisões revelam abordagens distintas para lidar com momentos de pressão.
INVESTIMENTO NÃO SUBSTITUI PLANEJAMENTO
O Flamengo possui capacidade financeira para contratar jogadores de alto nível e manter um elenco competitivo em diferentes competições.
Mas o investimento, por si só, não resolve todas as questões esportivas.
A construção de uma equipe exige entrosamento, adaptação dos jogadores, clareza de funções e continuidade de processos.
Quando um treinador deixa o clube, parte desse trabalho pode precisar ser revista pelo sucessor.
Isso não significa que a troca de comando seja sempre prejudicial. O próprio Flamengo conquistou títulos importantes após mudanças de treinador, como aconteceu com Dorival Júnior em 2022.
O ponto central é identificar quando a substituição representa uma necessidade esportiva e quando a continuidade poderia oferecer melhores resultados.
O Palmeiras também investe fortemente e altera peças de seu elenco. A diferença é que realiza essas mudanças preservando Abel Ferreira como referência técnica.
CONTINUIDADE GARANTE TÍTULOS?
Não. A permanência de um treinador não garante conquistas, assim como uma troca de comando não impede uma equipe de ser campeã.
O Flamengo demonstrou isso em diferentes temporadas, vencendo competições com profissionais distintos.
Por outro lado, a trajetória do Palmeiras evidencia como um projeto duradouro pode manter uma equipe competitiva mesmo depois de derrotas e mudanças no elenco.
Em 2026, a comparação se tornou ainda mais evidente.
Abel Ferreira disputa sua quarta final de Libertadores pelo Palmeiras, enquanto Leonardo Jardim tenta conquistar o Brasileirão após as eliminações do Flamengo na Copa do Brasil e na competição continental.
Jardim apresenta números positivos e conquistou o Campeonato Carioca, mas também enfrenta a cobrança pelos resultados decisivos.
A questão agora não é simplesmente decidir qual treinador tem mais méritos.
É compreender que tipo de projeto esportivo o Flamengo pretende construir para os próximos anos.
DOIS MODELOS E UMA PERGUNTA PARA O FUTURO
Flamengo e Palmeiras continuam entre os protagonistas do futebol brasileiro.
Ambos possuem recursos, estruturas e capacidade para disputar grandes títulos.
O Palmeiras escolheu preservar seu treinador mesmo diante de derrotas importantes, comportamentos questionados e punições disciplinares.
O Flamengo construiu uma trajetória igualmente vencedora, mas com sucessivas mudanças no comando técnico, inclusive após campanhas históricas.
A comparação não permite afirmar que um modelo funcionaria exatamente da mesma maneira no outro clube.
Entretanto, revela uma diferença que merece reflexão.
Se o Flamengo consegue conquistar tantos títulos mesmo com constantes trocas de treinadores, o que poderia alcançar com um projeto técnico mais estável?
Essa é uma discussão que vai além de Abel Ferreira, Filipe Luís ou Leonardo Jardim. Envolve a visão de futebol que o clube pretende sustentar no futuro.








