Pedro marcou, encerrou o jejum e ajudou o Flamengo a vencer o Red Bull Bragantino por 2 a 1. O que deveria ser apenas uma noite de alívio para o atacante terminou também com mais uma imagem de insatisfação pública dentro do elenco rubro-negro.
Segundos depois do segundo gol, Bruno Henrique já estava preparado para entrar. Leonardo Jardim manteve a substituição que havia planejado antes da bola entrar.
Pedro não gostou.
As câmeras mostraram o camisa 9 gesticulando e questionando a saída. Segundo registros da transmissão, ele reclamou que estava no jogo. Depois, confirmou que pretendia permanecer em campo porque queria marcar mais gols.
Não houve confronto. Pedro cumprimentou Jardim, recebeu o abraço do treinador e seguiu para o banco.
Mas a cena chama atenção por um motivo simples: não é a primeira vez nos últimos meses que um jogador do Flamengo deixa evidente publicamente algum tipo de incômodo durante o trabalho de Leonardo Jardim.
E os episódios começam a formar uma sequência que merece ser observada.
Jardim minimizou novamente
Depois da partida, Jardim não escondeu que Pedro gostaria de continuar.
O treinador explicou que Bruno Henrique já estava pronto para entrar antes do gol e que precisava de um atacante capaz de aumentar o número de duelos naquele momento da partida.
Também revelou que conversou com Pedro.
Segundo Jardim, o atacante queria permanecer em campo, algo considerado normal pelo treinador, que lembrou que nenhum jogador gosta de sair. O português ainda ressaltou a boa relação com Pedro e afirmou que, no Flamengo, qualquer situação ganha uma dimensão maior.
A resposta segue um comportamento que Jardim já adotou em outros episódios: reconhece o que aconteceu, explica a decisão e tenta impedir que a situação cresça fora do campo.
Foi exatamente o que aconteceu com Samuel Lino.
Samuel Lino: Jardim precisou chamá-lo de volta
Na vitória por 2 a 0 sobre o Mirassol, em 2 de setembro, Lino foi substituído por Everton Cebolinha aos 36 minutos do segundo tempo.
Saiu visivelmente irritado.
O atacante reclamou, gesticulou na direção do treinador e caminhou para o banco sem cumprimentá-lo.
Jardim não deixou passar.
Na coletiva, o próprio treinador contou que percebeu Lino desviando dele e determinou que voltasse para cumprimentá-lo.
Foi então que ouviu do jogador a reclamação sobre o gramado: a bola não corria, o campo estava escorregadio e o atacante estava frustrado com as jogadas que não conseguia executar.
A resposta de Jardim foi direta: ele não tinha culpa do gramado.
Lino depois explicou na zona mista que a reclamação era realmente sobre as condições do campo e brincou dizendo que precisava “reclamar com alguém”.
Isso ajuda a entender a origem da irritação.
Mas não muda a cena ocorrida no campo: em um momento de frustração, o jogador descarregou aquela irritação diante do treinador, que precisou intervir imediatamente.
E há um detalhe importante.
Lino não vinha em rota de colisão com Jardim. Muito pelo contrário.
Poucos dias antes, depois de dois gols contra o Botafogo, Jardim havia elogiado bastante o atacante e até brincado dizendo que sua função era apenas “não atrapalhar” o grande momento do jogador.
Ou seja: não estamos falando de um jogador publicamente rebelado contra o treinador.
Estamos falando de uma reação emocional que transbordou para a beira do campo.
Essa diferença é fundamental para entender toda essa história.
Alex Sandro também já saiu contrariado
Outro episódio ocorreu com um dos jogadores mais experientes do elenco.
No empate contra o Internacional, Alex Sandro fazia uma partida segura quando Jardim decidiu substituí-lo e colocar Varela improvisado pelo lado esquerdo.
A reação do lateral chamou atenção.
Alex Sandro demonstrou claramente que não gostou da saída, episódio que o próprio Fla Opina registrou na época ao analisar as escolhas do treinador.
O caso ganha peso justamente pelo perfil do jogador.
Alex Sandro tem longa experiência em futebol europeu, seleção brasileira e grandes competições. Não é um atleta normalmente associado a manifestações públicas de indisciplina.
Por isso, uma reação desse tipo chama mais atenção do que chamaria em um jogador historicamente explosivo.
E Jardim já deixou claro diversas vezes que a gestão do elenco passa exatamente por decisões desse tipo.
Em agosto, ao explicar sua política de rodízio, disse que não é “defensor do jogador A, B ou C”, mas do Flamengo, e que precisa tomar decisões considerando desgaste, adversário e opções disponíveis.
É uma mensagem que aparece frequentemente nas entrevistas do português.
Nem sempre agrada quem sai.
Varela foi além da irritação de campo
Com Varela, a história foi diferente.
Não houve uma cena de discussão com Jardim.
Houve uma cobrança pública sobre o futebol apresentado pela própria equipe.
Depois do empate por 1 a 1 contra o Internacional, em julho, o uruguaio foi bastante claro ao analisar a fase rubro-negra.
Para Varela, a preocupação já não deveria ser apenas com resultados ou pontos. O problema estava na maneira de jogar.
O lateral afirmou que o time não atravessava seu melhor momento e disse que os dias sem partidas deveriam servir para “fechar as portas”, recomeçar e trabalhar.
Na mesma ocasião, Danilo também cobrou autocrítica e afirmou que os jogadores precisavam se reconectar às ideias de Jardim, embora tenha feito questão de defender o treinador e destacar seu profissionalismo.
Varela voltou a fazer cobrança semanas depois.
Após a derrota para o Cruzeiro, destacou que o Flamengo havia começado bem, criado oportunidades e pressionado, mas não conseguiu decidir a partida quando teve a chance.
“Quando não se mata o jogo, tem risco”, resumiu o uruguaio.
Curiosamente, essa frase permanece atual.
Contra o Bragantino, o Flamengo voltou a produzir oportunidades suficientes para construir um placar confortável e terminou os minutos finais defendendo uma vitória por 2 a 1.
Jardim sabe que administrar o elenco será cada vez mais difícil
Existe outro elemento importante nessa história.
Leonardo Jardim nunca escondeu que considera impossível manter todos satisfeitos.
Quando discutiu a quantidade de opções do elenco, chegou a explicar que não pode simplesmente escalar todos os jogadores de maior nome simultaneamente porque isso pode desequilibrar a equipe.
Em outra entrevista, falou da dificuldade de administrar seis jogadores para poucas posições no meio e usou uma comparação curiosa: não adianta colocar “janela no lugar de porta”.
Agora, depois da vitória sobre o Bragantino, voltou ao mesmo tema.
Jardim destacou que o Flamengo precisa ser maior do que onze titulares e que jogadores como Saúl, Alex Sandro, Bruno Henrique e outros terão funções diferentes de acordo com cada partida.
É exatamente aí que mora o desafio.
Pedro quer jogar 90 minutos.
Bruno Henrique também quer espaço.
Saúl acaba de fazer uma das melhores partidas desde que chegou.
Ayrton Lucas conquistou a posição durante a ausência de Alex Sandro.
Alex Sandro retornou.
Jorginho, Pulgar, Paquetá, De la Cruz e Arrascaeta disputam minutos num setor congestionado.
Samuel Lino tornou-se peça fundamental.
Anthony Valencia e Joaquín Freitas precisam ser inseridos.
Um elenco forte oferece soluções para o treinador.
Também multiplica as decisões capazes de deixar alguém descontente.
Não há fato para falar em racha
É importante não atravessar a linha que separa observação de especulação.
Não existem elementos públicos suficientes para afirmar que Leonardo Jardim perdeu o vestiário.
Também não existe base para dizer que há um racha entre treinador e jogadores.
Em vários dos próprios episódios citados nesta matéria, atletas posteriormente defenderam Jardim ou trataram a situação como normal.
Pedro o abraçou.
Lino explicou o ocorrido.
Alex Sandro recentemente elogiou Ayrton Lucas e classificou a disputa pela posição como saudável.
Mas negar uma crise que ninguém comprovou não significa ignorar as imagens.
Pedro é apenas o episódio mais recente de uma sequência.
E sequências são justamente aquilo que o jornalismo precisa observar.




