A vitória por 3 a 0 sobre o Botafogo terminou em festa para o Flamengo, mas Leonardo Jardim deixou o Maracanã com uma cobrança que vai além do resultado do clássico. O treinador português voltou a chamar atenção para as condições do gramado e afirmou que o campo “não está à altura do Flamengo”.

A declaração aconteceu depois de uma partida em que o estado do terreno voltou a ficar evidente em diferentes momentos. Jogadores das duas equipes encontraram dificuldades em alguns domínios, mudanças de direção e disputas de bola, enquanto partes do campo apresentavam irregularidades visíveis.

Jardim, no entanto, fez questão de separar a reclamação sobre o gramado do desempenho de sua equipe.

O treinador não utilizou o estado do campo como justificativa para os momentos de queda do Flamengo no segundo tempo. Ao analisar a oscilação rubro-negra depois do intervalo, atribuiu o problema principalmente a erros técnicos e também à mudança de comportamento do Botafogo, que passou a pressionar mais a saída de bola.

A postura é importante porque coloca duas discussões diferentes na mesa.

O Flamengo precisa corrigir seus próprios problemas durante as partidas.

Mas isso não significa que as condições do principal estádio do Rio de Janeiro não possam — e não devam — ser cobradas.

Problema já havia sido apontado antes do clássico

A reclamação de Leonardo Jardim não surgiu isoladamente.

Onze dias antes do confronto com o Botafogo, depois da vitória por 2 a 1 sobre o Cruzeiro pela Libertadores, Léo Pereira já havia criticado publicamente as condições do gramado do Maracanã.

O zagueiro afirmou que o campo estava ruim para as duas equipes e destacou justamente o impacto que as irregularidades podem provocar em um time que procura manter a posse e propor o jogo.

A manifestação ganhou ainda mais peso porque ocorreu no mesmo período em que Flamengo e Fluminense, responsáveis pela administração do estádio, discutiam a necessidade de preservar o gramado.

Uma avaliação técnica realizada no fim de julho havia identificado elevado nível de desgaste causado pela intensa utilização do campo. A partir disso, foi montado um cronograma específico de recuperação.

O período entre os dias 23 e 29 de agosto foi reservado justamente para que os trabalhos fossem realizados antes de Flamengo x Botafogo.

Maracanã ficou uma semana sem jogos para recuperar o campo

A situação ganha um componente ainda mais relevante porque o clássico deste domingo ocorreu depois de uma semana dedicada ao gramado.

Após Fluminense x Remo, disputado no dia 22 de agosto, a empresa Greenleaf, responsável pela manutenção, iniciou uma série de procedimentos para tentar melhorar as condições de jogo.

Entre os trabalhos programados estavam o replantio de áreas danificadas, reparo dos chamados divots — pedaços do gramado arrancados pelas chuteiras —, aplicação de areia e composto para nivelamento, descompactação do solo, cortes específicos e utilização de iluminação artificial para estimular o crescimento da grama.

A área próxima ao gol norte recebeu atenção especial.

Segundo a empresa responsável pelo serviço, a recuperação vinha sendo dificultada pelo intervalo curto entre partidas e também pelas condições climáticas. Em três dos cinco jogos anteriores ao período de manutenção, houve chuva na véspera ou no próprio dia da partida, aumentando o desgaste do terreno.

Ou seja: houve trabalho de recuperação.

O problema é que, diante do que voltou a aparecer no clássico, a sensação é de que o resultado ainda está distante do padrão esperado para o Maracanã.

Uso intenso continua sendo desafio

A dificuldade não começou em 2026.

O Maracanã recebeu 73 partidas somente em 2025, número que ajuda a explicar o tamanho do desafio enfrentado para preservar o gramado durante uma temporada praticamente sem grandes intervalos.

O estádio utiliza um sistema híbrido, com grama natural reforçada por fibras sintéticas, mas nem mesmo essa estrutura elimina os efeitos de uma agenda pesada.

Flamengo e Fluminense dividem regularmente o estádio, enquanto outros eventos e partidas também precisam ser encaixados no calendário.

Em setembro haverá ainda outro desafio: o Maracanã está sendo preparado para receber uma partida da NFL em 27 de setembro, motivo pelo qual os cronogramas de manutenção de agosto e setembro também levam em consideração exigências específicas para o evento.

A discussão, portanto, vai além de simplesmente apontar que o gramado está ruim.

Existe uma questão de utilização, recuperação e planejamento.

Campo ruim interfere principalmente em equipes técnicas

O impacto de um gramado irregular também não é igual para todos os estilos de jogo.

O Flamengo procura trabalhar com circulação rápida, passes curtos, domínio orientado e jogadores capazes de decidir em espaços reduzidos.

Jorginho, Arrascaeta, Lucas Paquetá, Pedro, Samuel Lino e outros jogadores do elenco dependem muito da precisão técnica para acelerar jogadas.

Quando a bola quica de maneira inesperada ou o jogador precisa gastar um toque adicional para controlar um passe simples, a velocidade da jogada diminui.

Isso não significa que apenas o Flamengo seja prejudicado.

O Botafogo também possui jogadores técnicos e enfrentou o mesmo terreno no clássico.

Por isso, a reclamação de Jardim não precisa ser interpretada como tentativa de obter vantagem para o Flamengo, ainda mais depois de uma vitória por três gols de diferença.

A discussão é sobre qualidade do espetáculo e condições adequadas para os próprios jogadores.

Flamengo venceu, mas problema permaneceu visível

Dentro de campo, o Flamengo conseguiu superar as dificuldades.

Samuel Lino abriu o placar aos 12 minutos do primeiro tempo. Já na reta final da partida, marcou novamente, aos 40 da segunda etapa, e Carrascal completou o 3 a 0 três minutos depois.

O resultado aproximou novamente o Rubro-Negro das primeiras posições do Campeonato Brasileiro e confirmou a recuperação depois da derrota para o Cruzeiro.

Mas a vitória não apagou a situação do campo.

Na verdade, torna a crítica de Leonardo Jardim até mais relevante.

Quando um treinador reclama do gramado depois de perder, a manifestação rapidamente pode ser interpretada como tentativa de justificar o resultado.

Quando a reclamação surge depois de um 3 a 0 em um clássico, essa leitura perde força.

E existe outro elemento importante: não foi a primeira reclamação recente feita por alguém do próprio Flamengo.

Léo Pereira já havia levantado a questão.

O Consórcio Fla-Flu reconheceu tecnicamente o desgaste.

Uma semana inteira foi reservada para recuperação.

E, depois de todo esse processo, Leonardo Jardim voltou a reclamar.

Isso mostra que o problema merece acompanhamento.

O próximo compromisso do Flamengo no estádio acontece já na quarta-feira, contra o Mirassol, em partida atrasada do Campeonato Brasileiro.

Será mais um teste não apenas para o time de Jardim, mas também para um gramado que continua no centro das discussões.