José Boto chegou ao Flamengo carregando uma reputação construída durante anos no futebol europeu: encontrar jogadores, antecipar movimentos de mercado e construir elencos através de scouting.
Agora talvez tenha chegado o momento mais adequado para testar justamente essa reputação.
Segundo informação obtida pelo Fla Opina, o departamento de futebol trabalha com aproximadamente R$ 180 milhões disponíveis para reforçar o elenco nesta reta final de janela.
Não é pouco.
Também não é dinheiro para contratar qualquer estrela independentemente do preço.
É justamente uma faixa de investimento na qual um diretor conhecido pela capacidade de identificar jogadores deveria conseguir fazer diferença.
E por isso a pergunta muda.
Não é mais:
“O Flamengo tem dinheiro para contratar?”
Tem.
A pergunta agora é:
o que José Boto consegue fazer com R$ 180 milhões?
Boto chegou ao Flamengo como homem do scout
A contratação de José Boto nunca foi apresentada simplesmente como a chegada de mais um executivo para negociar jogadores.
Boa parte do currículo do português estava ligada ao scouting.
Ele construiu reputação especialmente no Benfica e no Shakhtar Donetsk, trabalhando com identificação de talentos, análise de mercados menos óbvios e contratação de jogadores antes de alcançarem os maiores valores de mercado.
Quando chegou ao Flamengo, no fim de 2024, uma das primeiras mudanças foi justamente no departamento responsável por esse trabalho.
O setor foi remodelado e Boto levou profissionais de sua confiança para dentro da estrutura rubro-negra.
Havia uma expectativa clara: o Flamengo já tinha dinheiro; Boto deveria acrescentar inteligência de mercado.
Esse detalhe é importante.
Porque contratar um jogador conhecido por €30 milhões não exige necessariamente um departamento de scouting extraordinário.
Encontrar por €8 milhões ou €10 milhões um jogador que em dois anos poderá custar €30 milhões é outra história.
E é aí que deveria aparecer o diferencial de um profissional com o currículo de Boto.
O Flamengo passou dos R$ 900 milhões em reforços
Dinheiro não faltou desde a chegada da atual gestão.
Dados financeiros divulgados pelo próprio Flamengo e compilados pelo ge mostram que os investimentos em jogadores durante a gestão Bap já ultrapassaram R$ 900 milhões, considerando aquisição de direitos, luvas e custos de intermediação.
O valor registrado chegou a aproximadamente R$ 902,2 milhões até o balanço do primeiro semestre de 2026.
É importante fazer justiça na análise.
Isso não significa que R$ 900 milhões tenham sido desperdiçados.
Samuel Lino entregou produção. Carrascal ganhou espaço. Paquetá é tecnicamente um dos principais jogadores do elenco. Outros reforços também tiveram participação em uma equipe que continuou conquistando títulos.
A questão é outra.
Quando um clube investe nessa escala, a régua também precisa subir.
O Flamengo não pode avaliar uma contratação apenas perguntando se o jogador “é bom”.
Com o poder financeiro que possui, precisa perguntar se aquele jogador representa o melhor uso possível daquele investimento.
O próprio Boto diminuiu o peso do scouting
Existe uma declaração que torna o momento atual ainda mais interessante.
Em fevereiro deste ano, José Boto explicou publicamente uma mudança no perfil de contratações do Flamengo.
Com o aumento do poder financeiro do clube, afirmou que “o scouting não é determinante” para o time principal.
O argumento era compreensível.
Segundo Boto, o nível do elenco havia aumentado tanto que encontrar jogadores desconhecidos capazes de acrescentar imediatamente ao Flamengo se tornara muito mais difícil. Paquetá era o exemplo evidente: ninguém precisa de um scout para descobrir Lucas Paquetá.
Mas essa declaração cria uma contradição interessante agora.
Se o Flamengo não vai mais fazer outra operação do tamanho de Paquetá nesta janela e voltou a procurar ajustes pontuais, o scouting volta a ser fundamental.
E é justamente aí que Boto precisa aparecer.
Bap prometeu poder para gastar R$ 1 bilhão
A expectativa sobre o mercado do Flamengo também não foi criada pelo torcedor.
Foi alimentada pela própria direção.
No fim de 2025, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, revelou que o Flamengo teria condição financeira de investir até R$ 1 bilhão em contratações caso entendesse que isso fosse necessário.
O presidente explicou posteriormente que não significava necessariamente gastar todo esse dinheiro imediatamente, mas demonstrava a capacidade financeira construída pelo clube.
Poucos meses depois, Bap apresentou uma frase que talvez represente melhor do que qualquer outra a filosofia que o Flamengo dizia querer adotar:
“O Flamengo não contrata um jogador, contrata o jogador.”
Era uma declaração de ambição.
O clube não iria simplesmente preencher posições.
Identificaria exatamente o jogador que entendesse ser ideal e faria o esforço para contratá-lo.
Bap chegou a dizer que o centroavante desejado pelo Flamengo poderia custar entre €32 milhões e €40 milhões, mesmo chegando para dividir posição com Pedro.
A régua foi colocada lá em cima pela própria diretoria.
Só que “O jogador” não chegou nesta janela
Depois da Copa do Mundo, o Flamengo partiu para nomes de grande impacto.
Thiago Almada foi prioridade.
A negociação não terminou em contratação.
Depois veio Luiz Henrique.
O atacante também não chegou.
O Flamengo chegou a discutir valores elevados pelo jogador do Zenit. Uma das tratativas chegou à faixa de €30 milhões fixos mais bônus, embora posteriormente o clube tenha contestado a existência de uma proposta formal nesses números.
Agora Luiz Henrique está em negociação avançada com a Roma, que sinalizou uma operação de aproximadamente €30 milhões, podendo alcançar €40 milhões com bônus.
Ou seja:
os dois grandes alvos que poderiam materializar a ideia de “O jogador” não chegaram ao Flamengo.
E a estratégia mudou novamente.
Agora o discurso é de ajustes pontuais
A reta final da janela tem outro perfil.
Em vez de buscar necessariamente uma contratação midiática, o Flamengo passou a trabalhar com ajustes pontuais no elenco, principalmente no setor ofensivo.
A necessidade de um centroavante para alternar com Pedro continua sendo discutida.
Também há necessidade de recompor o setor após movimentações como as saídas de Gonzalo Plata e Wallace Yan.
O clube voltou a observar mercados como o argentino e passou a trabalhar com jogadores de perfis diferentes daqueles grandes nomes inicialmente pretendidos.
E isso nos traz novamente ao ponto inicial.
Segundo informação obtida pelo Fla Opina, José Boto tem aproximadamente R$ 180 milhões para trabalhar nesta janela.
Talvez o grande teste dele não seja encontrar outro Paquetá.
Talvez seja exatamente o contrário.
Não precisa descobrir Paquetá. Precisa descobrir o próximo
Qualquer diretor de futebol conhece os grandes jogadores do mercado.
Almada é conhecido.
Luiz Henrique é conhecido.
Paquetá é conhecido.
Um clube com centenas de milhões disponíveis pode entrar na disputa por eles.
O trabalho de scouting começa a fazer diferença quando a pergunta é outra:
quem será o próximo?
Quem é o atacante que ainda custa €8 milhões, mas possui características para valer €25 milhões daqui a duas temporadas?
Quem é o centroavante capaz de dividir minutos com Pedro sem exigir uma operação de €40 milhões?
Quem é o jogador sul-americano que se encaixa no modelo do Flamengo antes que Benfica, Porto, Brighton, Shakhtar ou outro clube especializado em formação de valor descubra?
Essa deveria ser uma das vantagens competitivas trazidas por José Boto.
R$ 180 milhões permitem mais de uma escolha
R$ 180 milhões representam atualmente algo próximo da faixa de €30 milhões, dependendo da cotação.
Não é suficiente para fazer várias contratações de estrelas estabelecidas no futebol europeu.
Mas é dinheiro suficiente para construir diferentes operações.
O Flamengo poderia, por exemplo, distribuir o investimento entre dois ou três jogadores identificados como oportunidades.
Poderia contratar um centroavante e um jogador de lado.
Poderia apostar em jogadores mais jovens com possibilidade de valorização.
Poderia ainda estruturar operações parceladas que aumentassem a capacidade nominal de investimento.
É justamente nesse tipo de cenário que o diretor de futebol deixa de ser simplesmente negociador.
Precisa escolher.
E escolher bem.
Boto também precisa responder pelos erros
Uma análise séria não pode transformar toda contratação que não virou titular absoluto em fracasso.
Mas também não pode fugir das decisões que deram errado.
Juninho foi uma aposta diretamente associada à primeira fase do trabalho de Boto.
Custou aproximadamente R$ 40 milhões considerando a operação total e deixou o clube sem conseguir se consolidar como solução para o ataque.
Outras contratações custaram valores elevadíssimos e ainda precisam justificar plenamente o investimento.
Ao mesmo tempo, Flamengo e Boto participaram da montagem de um elenco vencedor.
Existem acertos.
Existem erros.
E é exatamente por isso que a nova janela é importante.
Depois de quase dois anos, já não existe mais o argumento de adaptação ao futebol brasileiro.
Boto conhece o clube.
Conhece o elenco.
Montou sua estrutura.
Escolheu profissionais.
Reorganizou o scouting.
Participou de janelas milionárias.
Agora possui também recursos para agir novamente.
O Flamengo não precisa provar que é rico
Talvez esse seja o ponto central.
O Flamengo já provou que tem dinheiro.
O faturamento passou dos R$ 2 bilhões.
A gestão afirmou ter capacidade de investir R$ 1 bilhão em reforços.
Mais de R$ 900 milhões já passaram pelas operações de contratação.
E agora, segundo informação obtida pelo Fla Opina, existem aproximadamente R$ 180 milhões disponíveis nesta janela.
Portanto, o debate não deveria ser sobre riqueza.
Deveria ser sobre eficiência.
O grande Flamengo não pode depender eternamente de pagar mais caro que os outros para conseguir contratar.
Em algum momento, tamanho financeiro precisa ser acompanhado por vantagem intelectual no mercado.
E foi justamente para ajudar a construir essa vantagem que José Boto chegou.




