José Boto voltou a falar sobre sua experiência no futebol brasileiro durante o Portugal Football Summit. Entre avaliações esportivas sobre o Flamengo e o Brasileirão, o diretor também expôs o lado que considera mais difícil de trabalhar no país: pressão, exposição pública e os efeitos que o cargo trouxe para sua vida pessoal.
Em entrevista ao Bola na Rede, Boto afirmou que gosta da experiência profissional no Brasil, mas fez uma ressalva importante ao falar sobre morar no Rio de Janeiro. Segundo ele, entre todos os lugares onde já viveu, a cidade é provavelmente aquela em que possui a pior vida privada e social.
O dirigente relacionou isso à dimensão do Flamengo, à exposição pública do cargo e também aos problemas de segurança existentes no Rio.
No Flamengo, tudo é maior
Durante o mesmo evento em Portugal, Boto também descreveu a pressão existente no futebol brasileiro.
Segundo o diretor, contratar para o Flamengo exige mais do que avaliar apenas a qualidade técnica. O jogador precisa estar preparado para lidar com um ambiente em que a percepção sobre seu desempenho pode mudar rapidamente.
Boto afirmou que, no futebol brasileiro, o atleta pode passar de muito elogiado a fortemente criticado em poucos dias.
No Flamengo, segundo ele, essa intensidade é ainda maior.
O dirigente resumiu a situação dizendo que no clube “esse exagero é multiplicado por mil”.
A declaração surgiu enquanto Boto explicava também o cuidado na integração de jovens como Joaquín Freitas e Anthony Valencia. Na visão dele, atletas mais experientes conseguem lidar melhor com essa pressão, enquanto os mais novos precisam ser inseridos gradualmente.
A “resiliência” de Abel Ferreira
Outro trecho que chamou atenção foi a referência a Abel Ferreira.
Boto afirmou que, depois de quase dois anos trabalhando no Brasil, passou a olhar de outra maneira para a permanência do treinador do Palmeiras no país.
Segundo o diretor do Flamengo, alguém permanecer durante seis anos no futebol brasileiro precisa ter “uma resiliência muito grande”.
Boto completou dizendo que tira o chapéu para Abel pelo período construído no Palmeiras.
A observação ganha relevância porque Abel também já fez várias críticas ao funcionamento do futebol brasileiro ao longo de sua trajetória no país.
Nem tudo é crítica
Apesar das declarações sobre pressão e vida pessoal, Boto também fez elogios importantes ao futebol brasileiro.
Ao avaliar o Brasileirão, classificou a competição como extremamente competitiva e afirmou que, se fosse melhor comercializada internacionalmente, poderia estar no nível das cinco principais ligas europeias.
O diretor destacou fatores que tornam o campeonato particularmente difícil, como viagens longas, diferentes condições climáticas e variedade de gramados.
Boto também reconheceu diretamente a força da torcida rubro-negra.
Depois de uma partida de Libertadores em que o Flamengo terminou com dez jogadores, pediu que os torcedores continuassem apoiando a equipe e afirmou que, quando o Maracanã empurra na mesma direção, torna-se muito difícil para qualquer adversário jogar ali.
Pressão também faz parte do tamanho do clube
O próprio Boto reconhece que ganhar no Flamengo é obrigação.
Em entrevista à Renascença, afirmou que o clube possui uma estrutura altamente profissionalizada e que precisa funcionar sem depender exclusivamente de um treinador, jogador ou dirigente.
Essa estrutura permite ao Flamengo disputar praticamente todas as competições com ambição de título.
Mas o tamanho do clube também aumenta a cobrança.
Torcida, imprensa, dirigentes e jogadores convivem diariamente com um nível de exposição difícil de encontrar em boa parte dos clubes brasileiros.
É justamente nesse ponto que as recentes declarações de Boto abrem espaço para uma discussão maior sobre a relação entre o profissional, a pressão e o ambiente em que escolheu trabalhar.




