O Palmeiras sabe negociar seus atletas. E não é de hoje. Nos últimos anos, o clube transformou suas categorias de base em uma verdadeira fonte de receita sem abrir mão da competitividade. Estêvão, Endrick e agora Allan são exemplos de um trabalho que combina formação, espaço no profissional, valorização e venda no momento em que o mercado está disposto a pagar muito.

Estêvão foi negociado com o Chelsea em uma operação que pode chegar a 61,5 milhões de euros: 45 milhões fixos e 16,5 milhões em bônus. Na cotação utilizada na época, aproximadamente R$ 358 milhões. O Palmeiras possuía 70% dos direitos econômicos do jogador.

Endrick seguiu um caminho semelhante. O Real Madrid fechou sua contratação por 35 milhões de euros fixos e até 25 milhões em bônus, chegando a 60 milhões de euros entre os clubes, cerca de R$ 337 milhões na cotação da época. O Palmeiras também possuía 70% dos direitos.

Até março de 2026, Endrick já havia acionado mais de 13 milhões de euros em metas previstas no acordo, mostrando como o Palmeiras conseguiu construir uma negociação que continuou gerando dinheiro mesmo depois da saída do atacante.

Agora veio Allan.

O Manchester City aceitou pagar 37,5 milhões de euros fixos mais 2,5 milhões em bônus, em uma operação que pode chegar a 40 milhões de euros, aproximadamente R$ 240 milhões.

E existe um detalhe impressionante nessa negociação: o Palmeiras possui 90% dos direitos econômicos do atacante.

No ano passado, o clube havia desembolsado apenas R$ 1,6 milhão para adquirir mais 20% de Allan junto ao Figueirense. Na venda para o City, essa mesma fatia passou a representar aproximadamente R$ 48 milhões.

Segundo cálculo do ge, a valorização dos direitos do jogador chegou a aproximadamente 2.900%.

Somando Estêvão, Endrick e Allan, são 161,5 milhões de euros em valores potenciais brutos de transferências.

Pelos valores em reais divulgados nas respectivas épocas, estamos falando de algo próximo de R$ 935 milhões em apenas três operações.

É importante deixar uma coisa clara: isso não significa que R$ 935 milhões entraram integralmente nos cofres do Palmeiras. O clube não tinha 100% dos direitos de Estêvão e Endrick, além de parte dos valores estar condicionada ao cumprimento de bônus.

Mas o tamanho dessas operações mostra uma capacidade enorme de transformar talento da base em ativos de altíssimo valor.

E aqui começa a pergunta que incomoda o torcedor rubro-negro:

por que o Palmeiras consegue fazer isso com tanta frequência e o Flamengo, mesmo tendo uma das melhores bases do país, ainda acumula negociações que deixam sensação de desperdício?

Alan Santos sai sem receita imediata

O exemplo mais recente é Alan Santos, atacante de apenas 19 anos.

O Benfica anunciou sua contratação em definitivo.

Quanto o Flamengo recebeu imediatamente pela transferência?

Nada.

O clube português não teve custo imediato para contratar o jogador. Como contrapartida, o Flamengo permaneceu com 50% dos direitos econômicos, apostando em uma valorização e em uma futura venda.

É uma estratégia que pode funcionar.

Se Alan Santos crescer em Portugal e posteriormente for negociado por uma grande quantia, os 50% podem representar uma receita relevante para o Flamengo.

Mas isso é futuro.

Hoje, a realidade é que um jogador de 19 anos, que vinha se destacando nas categorias de base, disputou partidas pelo profissional e chamou a atenção de um dos maiores clubes formadores da Europa, deixou o Flamengo sem gerar um euro de receita imediata.

O contraste é inevitável.

Enquanto o Palmeiras acabou de negociar Allan com o Manchester City por uma operação que pode chegar a R$ 240 milhões, o Flamengo liberou Alan Santos para o Benfica e ficou dependendo de uma possível valorização futura.

Victor Hugo é um caso ainda mais impressionante

Victor Hugo talvez represente de maneira ainda mais clara o problema da desvalorização de um ativo.

Em 2023, o Wolverhampton apresentou ao Flamengo uma proposta de 20 milhões de euros, aproximadamente R$ 107 milhões na época, pelo então jovem meia.

O Flamengo recusou.

Naquele momento, Victor Hugo era considerado uma das grandes joias do clube, vinha recebendo oportunidades e havia expectativa de valorização ainda maior.

Recusar uma proposta não é necessariamente um erro.

O problema está no que aconteceu depois.

Victor Hugo perdeu espaço, deixou de ter sequência e passou por empréstimos. Em determinado momento, o Flamengo chegou a aceitar uma saída para o Famalicão sem compensação financeira imediata, mantendo percentual do atleta. A repercussão negativa fez a operação não avançar.

Finalmente, em janeiro de 2026, o Atlético-MG comprou 50% dos direitos econômicos por US$ 2,5 milhões, aproximadamente R$ 13,4 milhões.

O Santos ainda tinha direito a 10% da transação por uma cláusula de vitrine.

Não seria correto dizer simplesmente que o Flamengo “perdeu R$ 94 milhões”, porque estamos falando de momentos diferentes, percentuais diferentes e circunstâncias diferentes.

Mas como exemplo de desvalorização de ativo, os números são assustadores.

Em 2023, uma proposta de R$ 107 milhões foi considerada insuficiente.

Em 2026, metade dos direitos foi negociada por R$ 13,4 milhões.

Alguma coisa aconteceu no caminho.

Otávio: quem realmente valorizou o jogador?

Outro exemplo é o zagueiro Otávio.

O Flamengo o emprestou ao Famalicão, de Portugal, com uma opção de compra estipulada em apenas 500 mil euros por 70% dos direitos econômicos.

Naquele momento, menos de R$ 3 milhões.

O Famalicão exerceu a opção.

Pouco tempo depois, o Porto apareceu e contratou Otávio por aproximadamente 12 milhões de euros, cerca de R$ 63 milhões.

Como o Flamengo havia mantido 30%, recebeu aproximadamente 3,6 milhões de euros, algo próximo de R$ 19 milhões.

Nesse caso, preservar o percentual salvou uma parte importante da operação.

Mas a pergunta permanece:

se o jogador rapidamente passou de uma avaliação de 500 mil euros para uma negociação de 12 milhões, por que essa valorização aconteceu no Famalicão e não no Flamengo?

Rodrigo Muniz mostra os dois lados

Rodrigo Muniz merece entrar nessa discussão, embora seu caso tenha uma diferença importante.

O atacante foi vendido ao Fulham em 2021 por 8 milhões de euros, aproximadamente R$ 50 milhões, quando tinha apenas 20 anos.

O Flamengo, porém, manteve 25% de uma futura transferência.

Em 2025, a Atalanta apresentou uma proposta de 35 milhões de euros fixos mais 5 milhões em bônus pelo centroavante.

Se o negócio tivesse sido concretizado pelos €35 milhões fixos, o Flamengo poderia faturar aproximadamente €10,5 milhões considerando o percentual preservado e o mecanismo de clube formador.

Aqui, manter uma fatia futura foi uma decisão inteligente.

A discussão é outra: será que Muniz não poderia ter sido mais valorizado ainda dentro do Flamengo antes de sair?

Shola repete a aposta no futuro

Shola também entra nessa lista.

Em 2025, o atacante deixou o Flamengo rumo ao Dínamo de Kiev.

A operação rendeu apenas US$ 400 mil, cerca de R$ 2,1 milhões, e o Flamengo preservou 50% dos direitos econômicos.

Era um jogador importante do sub-20 e vinha de destaque nas competições internacionais da categoria.

Mais uma vez, o Flamengo preferiu abrir mão de receita imediata relevante para apostar em uma possível valorização futura na Europa.

Pode dar certo.

Mas chama atenção a frequência com que o clube precisa recorrer a esse modelo.

A diferença parece estar no caminho até o profissional

É justamente nesse ponto que, para mim, aparece uma das grandes diferenças entre Palmeiras e Flamengo.

O Palmeiras tem conseguido construir uma ponte mais clara entre base e time profissional.

O jogador surge, recebe oportunidades, disputa partidas importantes, ganha minutos, aumenta sua exposição, valoriza sua marca e só depois é negociado.

O mercado europeu não compra apenas potencial.

Compra também aquilo que consegue enxergar.

Quanto mais um garoto atua em Campeonato Brasileiro, Libertadores, Mundial e grandes clássicos, maior tende a ser sua valorização.

No Flamengo, vários talentos acabam vivendo um caminho diferente.

Sobem, recebem poucos minutos, retornam ao sub-20, passam por empréstimos e muitas vezes chegam ao mercado com menos força de negociação do que poderiam ter.

Quando o Flamengo finalmente decide vender, em alguns casos já não controla mais completamente a valorização do ativo.

O Flamengo também tem bons negócios

Seria injusto afirmar que o Flamengo não sabe negociar jogadores.

Existem exemplos importantes do contrário.

Wesley foi vendido para a Roma por 25 milhões de euros, com possibilidade de mais 5 milhões em bônus.

Ryan Roberto foi negociado com o Shakhtar por 9,5 milhões de euros fixos mais 500 mil euros em bônus, podendo alcançar aproximadamente R$ 59 milhões, mesmo praticamente sem sequência no time principal.

Matheus Gonçalves saiu por 8 milhões de euros.

O Flamengo também realizou grandes vendas de jogadores que não vieram da base, como Gerson por 25 milhões de euros ao Zenit.

Portanto, a tese não pode ser simplesmente:

“O Flamengo não sabe vender.”

Isso seria fácil demais.

A pergunta correta é:

o Flamengo consegue extrair todo o valor possível das suas principais joias?

E olhando para alguns dos casos recentes, a resposta parece ser: nem sempre.

O Flamengo precisa olhar para o rival

Estêvão, Endrick e Allan representam uma estratégia clara de formação, utilização e valorização.

Alan Santos, Victor Hugo, Otávio e Shola representam casos em que o Flamengo precisou apostar em percentuais futuros ou viu jogadores perderem valor antes da negociação definitiva.

E isso merece reflexão.

O Flamengo possui uma das melhores estruturas de formação do Brasil. Tem capacidade financeira, visibilidade mundial, torcida gigantesca e uma camisa que naturalmente coloca seus jovens sob os olhos do mercado internacional.

O clube tem praticamente todos os ingredientes necessários.

O que precisa melhorar é a maneira de transformar essa formação em patrimônio.

Porque formar jogador é importante. Utilizar é fundamental. E saber vender também é futebol.

Quando o maior rival esportivo dos últimos anos consegue transformar três joias em operações potenciais próximas de R$ 935 milhões, não existe vergonha nenhuma em observar o que está sendo feito do outro lado.

Vergonha seria não aprender.

O Palmeiras tem mostrado que base não é apenas lugar para revelar jogador.

É também planejamento esportivo, patrimônio e negócio.

E talvez esteja justamente aí uma das lições que o Flamengo precisa aprender.