Plata ganhou tudo. Mas por que não deixa saudade?
Gonzalo Plata deixa o Flamengo com um currículo que, observado apenas pelos números e pelas conquistas, poderia indicar uma passagem muito mais marcante do que aquela que provavelmente permanecerá na memória do torcedor.
Foram 100 jogos, nove gols, 13 assistências e seis títulos com a camisa rubro-negra. O equatoriano participou de uma das fases mais vencedoras do clube, marcou gols importantes, deu assistências, conquistou espaço e recebeu confiança de diferentes treinadores.
Filipe Luís confiou nele. Leonardo Jardim também.
Plata foi titular em diferentes momentos e, mesmo quando não começava jogando, normalmente aparecia entre as principais alternativas para o setor ofensivo.
Dentro de campo, seria injusto afirmar que lhe faltava entrega.
Plata corria, pressionava, ajudava defensivamente, recompunha e oferecia intensidade. Em determinados jogos, essas características eram justamente aquilo que fazia os treinadores insistirem em sua presença no time.
Ele também esteve em momentos importantes das conquistas recentes do Flamengo.
Então surge uma pergunta aparentemente contraditória:
Por que um jogador com 100 partidas, seis títulos, gols importantes e confiança dos treinadores deixa o Flamengo sem provocar uma grande sensação de perda?
Talvez porque a passagem de Gonzalo Plata tenha sido construída por uma quantidade enorme de pequenos “mas”.
E, quando eles são colocados todos juntos, acabam diminuindo o tamanho dos seus méritos.
O problema estava justamente onde um atacante precisa decidir
Plata nunca foi um grande goleador.
E essa dificuldade não surgiu apenas no Flamengo.
A finalização sempre esteve entre as limitações mais evidentes de seu futebol.
No Flamengo, isso ficou ainda mais exposto.
Um atacante pode ajudar na marcação, pressionar a saída adversária, abrir espaços e executar corretamente diferentes funções táticas. Tudo isso possui enorme importância no futebol moderno.
Mas chega um momento em que o atacante precisa decidir.
Precisa transformar uma oportunidade em gol.
Precisa escolher corretamente o último passe.
Precisa aparecer dentro da área.
E Plata frequentemente deixava a sensação de que construía muito mais jogadas do que conseguia concluir.
Boa arrancada.
Força física.
Velocidade.
Chegada perigosa.
E então, muitas vezes, vinha uma decisão ruim.
Às vezes era a finalização. Em outras, o último passe. Em determinadas situações, faltava simplesmente aquela frieza que diferencia um atacante participativo de um atacante decisivo.
Nove gols em 100 partidas ajudam a explicar essa percepção.
Não significa que Plata tenha sido inútil. Muito pelo contrário.
Significa que, para um jogador ofensivo utilizado tantas vezes por um clube do tamanho do Flamengo, faltou transformar participação em números com maior frequência.
Fora de campo, Plata também criou problemas para si mesmo
Mas sua passagem não pode ser analisada apenas pelo futebol.
Plata acumulou episódios extracampo que provocaram cobranças internas e questionamentos sobre seu comportamento. Em determinado momento desta temporada, chegou a ser barrado por Leonardo Jardim após problemas disciplinares.
Sua relação com a vida noturna também virou assunto recorrente durante sua passagem.
E aqui existe um ponto importante.
Jogador de futebol também tem vida particular. Não se pode exigir que um atleta deixe de viver simplesmente porque atua profissionalmente.
O problema começa quando escolhas feitas fora de campo passam a interferir na imagem, na preparação ou na relação profissional dentro do clube.
Principalmente no Flamengo.
A exposição é gigantesca.
Um jogador pode sair de campo às 23 horas sendo elogiado por milhões de pessoas e, poucas horas depois, ter uma atitude fora das quatro linhas discutida pelas mesmas milhões.
Pode ser exagerado?
Muitas vezes é.
Mas esse é o ambiente.
E quem chega ao Flamengo precisa compreendê-lo rapidamente.
Plata talvez nunca tenha entendido completamente o Flamengo
Aqui está, para mim, a maior questão de toda a passagem.
Gonzalo Plata jogou pelo Flamengo.
Mas tenho dúvidas se realmente conseguiu entender o Flamengo.
Existe diferença.
Vestir a camisa é entrar no gramado.
Entender a camisa é perceber tudo aquilo que vem junto com ela.
É saber que talento sozinho não basta.
Que entrega também não basta.
Que correr durante 90 minutos não apaga necessariamente decisões erradas tomadas durante a semana.
E principalmente entender que atuar em um clube gigantesco significa conviver com uma cobrança proporcional ao privilégio.
O Flamengo oferece uma estrutura de primeiro nível.
Paga salários elevados.
Disputa praticamente todos os títulos.
Coloca o jogador diante de uma das maiores torcidas do mundo.
Em troca, existe uma exigência.
Profissionalismo.
Comprometimento.
Foco.
Não significa pedir perfeição.
Nenhum ser humano é perfeito.
Mas significa entender que a carreira de um atleta profissional é curta demais para ser desperdiçada em situações evitáveis.
Sempre existia um “mas”
Talvez essa seja a maneira mais simples de resumir Gonzalo Plata no Flamengo.
Ele corria muito, mas fazia poucos gols.
Tinha importância tática, mas errava decisões importantes no último terço.
Era querido por diferentes treinadores, mas nunca se tornou indispensável para a torcida.
Participou de títulos, mas também colecionou episódios que desgastaram sua imagem.
Fez gols importantes, mas nunca virou protagonista.
Era útil, mas nunca pareceu insubstituível.
E quando existem tantos “mas” na passagem de um jogador, os aspectos positivos acabam parecendo menores do que realmente foram.
Plata ganhou muito pelo Flamengo.
Isso ninguém poderá retirar de sua história.
Ele esteve lá.
Participou.
Ajudou.
Foi campeão.
Mas memória afetiva no futebol é construída de uma forma curiosa.
Não existe uma fórmula matemática.
Há jogadores que conquistam uma enorme quantidade de títulos e nunca entram verdadeiramente no coração da torcida.
Outros conquistam menos, permanecem menos tempo e são lembrados por décadas.
Nem mesmo os treinadores conseguiram transformar confiança em identificação
Existe ainda um aspecto que torna a passagem de Plata particularmente interessante.
Ele não foi simplesmente um jogador encostado.
Muito pelo contrário.
Diferentes treinadores enxergaram utilidade em seu futebol.
Isso mostra que havia qualidades.
Treinadores observam funções que muitas vezes não aparecem diretamente nas estatísticas: ocupação de espaço, pressão, recomposição, disciplina tática, movimentos sem a bola.
Plata oferecia parte disso.
Por isso jogava.
Mas existe também aquilo que nenhuma comissão técnica consegue fabricar artificialmente: identificação com a torcida.
Ela nasce de grandes atuações.
De gols.
De decisões.
De personalidade.
De comportamento.
Da sensação de que determinado jogador compreendeu exatamente o tamanho da camisa que veste.
E Plata nunca conseguiu completar essa conexão.
A própria negociação diz alguma coisa
O Flamengo inicialmente não planejava perder Plata, que era utilizado por Leonardo Jardim. Com a movimentação do jogador e de seu estafe por valorização ou retorno ao futebol europeu, porém, surgiu a possibilidade de negócio com o Dínamo de Moscou.
O acordo ficou em torno de €10 milhões, além de até €2 milhões em bônus.
E a diretoria aceitou.
Isso não significa que o Flamengo considerasse Plata um jogador ruim.
Seria incoerente dizer isso sobre alguém que disputou 100 partidas.
Mas talvez demonstre exatamente a posição que ele ocupava dentro da estrutura.
Era importante.
Não era intocável.
Era utilizado.
Não era indispensável.
Quando apareceu uma proposta considerada interessante, o Flamengo encontrou motivos suficientes para permitir sua saída.
O Flamengo precisa de jogadores que entendam onde estão
Jogar no Flamengo exige muito mais do que simplesmente ter qualidade técnica.
O clube precisa de atacantes que pressionem, participem, recomponham e compreendam sistemas táticos.
Mas também precisa de gols.
Precisa de jogadores decisivos.
Precisa de atletas que estejam preparados para viver a enorme pressão que acompanha a camisa rubro-negra.
E precisa, principalmente, de profissionais capazes de entender que os títulos não começam apenas quando o árbitro apita.
Eles começam no treinamento.
No descanso.
Na alimentação.
Na preparação.
Nas escolhas.
Naquilo que o jogador faz quando ninguém deveria estar olhando.
Plata teve tempo suficiente para compreender esse ambiente.
Talvez tenha entendido parte dele.
Mas nunca pareceu compreender tudo.




