O Flamengo venceu o Fluminense por 1 a 0 neste domingo (11), no Maracanã, manteve a liderança do Campeonato Brasileiro, mas a arbitragem voltou a roubar a cena. Uma entrada de Erick Pulgar em Rodrigo Castillo, punida apenas com cartão amarelo, provocou reclamações do lado tricolor e reacendeu uma discussão que havia tomado conta do futebol brasileiro três dias antes, quando o Rubro-Negro contestou duramente Anderson Daronco no empate por 2 a 2 contra o Santos.

O episódio ganhou ainda mais repercussão pelas declarações de Samuel Xavier após o Fla-Flu e por outra coincidência da rodada: Daronco, protagonista das reclamações rubro-negras na Vila Belmiro, voltou a apitar justamente na goleada do Palmeiras por 4 a 1 sobre o Corinthians. O clube paulista chegou aos 63 pontos, enquanto o Flamengo permaneceu na liderança com 64. Com apenas um ponto separando os dois concorrentes ao título, cada decisão controversa passa a receber atenção especial.

Pulgar, Samuel Xavier e a revolta tricolor

Aos 32 minutos do primeiro tempo, Pulgar chegou atrasado em uma disputa e atingiu a perna de Rodrigo Castillo com a sola da chuteira. O contato provocou reclamações imediatas dos jogadores do Fluminense, que pediram cartão vermelho. O árbitro Rafael Rodrigo Klein, entretanto, aplicou apenas o amarelo, sem recomendação de revisão pelo VAR.

A decisão também foi contestada pelo ex-árbitro PC Oliveira, comentarista dos Canais Globo, que considerou a entrada passível de expulsão. A análise levou em consideração a intensidade do movimento e o risco provocado pelo contato com a perna do adversário.

Samuel Xavier manifestou sua insatisfação com a arbitragem, ampliando a discussão para além do lance de Pulgar. As reclamações do Fluminense ganharam destaque justamente em uma rodada marcada pela disputa direta entre Flamengo e Palmeiras nas primeiras posições.

O episódio merece uma análise que não dependa da camisa envolvida. A entrada do volante chileno apresentou elementos para a aplicação do cartão vermelho, especialmente pelo contato com a sola da chuteira. O fato de o Flamengo ter conquistado uma vitória importante não elimina a necessidade de discutir a decisão.

Por outro lado, a indignação tricolor também precisa ser contextualizada diante do que aconteceu com o Flamengo na rodada anterior. Na Vila Belmiro, o clube carioca havia apresentado reclamações igualmente contundentes sobre decisões que considerou determinantes para o resultado.

Daronco, dois pênaltis e quase dez minutos de VAR

Na quinta-feira (8), o Flamengo vencia o Santos por 2 a 0, com gols de Danilo e Lucas Paquetá, quando uma sequência de decisões de Anderson Daronco modificou o cenário da partida. Neymar converteu dois pênaltis e garantiu o empate por 2 a 2, resultado que impediu o Rubro-Negro de ampliar sua vantagem sobre o Palmeiras.

As controvérsias começaram ainda no primeiro tempo. Álvaro Barreal atingiu Carrascal por trás, com as travas da chuteira na região posterior da perna. Daronco aplicou cartão amarelo, e o VAR, comandado por Rodolpho Toski Marques, não recomendou revisão. Para o Flamengo, a entrada deveria ter resultado em expulsão direta.

O lance ganhou uma comparação inevitável com a entrada de Pulgar no Fla-Flu. Nos dois episódios, jogadores foram atingidos por ações consideradas perigosas, receberam atendimento e os responsáveis permaneceram em campo após cartões amarelos. Embora cada jogada tenha características próprias, a discussão sobre a uniformidade dos critérios é pertinente.

A maior polêmica na Vila Belmiro aconteceu no segundo tempo. Após receber um passe arriscado de Rossi, Jorginho disputou a bola com Rony, caiu e acabou tocando-a com o braço sobre a linha da área. Inicialmente, Daronco assinalou falta fora da área e apresentou cartão amarelo. Depois de uma longa revisão, alterou a decisão para pênalti e cartão vermelho, considerando que o volante havia impedido uma oportunidade clara de gol.

O procedimento provocou uma paralisação de 9 minutos e 56 segundos, a mais longa envolvendo o VAR registrada no Campeonato Brasileiro desde a implementação da tecnologia, em 2019, conforme levantamento do Gato Mestre. Neymar converteu a cobrança e iniciou a reação santista.

A interpretação do lance dividiu opiniões. O ex-árbitro Carlos Eugênio Simon considerou corretos o pênalti e a expulsão. Jorginho, por sua vez, reconheceu o próprio erro, mas criticou o procedimento da arbitragem e a decisão que classificou como o pior cenário possível para o Flamengo. O volante também questionou a mudança de rigor de Daronco na contagem do tempo para reposições de bola depois que o Rubro-Negro abriu vantagem.

Pouco depois, o árbitro marcou outro pênalti, desta vez após disputa entre Luiz Araújo e Gabriel Barbosa. A decisão também provocou divergências. Simon avaliou que o contato não foi suficiente para justificar a penalidade. O comentarista Paulo Vinícius Coelho igualmente criticou a marcação e a atuação de Daronco.

A insatisfação rubro-negra resultou em uma nota oficial publicada no dia 9 de outubro, na qual o clube apontou erros graves, falta de critério e problemas na condução da partida. A diretoria também questionou a origem da jogada do segundo pênalti e anunciou uma representação à CBF.

O Flamengo apresentou ainda um dado que chamou a atenção: após 29 partidas, acumulava sete expulsões e aparecia como o segundo clube com mais cartões vermelhos do campeonato, apesar de figurar apenas na 17ª posição em faltas cometidas. Embora esses números não comprovem erros de arbitragem isoladamente, reforçam a necessidade de examinar a aplicação das punições disciplinares.

A CBF divulgou o áudio do VAR referente ao lance de Jorginho e considerou corretas as decisões de pênalti e expulsão. Entretanto, os outros episódios contestados pelo Flamengo não receberam, naquela divulgação, o mesmo detalhamento público das conversas da arbitragem.

Daronco apita o Palmeiras e disputa pelo título segue acirrada

A sequência ganhou um ingrediente adicional neste domingo. Apenas três dias depois de Santos x Flamengo, Anderson Daronco foi responsável pela arbitragem de Palmeiras x Corinthians, novamente com Rodolpho Toski Marques no comando do VAR.

A escala havia sido divulgada pela CBF antes da partida da Vila Belmiro, mas a manutenção dos mesmos profissionais em um jogo envolvendo o principal concorrente rubro-negro chamou a atenção. O comentarista Paulo Vinícius Coelho também questionou a política de escalação da entidade, considerando inadequada a exposição de um árbitro tão contestado a outra partida de grande repercussão.

Dentro de campo, o Palmeiras dominou o Corinthians e venceu por 4 a 1, com dois gols de Agustín Giay, um de Alexander Barboza e outro contra de Matheus Bidu. Gustavo Henrique descontou para o Corinthians. A equipe de Abel Ferreira ainda desperdiçou um pênalti com Paulinho e terminou a rodada a apenas um ponto do Flamengo.

A goleada foi consequência da superioridade palmeirense, não havendo fundamento para atribuir o resultado à arbitragem. O que merece atenção é a gestão dos profissionais pela CBF e a maneira como decisões controversas continuam provocando discussões em jogos importantes da competição.

Com oito rodadas restantes, Flamengo e Palmeiras entram na reta decisiva separados por uma margem mínima. Uma expulsão não afeta apenas o andamento de uma partida: pode provocar suspensão no compromisso seguinte, como aconteceu com Jorginho, que ficou fora do Fla-Flu.

O Campeonato Brasileiro apresenta uma disputa intensa pela liderança, mas os episódios recentes também evidenciam a necessidade de maior transparência e uniformidade nos critérios de arbitragem. O Flamengo reclamou contra o Santos, o Fluminense contestou a decisão envolvendo Pulgar e os mesmos profissionais responsáveis pelas polêmicas da Vila Belmiro estiveram em campo no clássico paulista.

A questão central não é favorecer Flamengo, Fluminense, Palmeiras ou qualquer outro clube. É compreender por que determinadas entradas recebem apenas cartão amarelo, enquanto outras provocam expulsões, e quais critérios justificam as intervenções do VAR.

O Flamengo continua líder, o Palmeiras segue na perseguição e a disputa pelo título promete emoções até as últimas rodadas. O futebol brasileiro, entretanto, precisa impedir que a atuação dos árbitros continue ocupando mais espaço do que os próprios jogadores.