O Flamengo chegou à liderança do Campeonato Brasileiro.
Depois de semanas perseguindo o Palmeiras, o Rubro-Negro finalmente conseguiu aquilo que buscava. Venceu o Remo por 1 a 0 no Mangueirão, chegou aos 54 pontos e, com o empate do Palmeiras diante do Botafogo, terminou a rodada sozinho na primeira colocação, um ponto à frente do principal adversário pelo título.
Mas quem acompanha o Flamengo sabe muito bem: não existe tempo para respirar.
A partida em Belém já havia mostrado isso.
Foi um jogo dificílimo. Gramado pesado, chuva forte, condições complicadas e um adversário que se fechou e obrigou o Flamengo a trabalhar até encontrar o gol de Samuel Lino. O time precisou trocar momentos de técnica por luta e resistência para conseguir sair do Pará com os três pontos. Leonardo Jardim reconheceu depois da partida que, em determinado momento, o jogo exigiu mais sacrifício dos jogadores pelas condições do campo.
O Flamengo superou tudo.
Venceu.
O Palmeiras tropeçou.
Chegou a liderança.
Era para comemorar, certo?
Claro. Só que no Flamengo a comemoração dura pouco.
Abel já começou o jogo fora de campo
Nem bem o Flamengo assumiu a primeira colocação e Abel Ferreira tratou de jogar uma dose extra de pressão para o lado rubro-negro.
Depois do empate com o Botafogo e da perda da liderança, o treinador do Palmeiras comparou os currículos dos jogadores dos dois clubes, falou sobre os caminhos profissionais dos treinadores e afirmou que o Flamengo tem “obrigação de fazer muito mais”.
Para mim, a mensagem é muito clara.
Abel é experiente demais para não saber o peso de uma declaração dessas.
O Palmeiras passou de líder a perseguidor. E, neste momento, é conveniente transferir a responsabilidade. O Flamengo passa a ser apresentado como aquele que tem o grande elenco, o treinador experiente, o investimento e, consequentemente, a obrigação de ganhar.
É também futebol.
Existe o jogo dentro de campo e existe o jogo psicológico.
Abel está fazendo o dele.
Ele tenta diminuir a pressão sobre o Palmeiras enquanto aumenta a cobrança sobre o Flamengo.
Só que o Flamengo não precisa responder a Abel Ferreira.
Precisa responder dentro de campo.
E a próxima resposta será a quase 2.800 metros
É aí que a situação fica ainda mais interessante.
Enquanto se debate quem é favorito ao Campeonato Brasileiro, o Flamengo já precisa mudar completamente a cabeça.
Sai Brasileirão.
Entra Libertadores.
Na quinta-feira, o adversário será o Independiente del Valle, pelas quartas de final, no Estádio Olímpico Atahualpa, em Quito.
E estamos falando de jogar a aproximadamente 2.780 metros acima do nível do mar.
Não bastasse a altitude, os números do Del Valle nesta Libertadores mostram por que o Flamengo não pode tratar esse confronto como um compromisso comum.
Quatro jogos em casa. Quatro vitórias.
Esse é o dado que mais me chama atenção.
O Independiente del Valle disputou quatro partidas como mandante nesta Libertadores de 2026 e venceu todas.
Na fase de grupos:
3 a 1 sobre a Universidad Central.
4 a 1 sobre o Libertad.
1 a 0 sobre o Rosario Central.
Nas oitavas de final:
3 a 1 sobre o Deportes Tolima.
São quatro vitórias em quatro partidas, com 11 gols marcados e apenas três sofridos.
Isso significa uma média de 2,75 gols marcados por jogo como mandante nesta Libertadores.
Não é pouca coisa.
O Del Valle sabe explorar suas condições.
Sabe pressionar.
Sabe jogar em altitude.
E, principalmente, sabe construir vantagem quando atua no Equador.
Foi exatamente o que fez contra o Tolima: depois de vencer por 1 a 0 na Colômbia, ganhou novamente por 3 a 1 na volta e avançou com 4 a 1 no placar agregado.
Um time que não vive apenas da altitude
Também seria um erro reduzir o Independiente del Valle à altitude.
Na Libertadores inteira, até aqui, são oito partidas, seis vitórias, um empate e apenas uma derrota.
Foram 15 gols marcados e sete sofridos.
O time terminou a fase de grupos na liderança de sua chave com 13 pontos e chega às quartas com um atacante em excelente momento: Carlos González já marcou sete gols na competição.
Ou seja: altitude ajuda?
Claro que ajuda.
Mas tem futebol ali também.
E muito.
É exatamente por isso que considero esse jogo uma guerra esportiva para o Flamengo.
Não uma guerra no sentido de violência, evidentemente. Uma guerra de concentração, resistência, estratégia e inteligência.
O Flamengo precisa entender os 180 minutos
O primeiro jogo é no Equador.
A volta será no Maracanã, no dia 17.
Isso precisa entrar na cabeça dos jogadores desde o primeiro minuto em Quito.
O Flamengo não precisa ganhar a Libertadores na quinta-feira.
Mas pode complicar muito a classificação se permitir que o Del Valle faça aquilo que vem fazendo com todos os adversários em casa: construir vantagem.
O ideal é controlar o jogo.
Não transformar a partida numa corrida insana em altitude.
Não entregar espaços.
Não entrar na provocação de querer resolver a eliminatória em 20 minutos.
E, principalmente, permanecer vivo para trazer a decisão ao Maracanã.
Isso é maturidade de Libertadores.
Não deu nem para comemorar
É impressionante.
O Flamengo sai de um jogo pesado em Belém.
Conquista os três pontos.
Assume a liderança do Campeonato Brasileiro.
Vê o principal adversário tropeçar.
E praticamente não pode comemorar.
No dia seguinte já estamos discutindo Abel Ferreira.
Já estamos discutindo favoritismo.
Já estamos discutindo altitude.
Já estamos discutindo Del Valle.
Já estamos discutindo classificação na Libertadores.
E é exatamente aqui que entra uma coisa que sempre digo sobre o Flamengo.
Quem quer jogar no Flamengo precisa entender o que é Flamengo.
Não existe tranquilidade prolongada.
Não existe sequência de três jogos bons que compre um mês de sossego.
Não existe “agora podemos relaxar”.
Você conquista uma liderança e imediatamente passa a ser cobrado para mantê-la.
Você vence no Brasileiro e três dias depois precisa disputar uma classificação continental.
Você começa a jogar bem e imediatamente vira favorito.
Essa pressão acompanha a camisa.
Agora começa outra luta
O Flamengo fez sua parte contra o Remo.
A liderança está conquistada.
Agora precisa saber carregá-la.
Abel Ferreira pode colocar todo o favoritismo que quiser sobre o Flamengo. Faz parte da estratégia dele e também da rivalidade entre os dois clubes que hoje protagonizam a maior disputa do futebol brasileiro.
Mas a maior pressão nesta semana nem sequer vem de São Paulo.
Vem de Quito.
Vem de um adversário que venceu todos os jogos como mandante nesta Libertadores.
Vem de quase 2.800 metros de altitude.
Vem de uma eliminatória de 180 minutos contra um clube que construiu reputação justamente derrubando gigantes.
Não dá para descansar.
Não dá para relaxar.
Não deu nem tempo de comemorar direito.
Agora é Libertadores da América.
Agora é luta.
Agora é concentração.
Agora é Flamengo.




