A venda da SAF do Vasco deu nesta sexta-feira, 25 de setembro, o passo mais importante até agora.
A Almirante Participações, empresa liderada por Marcos Lamacchia, venceu o leilão judicial por 90% da nova SAF do Vasco.
O grupo de Lamacchia foi o único habilitado a apresentar oferta no processo competitivo.
Mas o avanço da operação não encerra uma das questões mais sensíveis envolvendo o negócio.
A ANRESF, agência da CBF responsável por fiscalizar as regras de sustentabilidade e fair play financeiro, mantém aberto um procedimento para analisar possível conflito de interesses envolvendo Vasco, Palmeiras, Marcos Lamacchia e integrantes da família ligada à Crefisa.
O ponto central está na relação familiar.
Marcos Lamacchia é enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras, e filho de José Roberto Lamacchia, fundador da Crefisa.
Por isso, mesmo com o leilão vencido, a discussão sobre eventual influência cruzada entre Vasco e Palmeiras continua.
Compra envolve muito mais do que R$ 500 milhões
A operação não possui um preço simples de compra dos 90% da SAF.
O que existe é um conjunto de compromissos financeiros assumidos pela Almirante Participações.
O principal deles prevê R$ 500 milhões exclusivamente para o futebol.
Os aportes devem ser realizados em parcelas anuais de R$ 100 milhões durante cinco anos, com correção prevista no acordo.
Além disso, estão previstos investimentos de aproximadamente R$ 120 milhões no centro de treinamento profissional e R$ 30 milhões destinados às categorias de base.
A operação também envolve compromissos relacionados às dívidas do Vasco, financiamento da atividade da SAF e necessidade de capital para os próximos anos.
Quando todas essas obrigações são consideradas, o compromisso econômico total pode ultrapassar a casa dos bilhões de reais.
É por isso que tratar a operação simplesmente como “Vasco vendido por R$ 3 bilhões” seria impreciso.
Esse número representa um conjunto de aportes, dívidas, investimentos e compromissos futuros.
Não significa que Marcos Lamacchia tenha pago R$ 3 bilhões diretamente pela aquisição dos 90% da SAF.
Relação com Palmeiras entrou no radar da CBF
A venda passou a ser acompanhada de perto pela ANRESF antes mesmo da realização do leilão.
O órgão abriu procedimento para avaliar se a estrutura societária poderia permitir influência relevante sobre dois clubes que disputam as mesmas competições.
Enquanto essa análise ocorre, medidas preventivas chegaram a ser adotadas para limitar determinadas relações entre Vasco, Palmeiras e empresas ligadas à Crefisa.
O objetivo é impedir qualquer possibilidade de interferência cruzada entre os clubes enquanto a situação é analisada.
O Vasco, por sua vez, defende que a operação respeita as regras do futebol brasileiro.
A discussão, portanto, não se resume ao fato de Marcos Lamacchia ser enteado de Leila Pereira.
O ponto principal é descobrir se existe ou poderá existir controle, influência relevante ou interesse econômico cruzado entre Vasco e Palmeiras.
Flamengo também questionou a operação
O Flamengo também entrou diretamente nessa história.
O clube pediu anteriormente que a estrutura da negociação envolvendo a SAF vascaína fosse analisada pelo sistema de fiscalização financeira da CBF.
A preocupação estava justamente ligada à possibilidade de influência societária ou econômica entre grupos relacionados a clubes que disputam as mesmas competições.
A partir daí, a análise passou a ser conduzida pela própria agência responsável pelo fair play financeiro.
O caso se tornou, portanto, um teste importante para as novas regras de controle societário no futebol brasileiro.
Empresa de Lamacchia já teve ligação com Leila
Outro ponto aumentou a atenção em torno da operação.
A Almirante Participações, empresa utilizada para a aquisição da SAF, já teve anteriormente Leila Pereira e José Roberto Lamacchia ligados à sua estrutura societária.
Posteriormente, o controle passou para Marcos Lamacchia.
Essa informação ampliou o debate sobre a necessidade de comprovar que a administração futura do Vasco funcionará de forma independente do Palmeiras.
Para a ANRESF, portanto, não basta observar apenas o nome que aparece formalmente como proprietário das ações.
A análise pode considerar também quem exerce influência, de onde vêm os recursos e como serão tomadas as decisões dentro da nova estrutura.
Leila pode deixar o Palmeiras em último caso
Nos bastidores, a situação pode chegar a uma decisão ainda mais relevante.
O Fla Opina apurou que Leila Pereira admite, em último caso, deixar a presidência do Palmeiras caso essa seja a única alternativa para eliminar um eventual conflito envolvendo a SAF do Vasco.
A informação circula entre pessoas que acompanham internamente o Palmeiras e o entorno da dirigente.
Isso não significa que uma renúncia esteja decidida.
Também não significa que a ANRESF necessariamente exigirá a saída de Leila.
Existem outras possibilidades antes de uma decisão desse tamanho.
Uma delas seria limitar temporariamente os poderes de Marcos Lamacchia dentro da SAF.
Outra possibilidade seria criar mecanismos independentes de gestão para impedir qualquer influência cruzada enquanto Leila permanecer no comando do Palmeiras.
Mas, segundo informações de bastidores obtidas pelo Fla Opina, a saída da dirigente não está descartada caso todas as outras alternativas sejam consideradas insuficientes.
O atual mandato de Leila no Palmeiras termina no fim de 2027.
Leilão vencido não encerra toda a operação
A vitória de Lamacchia no processo competitivo representa um passo decisivo para o futuro do Vasco.
Mas ainda existem etapas formais e regulatórias pela frente.
A proposta vencedora precisa cumprir todas as condições estabelecidas no processo judicial e na reorganização societária da SAF.
Também permanecem as obrigações relacionadas à recuperação judicial, aos aportes financeiros e aos investimentos previstos no acordo.
Além disso, a análise da ANRESF ainda precisa chegar a uma conclusão sobre o possível conflito de interesses.
Por isso, economicamente, Marcos Lamacchia está muito próximo de assumir o comando da nova SAF.
No aspecto regulatório, porém, ainda existe um capítulo importante a ser resolvido.




