Abel Ferreira voltou ao centro das atenções do Superior Tribunal de Justiça Desportiva. O técnico do Palmeiras foi denunciado pela Procuradoria do STJD depois de chutar um microfone instalado à beira do campo durante o empate por 1 a 1 com o Mirassol, no último domingo, pelo Campeonato Brasileiro.

O treinador foi enquadrado no artigo 258 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, dispositivo utilizado para punir condutas consideradas contrárias à disciplina ou à ética esportiva quando não há enquadramento específico em outro artigo.

Caso seja condenado, Abel pode receber suspensão de uma a seis partidas.

O caso ganha dimensão maior porque acontece em um momento decisivo da temporada, com o Palmeiras na liderança do Brasileirão e pressionado pelo Flamengo, além de disputar as fases decisivas da Copa do Brasil e da Libertadores.

Mas a nova denúncia também chama atenção por outro motivo: não se trata do primeiro encontro recente do treinador português com a Justiça Desportiva brasileira.

Microfone chutado e árbitros denunciados

O episódio ocorreu durante Mirassol x Palmeiras.

Insatisfeito durante a partida, Abel Ferreira chutou um dos microfones posicionados próximo ao gramado. A ação foi registrada pelas câmeras da transmissão.

O treinador não recebeu cartão vermelho no momento.

A Procuradoria do STJD, porém, decidiu analisar posteriormente as imagens e apresentou denúncia não apenas contra Abel.

O árbitro João Vitor Gobi, o quarto árbitro Roger Goulart e o responsável pelo VAR, Ilbert Estevam da Silva, também foram denunciados pela atuação no episódio.

A inclusão dos integrantes da arbitragem abre uma discussão paralela importante: por que uma ação posteriormente considerada suficientemente relevante para gerar denúncia no tribunal não provocou uma expulsão durante o jogo?

Agora, tanto a conduta de Abel quanto a atuação da equipe de arbitragem serão avaliadas pela Justiça Desportiva.

Abel acumula histórico disciplinar expressivo

O novo processo não surge de maneira isolada dentro da passagem de Abel Ferreira pelo futebol brasileiro.

Desde que assumiu o Palmeiras, em outubro de 2020, o treinador passou a acumular não apenas títulos, mas também uma quantidade elevada de advertências e processos disciplinares.

Levantamento divulgado pela imprensa aponta que Abel chegou à marca de 101 cartões no comando do clube paulista: 87 amarelos e 14 vermelhos.

Isso representa, aproximadamente, um cartão a cada quatro partidas.

O mesmo levantamento aponta que o português já respondeu a cerca de 20 processos no STJD desde sua chegada ao Brasil.

Em diferentes julgamentos, foram aplicados ao treinador 22 jogos de suspensão, embora parte dessas penas tenha sido posteriormente convertida, reduzida ou modificada após recursos.

A maior parte das denúncias esteve relacionada justamente ao artigo 258 do CBJD e a episódios envolvendo reclamações, gestos ou atitudes direcionadas à arbitragem.

O dado não determina antecipadamente qualquer punição no processo atual. Cada caso precisa ser julgado de acordo com suas próprias circunstâncias.

Mas ajuda a explicar por que uma nova denúncia envolvendo Abel recebe atenção diferente de um episódio completamente isolado.

Em abril, punição pesada foi mantida pelo STJD

Há ainda um precedente bastante recente.

Em abril de 2026, Abel Ferreira respondeu no STJD por episódios ocorridos em jogos contra São Paulo e Fluminense pelo Campeonato Brasileiro.

Em um dos processos, o treinador recebeu seis partidas de suspensão por desrespeito à arbitragem.

O Palmeiras recorreu.

No julgamento do recurso, porém, o Pleno do STJD decidiu manter as seis partidas de suspensão.

Em outro processo analisado naquele período, Abel havia recebido duas partidas. Após recurso, a punição foi reduzida para um jogo.

Somadas as decisões finais dos dois processos, o treinador ficou com sete partidas de suspensão.

Durante a análise de um dos casos, integrantes do tribunal demonstraram preocupação não apenas com o episódio individual, mas também com a repetição de comportamentos atribuídos ao técnico.

Esse histórico deverá inevitavelmente aparecer no ambiente do novo julgamento, ainda que juridicamente a nova denúncia precise ser analisada de forma independente.

Palmeiras estaria incomodado nos bastidores

A sucessão de episódios começa a produzir também uma discussão dentro do próprio Palmeiras.

Segundo informação divulgada pelo jornalista Paulo Vinícius Coelho, o clube está incomodado com determinados comportamentos de Abel Ferreira à beira do campo.

O departamento jurídico também teria demonstrado preocupação, principalmente porque novas ocorrências acabam levando o treinador novamente ao STJD e criando problemas esportivos para o próprio Palmeiras.

Ainda de acordo com a informação, o assunto já teria sido tratado internamente com Abel em outras ocasiões e voltou a ser discutido depois do episódio contra o Mirassol.

Publicamente, entretanto, a tendência do Palmeiras é defender seu treinador.

A postura faz sentido também do ponto de vista jurídico.

Uma crítica pública antes do julgamento poderia fornecer argumentos adicionais para a acusação e enfraquecer a estratégia de defesa do clube.

Há, portanto, duas posições que podem coexistir: externamente, o Palmeiras protege Abel; internamente, pode cobrar mudança de comportamento.

Números mostram que o problema é recorrente

Os 101 cartões acumulados por Abel ajudam a dimensionar a situação.

São 87 amarelos e 14 vermelhos desde sua chegada ao clube.

Abel nunca escondeu que se transforma emocionalmente durante as partidas.

Em declarações anteriores, o próprio treinador reconheceu que, ao rever determinados comportamentos depois dos jogos, já sentiu vergonha das próprias atitudes.

Isso não diminui seu tamanho esportivo.

Pelo contrário.

Abel se tornou um dos treinadores mais vitoriosos da história do Palmeiras e construiu uma era extremamente relevante no futebol brasileiro.

O ponto de discussão é justamente outro: até que ponto um treinador dessa dimensão pode continuar acumulando episódios disciplinares que eventualmente retiram o próprio comandante do banco?

Nova punição pode atingir momento decisivo do Palmeiras

O momento do calendário torna a denúncia ainda mais relevante.

Após 25 partidas no Campeonato Brasileiro, o Palmeiras lidera com 52 pontos.

O Flamengo aparece logo atrás, com 48 pontos em 24 jogos.

Nesta quarta-feira, o Rubro-Negro enfrenta o Mirassol no Maracanã em partida atrasada.

Se vencer, chega aos 51 pontos e reduz para apenas um ponto a distância para o líder.

A briga pelo título, portanto, voltou a ficar extremamente apertada.

Nesse cenário, qualquer eventual suspensão de Abel pode produzir consequências esportivas importantes, dependendo da data do julgamento e das partidas atingidas por uma eventual pena.

Não significa que a ausência do treinador determine resultados.

Mas perder o comandante em uma sequência decisiva do Campeonato Brasileiro evidentemente não é indiferente para uma equipe que disputa ponto a ponto a liderança.

Palmeiras também divide atenção entre competições

O Brasileirão não é o único compromisso importante do clube paulista.

O Palmeiras atravessa também fases decisivas de competições eliminatórias e precisa administrar elenco, desgaste e planejamento em várias frentes.

Uma eventual suspensão aplicada pelo STJD atingiria competições nacionais, enquanto processos disciplinares da Conmebol seguem outra jurisdição.

Esse detalhe é importante porque Abel também já se envolveu em situações disciplinares em competições sul-americanas.

Recentemente, a Conmebol aplicou multa ao treinador por outro episódio envolvendo um microfone, desta vez em partida da Libertadores.

São processos diferentes e não devem ser misturados juridicamente.

No entanto, a proximidade entre os acontecimentos reforça a discussão sobre o comportamento do treinador à beira do campo.

O STJD está “reapitando” a partida?

A denúncia também provocou discussão sobre até onde deve ir a atuação da Justiça Desportiva quando uma infração não é punida pela arbitragem durante o jogo.

Há quem veja esse tipo de processo como uma tentativa de “reapitar” a partida depois de seu encerramento.

Mas são questões distintas.

O tribunal não está alterando o placar de Mirassol x Palmeiras nem substituindo uma decisão técnica da arbitragem sobre uma falta ou um pênalti.

O que será analisado é uma possível infração disciplinar registrada por imagens e que pode se enquadrar no Código Brasileiro de Justiça Desportiva.

A própria denúncia dos integrantes da arbitragem mostra que existe uma segunda questão a ser apurada: se a conduta justificava uma medida disciplinar mais grave, por que ela não foi adotada durante a partida?

É justamente essa combinação que transforma o processo em algo mais amplo do que apenas o julgamento de Abel Ferreira.

Agora, decisão estará nas mãos do tribunal

A denúncia não significa condenação.

Abel terá direito à defesa, e o Palmeiras poderá apresentar seus argumentos antes de qualquer decisão.

A comissão responsável pelo processo precisará avaliar as imagens, a denúncia da Procuradoria, o contexto do episódio e a defesa do treinador.

A pena prevista pelo artigo utilizado varia de uma a seis partidas, mas o resultado só será conhecido depois do julgamento.

Até lá, Abel segue normalmente no comando do Palmeiras.

O problema para o clube é que, em uma temporada marcada por uma disputa apertada contra o Flamengo, qualquer nova suspensão do treinador pode deixar de ser apenas uma questão disciplinar e passar a produzir efeito direto dentro de campo.