O Flamengo entrou em um Maracanã em festa, venceu o Mirassol por 2 a 0 e transformou o famoso jogo atrasado em três pontos que realmente fazem diferença. Carrascal marcou, Lucas Paquetá ampliou e o Rubro-Negro chegou aos 51 pontos, apenas um atrás do Palmeiras.

Durante semanas, falou-se muito sobre o “asterisco” na classificação. O Flamengo aparecia atrás do líder, mas tinha uma partida a menos. Essa vantagem teórica, porém, só teria algum valor se fosse confirmada dentro de campo.

Foi exatamente o que aconteceu.

O time cumpriu sua obrigação, igualou o número de partidas do Palmeiras e entrou definitivamente na disputa pela liderança. Não existe mais conta pendente, projeção ou ponto imaginário. A distância real é de apenas um ponto.

A vitória foi importante, a atuação teve bons momentos e o objetivo da noite foi alcançado. Mas o resultado não deve esconder uma preocupação que acompanha o Flamengo há algum tempo: o time continua desaparecendo em determinados períodos das partidas.

O Flamengo fez a sua parte

O primeiro tempo mostrou a diferença técnica entre as equipes. O Flamengo assumiu o controle, movimentou a bola com velocidade e construiu a vantagem sem precisar transformar o jogo em sofrimento.

Carrascal participou diretamente dos dois gols. Primeiro, apareceu para abrir o placar. Depois, deu a assistência para Paquetá marcar de cabeça. A escolha de Leonardo Jardim de iniciar com Paquetá e deixar Arrascaeta no banco também produziu uma resposta dentro de campo.

O Flamengo finalizou 13 vezes antes do intervalo e apenas uma durante toda a segunda etapa. Essa diferença ajuda a contar a história do jogo.

Depois de construir o placar, o time diminuiu o ritmo, recuou e permitiu que o Mirassol tivesse mais presença no campo ofensivo. A vantagem não chegou a ficar seriamente ameaçada, em parte porque o adversário possui limitações técnicas e encontrou Rossi quando conseguiu criar sua melhor oportunidade.

Contra o Mirassol, foi suficiente. Contra equipes mais fortes, talvez não seja.

O apagão do Flamengo deixou de ser ocasional

Nenhuma equipe mantém a mesma intensidade durante 90 minutos. Isso seria uma exigência irreal. O problema do Flamengo não é simplesmente correr menos ou administrar uma vantagem.

Administrar é controlar o jogo mesmo sem atacar permanentemente. É circular a bola, diminuir o ritmo conscientemente, impedir o adversário de crescer e saber onde a partida está sendo disputada.

O Flamengo, em vários momentos, não administra: perde o controle.

O time entrega a bola, recua excessivamente e demora para recuperar sua organização. Não parece uma escolha completamente consciente. Os jogadores se afastam, o meio-campo deixa de controlar o espaço e o adversário passa a acreditar no jogo.

Esse comportamento não apareceu apenas diante do Mirassol. Tornou-se uma característica recorrente da equipe. O próprio Leonardo Jardim já reconheceu, em diferentes momentos da temporada, que o Flamengo perde organização e domínio durante as partidas.

Se o treinador afasta a explicação física, a questão se torna ainda mais importante. Por que um elenco tão qualificado se desliga com tanta frequência? Por que uma equipe capaz de dominar completamente um período do jogo não consegue controlar o período seguinte?

É essa resposta que o Flamengo precisa encontrar.

Samuel Lino deixa uma imagem que merece atenção

Outro episódio chamou atenção no Maracanã. Ao ser substituído, Samuel Lino demonstrou irritação e falou de maneira contundente na saída do campo.

As imagens não permitem afirmar com segurança se as palavras foram dirigidas a Leonardo Jardim, a outra pessoa no banco ou simplesmente representaram um desabafo do jogador. Portanto, qualquer acusação definitiva seria irresponsável.

Mas a cena não deve ser completamente ignorada.

Samuel Lino não possui histórico conhecido de indisciplina. Justamente por isso, sua reação merece ser compreendida internamente. Um jogador pode não gostar de ser substituído — na realidade, é até esperado que atletas competitivos queiram permanecer em campo. O limite está na maneira como essa insatisfação é demonstrada e resolvida.

Outros sinais de desconforto com decisões técnicas já apareceram durante a temporada. Houve reclamações de jogadores substituídos e declarações públicas sobre o modelo de jogo. Reportagens também apontaram uma diferença de ideias, embora não um problema de relacionamento, entre o elenco e Leonardo Jardim.

Uma divergência tática não significa que o vestiário esteja rompido. Entretanto, quando pequenas manifestações começam a se repetir, treinador, direção e líderes do grupo precisam agir antes que uma insatisfação administrável se transforme em desgaste.

Este elenco não foi montado para esperar o adversário

O Flamengo possui jogadores tecnicamente superiores à maioria dos adversários brasileiros. É um elenco construído para controlar a bola, ocupar o campo ofensivo e propor o jogo.

Quando abre mão dessas características e passa a esperar excessivamente, a equipe perde referências. Não se transforma automaticamente em um grande time reativo; apenas deixa de fazer aquilo que executa melhor.

Leonardo Jardim tem direito de acrescentar novas alternativas. Um time campeão não pode depender de uma única maneira de jogar. O problema surge quando a tentativa de oferecer outra identidade retira da equipe sua principal força.

Não é hora de treinador e jogadores disputarem quem está certo. É hora de construir um ponto de equilíbrio.

Jardim não precisa abandonar suas convicções, assim como o elenco não pode decidir sozinho como pretende atuar. Mas o modelo escolhido precisa aproveitar as qualidades disponíveis. Treinador bom não é apenas aquele que aplica suas ideias: é aquele que encontra a melhor forma de aplicá-las aos jogadores que possui.

Na altitude, um apagão pode custar a Libertadores

O próximo compromisso será contra o Remo, fora de casa. Depois, o Flamengo terá o Independiente del Valle, no Equador, pelas quartas de final da Libertadores.

Em Quito, na altitude, qualquer período de desorganização pode produzir consequências muito maiores. O Independiente del Valle conhece seu campo, sabe acelerar quando o adversário perde intensidade e está acostumado às condições que normalmente desgastam os visitantes.

Se o Flamengo entregar a bola e recuar sem controle, como vem fazendo em determinados momentos, poderá transformar poucos minutos ruins em uma desvantagem difícil de recuperar.

No Campeonato Brasileiro ainda existe tempo para corrigir um tropeço. Em um confronto eliminatório, um apagão pode comprometer toda a temporada.