Levantamento e pesquisa: Fla Opina Altitude em Quito: o adversário invisível do Flamengo
Em levantamento exclusivo, o Fla Opina reuniu estudos, dados fisiológicos e relatos de jogadores para entender o que realmente acontece com o corpo de um atleta quando ele precisa atuar a quase 2.800 metros de altitude.
“Puxa e o ar não vem.”
A frase foi de Pedro depois de enfrentar a LDU, em abril de 2025, e talvez seja uma das descrições mais simples do que um jogador acostumado ao nível do mar sente quando precisa disputar uma partida de futebol em Quito.
Naquela noite, o Flamengo encarou aproximadamente 2.850 metros de altitude. Bruno Henrique chegou a recorrer a oxigênio, enquanto outros atletas relataram desgaste acima do habitual.
Agora, o problema volta ao caminho rubro-negro.
Nesta quinta-feira, 10 de setembro, o Flamengo enfrenta o Independiente del Valle no Estádio Olímpico Atahualpa, em Quito, pelo jogo de ida das quartas de final da Libertadores. A Conmebol confirmou o confronto para 21h30 de Brasília.
Mas afinal, o que realmente acontece com um jogador quando ele sai de uma região próxima ao nível do mar e precisa correr durante 90 minutos a quase 2.800 metros de altitude?
O Fla Opina foi buscar a resposta em estudos científicos e em relatos de quem já viveu essa experiência.
O oxigênio continua no ar. O problema é a pressão
Existe uma explicação importante antes de qualquer coisa.
Não é correto dizer simplesmente que “há menos oxigênio” na composição do ar. A proporção de oxigênio permanece próxima de 21%.
O que diminui com a altitude é a pressão atmosférica e, consequentemente, a pressão parcial do oxigênio.
Na prática, a cada inspiração o organismo recebe menos moléculas de oxigênio disponíveis para serem transportadas até músculos e tecidos.
Em uma atividade comum isso pode passar quase despercebido.
No futebol profissional, porém, o cenário muda completamente.
Um jogador precisa correr, acelerar, desacelerar, pressionar, disputar a bola e recuperar-se rapidamente para repetir o esforço poucos segundos depois.
Estudos sobre futebol em altitude mostram redução da capacidade aeróbica e maior dificuldade de recuperação entre esforços de alta intensidade.
É justamente aí que nasce aquela sensação relatada por Pedro.
O atleta respira.
Aumenta a frequência respiratória.
Mas sente que a recuperação demora mais.
Um estudo feito exatamente em Quito
Há um dado especialmente interessante para este confronto.
Um estudo publicado em março de 2026 pela Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, da USP, acompanhou 20 jogadores brasileiros sub-20 durante 16 dias de permanência em Quito, a 2.683 metros de altitude.
Antes da viagem, ao nível do mar, a saturação média de oxigênio dos atletas era de 98,2%.
No primeiro dia em Quito caiu para 94,65%.
No oitavo dia subiu para 95,50%.
No 16º dia chegou a 95,67%.
Ou seja: houve adaptação, mas mesmo depois de mais de duas semanas os jogadores ainda não haviam retornado aos valores registrados ao nível do mar.
É importante fazer uma ressalva: o estudo analisou atletas sub-20, e respostas individuais podem variar bastante.
Ainda assim, ele oferece uma fotografia muito clara de como o organismo reage à exposição prolongada exatamente na região onde o Flamengo jogará.
Flamengo chegou antes, mas aclimatação completa demora
O Flamengo deixou Belém nesta segunda-feira e seguiu diretamente para Quito, onde continuará a preparação para a partida.
A decisão oferece ao elenco alguns dias de contato com a altitude antes de entrar em campo.
Mas três dias não transformam um atleta acostumado ao nível do mar em jogador completamente aclimatado.
A literatura esportiva aponta que, em altitudes entre 2.000 e 3.000 metros, um processo mais significativo de aclimatação pode exigir uma ou duas semanas, embora haja grande diferença individual entre atletas.
Portanto, o objetivo da comissão de Leonardo Jardim não é eliminar a altitude.
Isso é impossível.
É reduzir seu impacto.
Por que o Del Valle tem vantagem?
O Independiente del Valle vive outra realidade.
O clube treina e disputa regularmente suas partidas na região de Sangolquí, na área metropolitana de Quito. Seu estádio e seu centro esportivo fazem parte do ambiente andino onde os jogadores trabalham diariamente.
Isso significa que seu organismo não está enfrentando uma exposição repentina.
A diferença pode aparecer principalmente na repetição de esforços.
Um jogador visitante pode conseguir fazer um sprint normalmente.
O problema vem depois.
Quanto tempo ele leva para recuperar?
Consegue repetir outra corrida intensa?
Mantém o mesmo nível de pressão aos 70 ou 80 minutos?
É nesse ponto que a altitude pode deixar de ser apenas uma curiosidade geográfica e virar ferramenta esportiva para o mandante.
Até a bola muda
O efeito não está somente no corpo.
A menor densidade do ar também reduz a resistência aerodinâmica sobre a bola.
Isso pode alterar sua trajetória, principalmente em lançamentos, cobranças, cruzamentos e finalizações de média e longa distância.
Para quem treina diariamente nessas condições, a adaptação acontece naturalmente.
Para quem chega de fora, detalhes simples podem exigir ajuste.
Em 2025, quando enfrentou a LDU em Quito, Filipe Luís explicou que o Flamengo adotou um plano com passes mais curtos e procurou controlar o ritmo da partida justamente para evitar transformar o jogo numa sucessão de corridas.
A estratégia funcionou fisicamente: o Flamengo conseguiu empatar por 0 a 0 e controlou boa parte do confronto, embora Bruno Henrique tenha precisado de oxigênio.
A altitude não joga sozinha
Existe também um cuidado importante.
Colocar todo o favoritismo do Independiente del Valle na altitude seria injusto.
A própria Conmebol destaca que o clube equatoriano chega às quartas numa sequência de cinco vitórias consecutivas como mandante na Libertadores e possui um dos maiores índices de gols esperados da competição.
Há futebol, organização e qualidade.
A altitude acrescenta uma vantagem ambiental.
Não substitui o time.
Para o Flamengo, portanto, a missão é dupla: enfrentar um adversário forte e administrar uma condição física que não pode ser reproduzida completamente no Rio de Janeiro.




