Arbitragem brasileira: falta de critério virou rotina
Mais uma rodada do Campeonato Brasileiro terminou e, mais uma vez, a arbitragem ganhou espaço nas discussões.
Palmeiras, Fluminense, Corinthians, Santos, Flamengo e Botafogo estiveram envolvidos em partidas com lances que provocaram reclamações, revisões do VAR ou debates depois do apito final.
O problema não está necessariamente em afirmar que todos os árbitros erraram.
Nem toda reclamação de jogador, treinador ou dirigente significa que houve erro.
A questão é outra.
Por que o futebol brasileiro termina tantas rodadas discutindo arbitragem?
Na 25ª rodada do Brasileirão, especialistas consultados pelo UOL chegaram a conclusões diferentes sobre alguns dos principais lances. Em Mirassol x Palmeiras, por exemplo, quatro ex-árbitros ficaram divididos sobre um pênalti inicialmente marcado e posteriormente retirado depois da intervenção do VAR.
Em Athletico-PR x Fluminense, outro pênalti provocou contestação pública do presidente do clube carioca.
Abel Ferreira também voltou a criticar duramente a arbitragem após o empate do Palmeiras com o Mirassol e pediu que os melhores árbitros disponíveis sejam utilizados nas partidas decisivas do campeonato.
Os episódios mudam.
A discussão permanece.
O problema não nasceu nesta rodada
Seria simplista atribuir a crise de confiança na arbitragem brasileira aos acontecimentos de um único fim de semana.
As reclamações se repetem há anos e envolvem praticamente todos os grandes clubes.
Uma semana determinada equipe se considera prejudicada.
Na seguinte, é o adversário.
Trocam os clubes, os árbitros e os estádios, mas permanece uma sensação difícil de eliminar: lances semelhantes nem sempre recebem interpretações semelhantes.
É justamente aí que está uma das maiores fragilidades da arbitragem brasileira.
Não é necessário que todos concordem com todas as decisões. Futebol envolve interpretação e sempre haverá situações discutíveis.
Mas o campeonato precisa oferecer uma percepção mínima de padrão.
Quando nem especialistas em arbitragem conseguem chegar frequentemente às mesmas conclusões diante das mesmas imagens, é natural que jogadores, treinadores e torcedores questionem qual critério está sendo utilizado.
O VAR não acabou com a discussão
A implementação do árbitro de vídeo prometia reduzir os erros claros.
E certamente corrigiu inúmeros.
Mas o VAR também criou um novo problema no futebol brasileiro: a expectativa de que qualquer lance interpretativo pudesse ser solucionado de forma objetiva com uma câmera.
Não pode.
Existem situações objetivas, como impedimentos determinados pela tecnologia.
Outras continuam dependendo de interpretação humana.
O problema surge quando o VAR passa a interferir em situações interpretativas sem que o público consiga identificar com clareza qual é o padrão utilizado para essa intervenção.
A discussão sobre o próprio funcionamento do VAR não é exclusivamente brasileira. Em agosto, quando a tecnologia completou dez anos de utilização, o debate internacional voltou justamente à questão de sua função original: corrigir erros claros e óbvios, e não rearbitrar permanentemente as partidas.
Arthur Cabral: um lance que o Fla Opina avaliou
No clássico entre Flamengo e Botafogo, Arthur Cabral chegou a marcar para o Botafogo, mas o gol foi anulado por toque de mão.
Nesse caso específico, o Fla Opina analisou o lance.
Nossa interpretação é de que a decisão de anular o gol foi correta.
As imagens mostram o contato da bola com o braço e, principalmente, um movimento do atacante utilizando o braço para conduzir e trazer a bola para seu domínio antes da conclusão da jogada.
Curiosamente, até nesse lance houve divergência entre ex-árbitros consultados pelo UOL: três concordaram com a anulação e um considerou o contato acidental.
Esse exemplo ajuda a mostrar a dimensão do problema.
Se até profissionais especializados conseguem interpretar de maneiras diferentes determinadas situações, a necessidade de critérios mais claros se torna ainda maior.
Transparência precisa acompanhar a tecnologia
A divulgação dos áudios do VAR representou um avanço.
Mas ainda existe espaço para muito mais transparência.
O futebol brasileiro precisa explicar melhor por que determinado lance exige intervenção e outro, aparentemente parecido, permanece com a decisão tomada no campo.
Também precisa proteger os árbitros.
Um sistema sem critérios suficientemente claros coloca toda a pressão sobre quem está com o apito.
O resultado é um ambiente em que praticamente qualquer decisão importante produz acusações, notas oficiais e discursos inflamados depois das partidas.
O árbitro passa a entrar em campo já sob suspeita.
Isso é ruim para todos.




