Antes de Flamengo e Mirassol entrarem em campo no Maracanã, uma imagem de Arrascaeta chamou atenção por um motivo que não tinha relação direta com bola, chuteira ou aquecimento.
O uruguaio chegou ao estádio utilizando um par de óculos que emitia uma luz esverdeada em direção aos olhos.
O acessório não era estético.
Trata-se de um dispositivo chamado Circádia, desenvolvido pela AVA, pensado para interferir na sinalização luminosa recebida pelo organismo e ajudar na regulação entre sono e estado de alerta. Segundo as informações divulgadas sobre o produto, o objetivo no caso de atletas é justamente combater uma característica natural do corpo humano: à noite, o organismo tende progressivamente a se preparar para descansar.
Para um jogador que precisa atingir pico de concentração e desempenho às 21h, essa lógica biológica pode entrar em conflito com o horário da competição.
O que a luz faz no organismo
A explicação passa pelo chamado ritmo circadiano, o sistema biológico que ajuda a organizar, aproximadamente a cada 24 horas, funções como sono, vigília, temperatura corporal e liberação de hormônios.
A luz é um dos sinais mais importantes utilizados pelo cérebro para ajustar esse relógio interno.
Na retina existem células sensíveis à luz que contêm melanopsina, um fotopigmento particularmente responsivo a comprimentos de onda próximos de 480 nanômetros. Essas células participam de mecanismos ligados à percepção de claro e escuro, ao ciclo de sono e vigília e ao estado de alerta.
É justamente nessa faixa que trabalha o dispositivo utilizado por Arrascaeta.
Segundo os responsáveis pela tecnologia, os óculos emitem luz na região de 480 nanômetros durante alguns minutos, buscando estimular essas vias e ajudar o corpo a permanecer mais desperto em horários nos quais naturalmente começaria a reduzir o nível de ativação.
Ciência por trás da ideia existe, mas exige cuidado
Há fundamento científico para afirmar que a exposição à luz pode influenciar o sistema circadiano e o nível de alerta.
Estudos em humanos mostram que comprimentos de onda mais curtos, próximos da região de maior sensibilidade da melanopsina, podem alterar sonolência, atenção e respostas fisiológicas. Pesquisas também encontraram melhora do estado de alerta em determinadas condições de exposição luminosa.
Isso, porém, não significa que seja possível afirmar automaticamente que um jogador correrá mais, decidirá melhor ou jogará melhor simplesmente por utilizar os óculos.
A resposta à luz depende de fatores como intensidade, duração da exposição, horário do dia e características individuais. Estudos científicos inclusive apresentam resultados diferentes quando analisam determinadas respostas hormonais, como o cortisol, dependendo do protocolo utilizado.
Portanto, existe uma diferença importante entre dizer que a luz pode influenciar o estado de alerta e afirmar que aquele dispositivo específico oferece ganho comprovado de desempenho esportivo.
Até o momento, as fontes consultadas não apresentam um estudo independente demonstrando aumento objetivo de performance em jogadores de futebol por causa do Circádia.
Essa distinção é importante.
Por que isso interessa ao futebol
O futebol profissional mudou muito na forma como trata recuperação, sono e preparação.
Durante décadas, a discussão esteve quase sempre concentrada em treinamento físico, alimentação e fisioterapia.
Hoje, clubes de alto rendimento acompanham cada vez mais variáveis relacionadas ao descanso, ao horário das refeições, à exposição à luz, à qualidade do sono e ao relógio biológico dos atletas.
E o calendário brasileiro cria um desafio particular.
É comum que partidas importantes terminem perto das 23h. Depois ainda existem banho, entrevistas, alimentação, deslocamento e, em algumas situações, viagem.
O jogador precisa chegar ao estádio à noite completamente desperto e competitivo justamente no período em que o corpo de uma pessoa com rotina convencional começaria a reduzir o estado de vigília.
Ao mesmo tempo, depois da partida, esse mesmo atleta precisa conseguir desacelerar e dormir.
É uma equação complicada.
Por isso, tecnologias relacionadas ao sono e ao ritmo circadiano passaram a ganhar espaço no esporte de alto nível.
Dispositivo custa cerca de R$ 1.200
Segundo informações publicadas pelo ge e pelo UOL, o equipamento utilizado por Arrascaeta custa aproximadamente R$ 1.200 e deve ser usado por poucos minutos.
O produto foi desenvolvido pelo engenheiro Rodrigo Santana, profissional que também já trabalhou com Cristiano Ronaldo.
O uso mais convencional da tecnologia é associado ao período após acordar, justamente quando a exposição à luz pode ajudar na sinalização de vigília.
No caso de Arrascaeta, porém, o dispositivo apareceu antes de uma partida noturna, dentro de uma lógica de preparação para manter elevado o estado de alerta no horário do jogo.
O Flamengo venceu o Mirassol por 2 a 0 naquela noite, mas seria incorreto estabelecer qualquer relação direta entre o resultado e o uso do equipamento.
A história relevante é outra.
Ela mostra até onde chegou a busca por pequenos ganhos no futebol profissional.
O detalhe que revela um futebol cada vez mais científico
Talvez o mais interessante na imagem de Arrascaeta seja perceber que um detalhe aparentemente estranho na chegada ao estádio representa uma mudança muito maior na preparação dos jogadores.
Hoje, desempenho não começa quando o atleta pisa no gramado.
Pode começar horas antes, com aquilo que come, quando dorme, quanto dorme, como viaja e até com o tipo de luz que chega aos seus olhos.
No alto rendimento, clubes e atletas procuram vantagens em margens cada vez menores.
Nenhuma tecnologia substitui talento, treinamento ou condição física.
Mas quando dois jogadores de nível semelhante se enfrentam, pequenos fatores de preparação podem ganhar importância.
E foi justamente um desses detalhes que apareceu no rosto de Arrascaeta no Maracanã.




