O Flamengo venceu o Mirassol por 2 a 0, aproximou-se do Palmeiras e fez praticamente tudo o que precisava fazer naquela noite no Maracanã.
O problema é que, no Flamengo, fazer apenas o necessário raramente encerra uma discussão.
O primeiro tempo foi de um candidato ao título. O segundo produziu uma pergunta.
Foram 13 finalizações do Flamengo antes do intervalo. Depois dele, apenas uma. Do outro lado, o Mirassol, que praticamente não havia ameaçado nos primeiros 45 minutos, terminou a segunda etapa com sete finalizações contra uma do Rubro-Negro.
O placar não mudou.
Rossi não passou por um bombardeio.
O Flamengo venceu.
Então, afinal, aconteceu alguma coisa errada?
A resposta talvez diga muito sobre aquilo que Leonardo Jardim está tentando construir — e também sobre aquilo que o torcedor do Flamengo espera ver.
Jardim viu controle onde muita gente viu queda
Leonardo Jardim não tentou esconder que o Flamengo poderia ter feito mais ofensivamente no segundo tempo.
Depois da partida, reconheceu que algumas decisões poderiam ter sido melhores na construção de novas situações de ataque. Ao mesmo tempo, destacou outro aspecto: com 2 a 0 no placar, sua equipe conseguiu baixar para um bloco médio e impedir que o Mirassol criasse grandes oportunidades.
Jorginho apresentou leitura semelhante.
O capitão falou em evolução na capacidade de controlar o ritmo, justamente uma característica que havia causado problemas em partidas anteriores.
E aqui começa a discussão interessante.
Porque controlar um jogo não significa necessariamente continuar atacando como se estivesse 0 a 0.
Existem diferentes formas de controle.
É possível controlar pela posse, empurrando o adversário para trás.
É possível controlar territorialmente.
Também é possível entregar alguns metros, diminuir riscos, proteger zonas importantes e obrigar o adversário a circular a bola em regiões que não machucam.
O problema aparece quando controle vira apenas uma palavra elegante para explicar por que o time deixou de jogar.
É essa fronteira que o Flamengo ainda precisa definir.
O placar muda a forma de jogar
Existe uma tendência natural de analisar os 90 minutos como se o contexto permanecesse igual durante toda a partida.
Não permanece.
Um Flamengo empatando em 0 a 0 aos 15 minutos tem uma necessidade.
Um Flamengo vencendo por 2 a 0 aos 60 tem outra.
A vantagem altera risco, posicionamento e até a relação entre esforço e recompensa.
A equipe que está vencendo não precisa necessariamente transformar todos os ataques em corrida de 40 metros ou manter pressão alta em todas as saídas do adversário.
Particularmente numa temporada longa, com Brasileirão e Libertadores se aproximando de momentos decisivos, administrar energia também faz parte do jogo.
Essa é a defesa do pragmatismo.
Só que existe o outro lado.
Quando o Flamengo praticamente abandona sua capacidade ofensiva, o adversário passa a acreditar que pode voltar.
Contra o Mirassol não aconteceu.
Contra equipes mais qualificadas, pode acontecer.
Essa diferença importa.
O problema não é deixar de buscar o 5 a 0
Talvez parte da discussão esteja mal colocada.
O Flamengo não precisava repetir os 5 a 1 do confronto anterior contra o Mirassol.
Também não precisava transformar uma partida praticamente definida numa busca irresponsável por goleada.
O problema não é esse.
A questão é conseguir administrar sem perder completamente a capacidade de ameaçar.
Um time que vence por 2 a 0 pode baixar cinco metros e continuar perigoso.
Pode acelerar apenas quando encontra espaço.
Pode obrigar o adversário a manter jogadores atrás porque sabe que será castigado se avançar demasiadamente.
Quando o Flamengo finaliza uma única vez durante toda uma etapa, essa ameaça diminui.
E quando o adversário percebe isso, ganha coragem.
É justamente aí que a administração pode se transformar em pressão desnecessária.
Há uma diferença entre sofrer e estar ameaçado
Também precisamos abandonar uma ideia comum no futebol brasileiro: se o adversário está com a bola, necessariamente o time está sendo dominado.
Não é verdade.
O Mirassol foi melhor na segunda etapa e finalizou mais. Isso é objetivo.
Mas não significa automaticamente que o Flamengo passou 45 minutos à beira de sofrer o empate.
Leonardo Jardim escolheu defender determinados espaços e aceitou que o adversário tivesse mais iniciativa. O Flamengo continuou sem sofrer gol e conquistou sua segunda vitória consecutiva sem ser vazado, depois do 3 a 0 sobre o Botafogo.
Há mérito nisso.
Um candidato a campeão também precisa saber vencer quando não está produzindo seu melhor futebol.
Aliás, quase nenhum campeão passa 38 rodadas encantando.
Existem jogos de domínio.
Existem jogos de sofrimento.
Existem jogos em que três pontos valem muito mais do que qualquer estatística estética.
O Flamengo precisa aprender a distinguir esses momentos.
O conflito entre expectativa e resultado
Existe ainda uma particularidade que não pode ser ignorada.
Estamos falando do Flamengo.
A cobrança nunca é simplesmente vencer.
O tamanho do investimento, a qualidade do elenco e a própria cultura construída em torno do clube criaram uma expectativa diferente.
O torcedor não olha para Carrascal, Paquetá, Pedro, Arrascaeta, Samuel Lino e companhia e espera apenas sobrevivência.
Espera protagonismo.
Isso não significa exigir goleada todos os domingos.
Significa esperar que o Flamengo não abdique facilmente de sua capacidade de impor o jogo.
E talvez esse seja um dos maiores desafios de Jardim.
O treinador precisa criar um time capaz de ser pragmático sem parecer pequeno.
Precisa ensinar a equipe a defender uma vantagem sem transformar o Maracanã numa espera pelo apito final.
E precisa fazer isso sabendo que, no Flamengo, resultado e maneira de jogar quase nunca são discussões completamente separadas.




