A renovação de Erick Pulgar até o fim de 2029 pode ser resumida em poucas linhas: o Flamengo ampliou o contrato, concedeu uma valorização salarial e aumentou a proteção contra uma possível saída do jogador. Mas o significado da decisão vai muito além das condições do novo vínculo.
O clube escolheu manter um atleta que chegou sem grande entusiasmo da torcida, teve poucas oportunidades em seu primeiro ano e precisou conquistar espaço gradualmente. Quatro anos depois, Pulgar soma 172 partidas, nove títulos e uma importância que já não pode ser medida apenas pelos seus números individuais.
A história do chileno no Flamengo é a de um jogador que passou de contratação contestada a integrante da espinha dorsal do time.
Uma chegada cercada por dúvidas
Pulgar foi contratado em julho de 2022, vindo da Fiorentina. O Flamengo pagou aproximadamente 2,8 milhões de euros, cerca de R$ 15 milhões na cotação daquele período, para adquirir o volante da equipe italiana.
A contratação não despertou o mesmo entusiasmo provocado por outros reforços daquela janela. O chileno chegava depois de perder espaço na Fiorentina e de uma passagem curta pelo Galatasaray, onde havia disputado apenas 11 partidas.
Também encontrou um meio-campo já estabelecido. O Flamengo contava com jogadores identificados com o clube e vivia a reta decisiva de uma temporada que terminaria com os títulos da Copa do Brasil e da Libertadores.
Pulgar estreou em agosto de 2022, diante do Botafogo, entrando durante a partida no lugar de Diego Ribas. Terminou aquela temporada com apenas oito jogos, quatro como titular.
Apesar de ter participado do elenco campeão, ainda não possuía protagonismo. Era uma contratação de baixo custo tentando encontrar espaço num time montado para vencer imediatamente.
A conquista do meio-campo
O cenário começou a mudar em 2023. Com mais oportunidades, Pulgar mostrou características diferentes das apresentadas pelos demais meio-campistas do elenco.
O chileno passou a oferecer proteção à frente dos zagueiros, leitura de posicionamento, força na disputa pelo alto e qualidade para iniciar a construção das jogadas. Não era apenas um marcador. Tornou-se também uma saída segura para a defesa quando o Flamengo precisava superar a primeira pressão adversária.
Pulgar consegue receber a bola dos zagueiros, identificar espaços e acelerar a jogada com passes verticais ou inversões. Quando o time perde a posse, normalmente é um dos primeiros responsáveis por fechar o centro e interromper o contra-ataque.
Esse trabalho nem sempre aparece nas estatísticas mais populares. O volante não depende de gols ou assistências para influenciar uma partida. Sua importância está, muitas vezes, em permitir que os jogadores mais ofensivos recebam a bola em melhores condições.
Foi dessa maneira, com menos brilho individual e maior influência coletiva, que conquistou espaço e se tornou titular.
De 100 jogos ao reconhecimento interno
Em dezembro de 2024, Pulgar atingiu a marca de 100 partidas pelo Flamengo. Naquele momento, já havia deixado de ser uma opção complementar para assumir uma função estratégica no time.
Sua importância ficou evidente também nas avaliações internas. Filipe Luís, então responsável pela equipe, chegou a definir o chileno como jogador de “nível Barcelona”, numa demonstração pública de confiança em sua capacidade técnica.
O elogio não estava relacionado apenas à marcação. Pulgar havia se tornado uma das referências do Flamengo na leitura do jogo, no posicionamento defensivo e na qualidade do primeiro passe.
Paralelamente, sua situação contratual começava a provocar preocupação. Mesmo titular, o volante estava entre os jogadores menos valorizados financeiramente no meio-campo rubro-negro.
Em março de 2025, o Flamengo renovou seu contrato até dezembro de 2027. O acordo resolveu temporariamente a possibilidade de uma saída, mas a redução posterior da multa rescisória voltou a colocar o futuro do atleta em discussão.
Nove títulos e uma trajetória vencedora
Pulgar construiu sua história no Flamengo durante um dos períodos mais vencedores do clube. O chileno soma nove títulos desde sua chegada:
Libertadores de 2022 e 2025; Copa do Brasil de 2022 e 2024; Campeonato Brasileiro de 2025; Campeonato Carioca de 2024, 2025 e 2026; Supercopa do Brasil de 2025.
Nem todas essas conquistas tiveram o mesmo grau de participação do volante. Em 2022, por exemplo, Pulgar ainda buscava espaço. Nos anos seguintes, porém, passou a exercer um papel cada vez mais relevante.
A evolução também aparece nos números. Em quatro anos, disputou 172 partidas pelo clube, com 107 vitórias, 39 empates e 26 derrotas. Marcou seis gols e distribuiu nove assistências.
Em 2026, aos 32 anos, alcançou sua temporada mais artilheira pelo Flamengo, com três gols. Dois foram marcados contra o Vitória, um em cada turno do Campeonato Brasileiro.
Os números ofensivos não são elevados, mas representam uma evolução para um jogador cuja principal responsabilidade está longe da área adversária.
Por que Pulgar é tão difícil de substituir?
O Flamengo possui diferentes opções para o meio-campo, mas isso não significa que tenha outro jogador com exatamente as mesmas características.
Pulgar reúne altura, capacidade de combate, bom posicionamento e qualidade na saída de bola. Pode proteger a defesa sem obrigar a equipe a abrir mão da construção técnica desde o campo defensivo.
Um volante exclusivamente marcador poderia oferecer força física, mas talvez reduzisse a qualidade do passe. Um meio-campista mais criativo poderia melhorar a circulação da bola, mas deixaria a defesa mais exposta. Pulgar consegue entregar parte importante dessas duas funções.
Essa combinação explica por que encontrar um substituto seria caro e arriscado. O Flamengo teria de procurar um jogador experiente, tecnicamente preparado, capaz de suportar a pressão do clube e disponível para adaptação imediata ao futebol brasileiro.
Mesmo que encontrasse esse nome, provavelmente pagaria muito mais do que os cerca de 2,8 milhões de euros investidos na contratação do chileno em 2022.
Manter Pulgar, portanto, não significa apenas conservar um titular. Também evita a criação de uma necessidade cara numa posição fundamental.
A idade não elimina sua importância
O novo contrato vai até dezembro de 2029. Pulgar terá 35 anos quando o vínculo terminar, uma idade que naturalmente exige atenção do departamento de futebol.
Entretanto, o estilo do chileno não depende principalmente de velocidade ou explosão. Seu jogo está baseado em posicionamento, antecipação, força, leitura dos espaços e qualidade no passe. São características que podem permitir uma carreira mais longa em alto nível, desde que o jogador preserve a condição física.
Isso não elimina a necessidade de o Flamengo preparar um sucessor. A renovação oferece justamente esse tempo. O clube poderá desenvolver uma alternativa ou observar o mercado sem a obrigação de encontrar uma reposição às pressas.
Perder Pulgar agora, por uma multa baixa ou por falta de valorização, obrigaria a diretoria a resolver imediatamente um problema que já estava solucionado dentro do elenco.




