O Flamengo, na gestão de Luiz Eduardo Baptista, o BAP, começa a repetir situações que levantam uma dúvida cada vez mais difícil de ignorar: até que ponto presidente e diretor de futebol realmente caminham na mesma direção?

Quando José Boto chegou ao Flamengo, a promessa era de autonomia. O próprio dirigente afirmou ter recebido carta branca, e nos primeiros meses da gestão o cenário apresentado era justamente esse: o português comandaria o futebol, enquanto BAP evitaria interferências diretas nas decisões do departamento.

Só que a teoria começou a encontrar problemas na prática.

O primeiro grande episódio aconteceu com Mikey Johnston, atacante irlandês do West Bromwich. O Flamengo tinha a negociação encaminhada, o jogador já tinha viagem marcada para o Rio de Janeiro e custaria cerca de 5 milhões de libras. A contratação, porém, teve enorme repercussão negativa entre torcedores e também encontrou resistência dentro do próprio clube. BAP entrou em cena e vetou o negócio.

A situação criou um desgaste evidente.

Segundo o ge, José Boto ficou bastante incomodado porque a negociação havia recebido sinal verde antes de ser interrompida pelo presidente. O desconforto chegou ao ponto de o dirigente português cogitar deixar o cargo. Depois, BAP e Boto conversaram, o presidente afirmou que estava “tudo sob controle” e o assunto aparentemente foi superado.

Mas será que foi mesmo?

Pouco mais de um ano depois, encontramos uma situação com semelhanças perigosas.

Agora o nome é Luiz Henrique.

O ge publicou que José Boto teria costurado uma operação de 30 milhões de euros fixos mais 5 milhões de euros em bônus, chegando a um total potencial de 35 milhões de euros. Segundo a reportagem, BAP teria travado o avanço e reafirmado que o limite financeiro do Flamengo estaria entre 20 e 25 milhões de euros.

É preciso fazer uma ressalva fundamental: esses valores são fruto de apuração jornalística, não números oficialmente reconhecidos pelo Flamengo.

Depois da publicação, o próprio clube procurou o ge, negou ter apresentado uma proposta nesses valores, confirmou apenas que houve conversas com o Zenit e afirmou que as cifras discutidas não ultrapassaram 25 milhões de euros. O ge, por sua vez, decidiu manter a própria apuração.

E existe ainda outra versão.

Rodrigo Mattos, do UOL, publicou que Flamengo e Zenit inicialmente conversavam em torno de 25 milhões de euros e que teria sido o clube russo quem posteriormente elevou a pedida para 35 milhões.

Ou seja: ninguém de fora daquela mesa de negociação pode afirmar com absoluta certeza qual foi exatamente a proposta, qual foi a pedida inicial e até onde José Boto recebeu autorização para avançar.

Mas uma coisa começa a ficar difícil de esconder: há ruído.

E é justamente isso que chama atenção.

Não estou discutindo aqui se BAP fez certo ou errado ao vetar Mikey Johnston. Naquela ocasião, inclusive, eu considerei compreensível que o presidente exercesse sua autoridade diante de uma contratação que havia provocado enorme rejeição e questionamentos internos.

Também não estou dizendo que BAP deveria simplesmente abrir o cofre e pagar qualquer valor por Luiz Henrique.

Presidente existe para definir orçamento. Diretor de futebol existe para trabalhar dentro desse orçamento.

O problema começa quando não parece estar claro onde termina a autonomia de um e começa a autoridade do outro.

Quando José Boto foi contratado, vendeu-se a ideia de um departamento de futebol profissionalizado, protegido de interferências políticas e comandado por um executivo com poder de decisão.

Mas autonomia não pode existir apenas quando presidente e diretor concordam.

No caso de Mikey Johnston, Boto avançou e BAP colocou o pé no freio.

Agora, segundo a versão publicada pelo ge, algo semelhante teria acontecido novamente na negociação por Luiz Henrique.

O Flamengo contesta essa versão? Perfeito. Está no seu direito.

O ge mantém a informação? Também assume a responsabilidade pela própria apuração.

O que o torcedor observa do lado de fora, porém, é uma sucessão de episódios em que BAP e José Boto aparecem em posições diferentes justamente em momentos importantes do planejamento do futebol.

E isso deveria preocupar.

Porque dois homens podem discordar. Isso acontece em qualquer empresa, em qualquer clube e em qualquer gestão.

O problema é quando a divergência deixa de ser exceção e começa a parecer método.

É como dois carros entrando na mesma estrada em sentidos contrários. Talvez consigam desviar uma vez. Talvez uma segunda vez. Mas, se continuarem na mesma rota, em algum momento existe o risco de colisão.

E, no Flamengo, quando presidente e diretor de futebol colidem, não é apenas uma discussão entre dois executivos.

É o planejamento esportivo inteiro que pode sofrer.

Por isso, começo a me perguntar se José Boto chegará ao fim de 2026 como diretor de futebol do Flamengo.

Seu contrato termina no final desta temporada, e até lá ainda existe muita estrada pela frente. Mas episódios como Mikey Johnston e agora Luiz Henrique deixam uma questão cada vez mais evidente.

Se Boto realmente tem autonomia, até onde ela vai?

Se toda grande decisão financeira depende, naturalmente, da palavra final de BAP, por que algumas negociações parecem avançar até o ponto de precisar de uma intervenção presidencial?

E, principalmente: os dois ainda enxergam o futebol do Flamengo da mesma maneira?

Eu não tenho como afirmar hoje que José Boto deixará o clube. Seria irresponsável.

Mas também seria ingenuidade olhar para tudo o que já aconteceu e dizer que a relação parece absolutamente normal.

Pode ser apenas mais uma divergência pontual.

Pode ser mais um problema que será resolvido numa conversa no Ninho do Urubu.

Ou pode ser o início de algo maior.

Porque, quando presidente e diretor começam a seguir caminhos diferentes, chega um momento em que alguém precisa mudar de direção.

A pergunta é: José Boto termina 2026 no Flamengo?