Durante muito tempo, falar sobre a base do Flamengo significava principalmente acompanhar quais jogadores formados no Ninho do Urubu poderiam chegar ao time profissional.
A atual direção começou a ampliar essa lógica.
O clube continua formando atletas, mas também passou a olhar para as categorias inferiores como um verdadeiro mercado de contratação, buscando jovens que já se destacam em outras equipes antes que seus valores atinjam o nível do futebol profissional.
Dois negócios ajudam a mostrar o tamanho dessa mudança.
O Flamengo investiu aproximadamente R$ 3,5 milhões na contratação do atacante Josmar, que pertencia ao Avaí, e cerca de R$ 3 milhões no volante Pedro Henrique, do Paysandu.
Somados, os dois representam aproximadamente R$ 6,5 milhões investidos em jogadores que chegaram ao clube ainda com idade para atuar na base.
Não se trata apenas de contratar dois jovens.
As operações fazem parte de uma reformulação muito maior no Ninho do Urubu.
De 400 para aproximadamente 250 jogadores
Uma das primeiras mudanças promovidas pela atual gestão foi reduzir significativamente o número de atletas nas categorias de base.
O Flamengo trabalhava com aproximadamente 400 jogadores.
Esse número caiu para algo em torno de 250.
Até mesmo o chamado time B do sub-20, utilizado anteriormente para disputar competições de menor expressão, deixou de existir.
A intenção é trabalhar com grupos menores, concentrar recursos e aumentar o nível médio dos jogadores que permanecem no processo de formação.
Existe também uma mudança na maneira como o clube avalia o sucesso das categorias inferiores.
Internamente, há o entendimento de que durante alguns anos o Flamengo priorizou jogadores com maior desenvolvimento físico, algo que ajudava as equipes a conquistar títulos nas categorias de base, mas que nem sempre significava produzir atletas preparados tecnicamente para chegar ao profissional.
A nova filosofia tenta modificar justamente essa equação.
Josmar custou cerca de R$ 3,5 milhões
O exemplo mais avançado da nova estratégia talvez seja Josmar.
O atacante chegou ao Flamengo no início de 2026 depois de se destacar muito cedo no futebol profissional do Avaí.
Natural do Recife, o jovem tornou-se ainda em 2025 o jogador mais novo a marcar um gol na Série B desde a implantação do sistema de pontos corridos.
O desempenho colocou o atacante no radar rubro-negro.
O Flamengo decidiu pagar aproximadamente R$ 3,5 milhões para levá-lo ao Ninho do Urubu e completar sua formação no sub-20.
A aposta já começou a produzir sinais interessantes.
Josmar marcou 14 gols em seus primeiros 28 jogos pela base rubro-negra e passou a ser chamado para atividades com o elenco profissional.
Em agosto, Leonardo Jardim levou o atacante aos treinamentos do time principal e ele acabou relacionado pela primeira vez para uma partida do Brasileirão.
Durante a Data Fifa, voltou a trabalhar com os profissionais enquanto Pedro estava com a Seleção Brasileira.
Ou seja, o jogador comprado para fortalecer a base começou rapidamente a aparecer também como possível alternativa para o elenco principal.
Flamengo pagou mais R$ 3 milhões por volante
Pedro Henrique representa outro movimento interessante.
O volante pertence ao Flamengo desde abril, quando o clube pagou a cláusula indenizatória ao Paysandu e assinou contrato de três anos com o jogador.
O valor da operação ficou em aproximadamente R$ 3 milhões.
Pedro Henrique tinha apenas 18 anos, mas já atuava como titular do time profissional do Paysandu.
Em vez de tirá-lo imediatamente de Belém e colocá-lo no sub-20, Flamengo e Paysandu construíram uma solução diferente.
O jogador foi comprado pelo Rubro-Negro e permaneceu emprestado ao próprio clube paraense até o encerramento da Série C.
A ideia é permitir que continue recebendo minutos no futebol profissional antes de seguir definitivamente para o Ninho.
A negociação também ganhou importância para o Paysandu, que tratou a venda como a maior realizada pelo clube.
O Flamengo, portanto, não comprou apenas um jogador para disputar partidas do sub-20.
Comprou um jovem que já acumula experiência contra adultos e tentou preservar justamente aquilo que muitas vezes falta aos jogadores em formação: minutos competitivos no futebol profissional.
Nova rede busca talentos pelo Brasil
A mudança não se limita às contratações.
O Flamengo também passou a ampliar sua rede de clubes parceiros responsáveis pela identificação e desenvolvimento de jogadores em diferentes regiões do país.
Desde 2025, o clube firmou novas parcerias com o Inter de Minas, localizado em Itaúna, na região de Belo Horizonte, e com o Tolentino Esportes, de Itapitanga, na Bahia.
Eles se juntaram a estruturas que já trabalhavam com o Flamengo, como o Centro Esportivo Wilson Goiano, em Goiás, e o Clube Trieste, no Paraná.
Na prática, o Ninho do Urubu passa a receber informações e jogadores de uma rede maior de formação.
Isso permite ao Flamengo identificar talentos antes que eles cheguem ao mercado profissional e passem a custar dezenas de milhões de reais.
A lógica é semelhante à adotada por grandes clubes europeus.
Encontrar cedo, investir antes da explosão e assumir o desenvolvimento final do jogador.
Uma aposta que pode pagar toda a conta
Existe risco nesse modelo.
Nem todo jovem contratado por R$ 2 milhões, R$ 3 milhões ou R$ 4 milhões chegará ao profissional do Flamengo.
Alguns sequer conseguirão consolidar-se no futebol de alto nível.
A direção trabalha justamente com essa matemática.
Se vários jogadores forem contratados por valores relativamente baixos e apenas um deles transformar-se em atleta importante do profissional ou gerar uma grande transferência para o exterior, o retorno desse único caso pode compensar os investimentos realizados nos demais.
Josmar oferece um exemplo simples.
O Flamengo desembolsou aproximadamente R$ 3,5 milhões por um centroavante de 18 anos que já passou a frequentar o elenco principal.
Uma contratação semelhante para o time profissional, caso esse mesmo jogador se desenvolva e ganhe destaque em alguns anos, poderia custar várias vezes esse valor.
Pedro Henrique segue a mesma lógica.
O clube investe antes que o jogador esteja pronto.
Se a aposta funcionar, terá adquirido por cerca de R$ 3 milhões um atleta que poderá chegar ao profissional já pertencendo ao Flamengo.
Sub-15 e sub-16 despertam maior otimismo
Curiosamente, o maior entusiasmo interno neste momento não está necessariamente no sub-20.
Dentro do Flamengo, existe maior otimismo com as gerações que hoje atuam principalmente no sub-15 e no sub-16.
Isso significa que os resultados mais claros dessa reformulação podem demorar algumas temporadas para aparecer.
É também por isso que a mudança precisa ser analisada como um projeto de médio e longo prazo.
Reduzir centenas de jogadores, modificar critérios de captação, criar novas parcerias e começar a pagar milhões por talentos de outros clubes não produz uma nova geração imediatamente.
O Flamengo está tentando alterar o início do processo.
A resposta só aparecerá quando esses jogadores chegarem à última etapa: o profissional.
O Ninho também virou mercado
Essa talvez seja a principal transformação.
O Flamengo continuará tentando descobrir jogadores dentro de sua própria estrutura, mas deixou de depender exclusivamente dos atletas que chegam ainda crianças ao clube.
O Ninho passou também a disputar talentos no mercado.
Josmar veio do Avaí.
Pedro Henrique veio do Paysandu.
Outros jovens chegaram de clubes de diferentes regiões do país e até do exterior.
O objetivo é criar uma base mais seletiva, com menos jogadores e maior concentração de talento.
Depois de uma geração que produziu Vinícius Júnior, Lucas Paquetá e João Gomes e movimentou centenas de milhões de reais, o desafio agora é encontrar os próximos nomes capazes de atravessar novamente todo o caminho.
A diferença é que alguns deles podem não ter começado esse caminho no Flamengo.
Podem chegar ao Ninho já valendo milhões.




