Erick Pulgar voltou ao centro de uma discussão sobre arbitragem depois da vitória do Flamengo por 1 a 0 sobre o Fluminense, no domingo (11), pelo Campeonato Brasileiro. O volante chileno recebeu cartão amarelo após atingir Rodrigo Castillo na região do joelho, em uma jogada que provocou reclamações do adversário e avaliações divergentes sobre a decisão tomada em campo.

A repercussão recuperou um debate que acompanha o jogador há várias temporadas: Pulgar recebe as punições proporcionais às infrações que comete ou sua maneira intensa de atuar acaba produzindo uma imagem negativa que também pode influenciar a arbitragem?

Para investigar essa questão, o Fla Opina reuniu registros disciplinares desde a chegada do chileno ao Flamengo, em julho de 2022, consultou estatísticas por competição e revisitou episódios que provocaram discussões sobre expulsões.

O levantamento confirma duas expulsões pelo clube, uma por segundo cartão amarelo e outra por cartão vermelho direto. Também identifica diferenças entre bases estatísticas que exigem atenção antes de estabelecer um total definitivo de advertências.

Os cartões de Pulgar desde 2022

O histórico da Opta permite separar as advertências registradas nas principais competições disputadas pelo Flamengo.

No recorte consultado até 12 de outubro de 2026, a base apresenta 58 cartões amarelos distribuídos entre Brasileirão, Campeonato Carioca, Copa do Brasil, Supercopa, Libertadores, Mundial de Clubes e Copa Intercontinental.

A distribuição encontrada foi:

| Temporada | Amarelos registrados na Opta | |---|---:| | 2022 | 3 | | 2023 | 14 | | 2024 | 17 | | 2025 | 15 | | 2026 | 9 | | Total nesse recorte | 58 |

Esses números correspondem às competições individualizadas na base consultada, não a um total definitivo de todos os torneios.

A Recopa Sul-Americana de 2026, por exemplo, não aparece nas linhas utilizadas nesse somatório. Outra plataforma estatística, a AiScore, registra um amarelo de Pulgar naquela competição.

Portanto, não seria correto apresentar os 58 cartões como a soma final e incontestável de toda a passagem pelo Flamengo.

O levantamento do Fla Opina também encontrou diferenças em relação a uma reportagem do ge publicada em abril.

Naquela ocasião, o veículo contabilizou 19 amarelos em 2024, enquanto a Opta apresenta 17. O ge também contabilizava 57 cartões em 153 partidas oficiais até 2 de abril de 2026, incluindo o vermelho direto recebido diante do Bragantino.

A divergência reforça a necessidade de distinguir cartões amarelos, segundos amarelos que produzem expulsão e cartões vermelhos diretos.

Mesmo com essas diferenças, os registros mostram que as advertências fazem parte regularmente da trajetória do volante pelo Flamengo.

Brasileirão concentra parte importante das punições

Quando os números são separados por torneio, é possível observar onde Pulgar acumulou mais advertências.

Na Série A do Campeonato Brasileiro, a Opta registra um amarelo em 2022, nove em 2023, cinco em 2024, sete em 2025 e seis no recorte consultado de 2026.

São 28 advertências no Brasileirão durante o período apresentado.

No Campeonato Carioca, aparecem duas em 2023, cinco em 2024, duas em 2025 e uma em 2026, totalizando dez.

Pela Copa do Brasil, os registros consultados indicam duas advertências em 2023 e quatro em 2024.

Na Libertadores, o histórico mostra uma em 2022, uma em 2023, três em 2024, duas em 2025 e duas em 2026.

Também aparecem advertências na Supercopa do Brasil, no Mundial de Clubes e na Copa Intercontinental.

A diferença entre as competições é importante porque as suspensões por acúmulo de cartões seguem regulamentos próprios.

Um amarelo recebido no Campeonato Carioca não deve ser automaticamente somado aos cartões acumulados no Brasileirão para fins de suspensão.

Por isso, os totais históricos apresentados nesta pesquisa têm finalidade estatística, não representam uma contagem única de cartões acumulados em determinada competição.

Duas expulsões confirmadas pelo Flamengo

Embora tenha recebido dezenas de advertências, Pulgar registra duas expulsões confirmadas desde que chegou ao clube.

A primeira aconteceu em 26 de novembro de 2024, contra o Fortaleza, pelo Campeonato Brasileiro.

O chileno recebeu dois cartões amarelos durante a partida e acabou expulso.

A segunda ocorreu em 2 de abril de 2026, diante do Red Bull Bragantino, também pelo Brasileirão.

Dessa vez, a punição foi um cartão vermelho direto no início do segundo tempo, durante a derrota rubro-negra por 3 a 0.

O episódio provocou críticas do técnico Leonardo Jardim, que cobrou maior controle emocional dos jogadores.

As duas expulsões possuem características disciplinares diferentes.

A primeira resultou da soma de duas advertências na mesma partida. A segunda decorreu de uma infração punida diretamente com o vermelho.

Esses registros mostram que o jogador já sofreu punições máximas, embora a discussão pública frequentemente se concentre nas situações em que permaneceu em campo.

Final da Libertadores de 2025: o lance com Bruno Fuchs

Um dos episódios mais controversos aconteceu em 29 de novembro de 2025, durante a final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras.

Ainda no primeiro tempo, após uma falta envolvendo Arrascaeta e Bruno Fuchs, Pulgar atingiu a perna do defensor palmeirense quando a jogada já havia sido interrompida.

A ação provocou forte reação dos jogadores do Palmeiras, especialmente pelas marcas deixadas na canela de Fuchs.

O árbitro Darío Herrera aplicou cartão amarelo ao volante chileno.

O VAR não recomendou revisão para possível expulsão.

A decisão gerou questionamentos, e o ex-árbitro Paulo Cesar de Oliveira avaliou publicamente que o lance deveria ter resultado em cartão vermelho.

O episódio é importante porque mostra como uma decisão disciplinar pode influenciar a interpretação posterior sobre o comportamento de um atleta.

O registro oficial daquela partida permanece sendo o cartão amarelo. A possibilidade de expulsão pertence à análise técnica do lance, e não pode ser contabilizada como um vermelho efetivamente recebido.

Fla-Flu de 2026 reacendeu a discussão

O episódio mais recente aconteceu no clássico de 11 de outubro, no Maracanã.

Aos 30 minutos do primeiro tempo, Pulgar atingiu Rodrigo Castillo com a sola da chuteira na região do joelho.

O árbitro Rafael Rodrigo Klein aplicou cartão amarelo, sem revisão do VAR para possível expulsão.

O Fluminense protestou contra a decisão.

Ex-árbitros consultados pelo UOL avaliaram que a jogada deveria ter resultado em vermelho direto, considerando o uso de força excessiva e o risco ao adversário.

Leonardo Jardim, entretanto, apresentou interpretação diferente.

Na entrevista coletiva, o treinador defendeu Pulgar e utilizou uma demonstração com um assessor de imprensa para explicar por que considerava a ação parte de uma disputa de bola.

As manifestações revelam o centro da discussão: a intensidade do contato e o enquadramento da jogada nas regras disciplinares.

Não houve expulsão, mas o lance aumentou a pressão pública sobre o volante.

Cartões recebidos não contam toda a história

O levantamento permite distinguir três situações que frequentemente são misturadas nas discussões sobre arbitragem.

A primeira envolve as advertências efetivamente registradas nas súmulas.

A segunda diz respeito às infrações em que o árbitro poderia ter aplicado uma punição diferente, conforme interpretações técnicas.

A terceira envolve a reputação construída em torno do jogador, que pode influenciar a forma como torcedores, comentaristas e adversários analisam suas jogadas.

São elementos relacionados, mas não equivalentes.

Um jogador receber muitos cartões não significa automaticamente que todas as advertências foram corretas.

Da mesma forma, ser expulso poucas vezes não comprova que todos os lances potencialmente graves receberam a punição adequada.

Para demonstrar eventual favorecimento ou perseguição sistemática, seria necessário realizar uma comparação padronizada com outros volantes, analisando faltas cometidas, minutos disputados, cartões recebidos e gravidade dos episódios.

A pesquisa histórica dos cartões, isoladamente, não permite estabelecer essa conclusão.

A importância de Pulgar também precisa entrar na avaliação

Reduzir Pulgar aos episódios disciplinares seria ignorar sua contribuição esportiva.

O chileno exerce uma função relevante na organização defensiva do Flamengo.

Sua capacidade para disputar bolas, recuperar a posse, proteger a entrada da área e participar da construção desde o campo defensivo ajuda a explicar a confiança recebida de diferentes treinadores.

É um jogador cuja atuação exige contato físico constante, leitura de espaços e participação em confrontos diretos com adversários.

Essa função aumenta sua exposição a disputas e faltas, embora não justifique automaticamente ações que ultrapassem os limites previstos nas regras.

Também existe uma diferença entre competitividade e descontrole.

Pulgar pode oferecer intensidade ao Flamengo sem precisar assumir riscos disciplinares desnecessários.

O desafio está em preservar suas características positivas e reduzir situações capazes de provocar cartões, suspensões ou prejuízos à equipe.

O risco de uma reputação decidir antes da arbitragem

O debate público também produz consequências para o próprio jogador.

Quando uma sequência de episódios passa a acompanhar a carreira de um atleta, cada novo lance tende a receber atenção redobrada.

Isso pode ser importante para cobrar coerência da arbitragem, mas também exige cuidado para evitar julgamentos automáticos.

O fato de Pulgar ter participado de lances controversos anteriormente não determina, por si só, qual deveria ser a punição em uma jogada posterior.

O árbitro precisa avaliar o episódio concreto, a intensidade do contato, a possibilidade de disputa da bola e os critérios previstos nas regras.

Uma advertência exagerada e uma expulsão não aplicada são problemas diferentes, mas ambos prejudicam a credibilidade da arbitragem.

A aplicação das regras deve ser uniforme, independentemente do jogador, do clube ou de sua reputação.

O que o histórico revela?

O levantamento do Fla Opina confirma que Erick Pulgar acumula um número expressivo de advertências desde 2022 e sofreu duas expulsões pelo Flamengo.

Também demonstra que episódios importantes, como a final da Libertadores de 2025 e o Fla-Flu de outubro de 2026, produziram avaliações técnicas favoráveis à aplicação de punições mais severas do que as determinadas pelos árbitros.

Mas os números não permitem concluir que o jogador seja sistematicamente beneficiado ou perseguido.

O histórico apresenta um atleta competitivo, importante para a estrutura do Flamengo, que em determinados momentos ultrapassou limites disciplinares ou participou de jogadas nas quais a punição aplicada foi amplamente questionada.

A conclusão mais relevante não está em transformar Pulgar em símbolo de violência nem em ignorar suas ações.

Está na necessidade de avaliar cada lance com o mesmo critério utilizado para qualquer outro jogador.

Para o Flamengo, o ideal é contar com a intensidade, a experiência e a qualidade técnica do chileno sem sofrer as consequências de infrações evitáveis.

Para a arbitragem, o desafio é demonstrar que cartões amarelos e vermelhos são consequências das jogadas, não da reputação de quem as protagoniza.