Sete Libertadores consecutivas.

Desde 2019, nenhum clube argentino, uruguaio, chileno, colombiano, paraguaio ou equatoriano conseguiu conquistar a principal competição de clubes da América do Sul.

Flamengo em 2019. Palmeiras em 2020 e 2021. Flamengo novamente em 2022. Fluminense em 2023. Botafogo em 2024. E Flamengo outra vez em 2025.

Não é impressão.

É hegemonia.

O futebol brasileiro construiu uma distância esportiva e financeira enorme para boa parte de seus vizinhos. Os clubes da Série A faturaram juntos R$ 14,9 bilhões em 2025. O Brasil deixou de ser apenas exportador e passou também a comprar alguns dos melhores jogadores da América do Sul.

Demoramos anos para chegar a essa posição.

E justamente agora a CBF resolveu mexer em várias engrenagens ao mesmo tempo.

Não sou contra modernizar o futebol brasileiro. Pelo contrário.

Mas modernizar não pode significar encontrar um problema, fazer um levantamento e imediatamente tentar resolvê-lo por regulamento.

Às vezes o remédio também provoca efeitos colaterais.

E algumas das decisões recentes me parecem fortes demais para problemas muito mais complexos.

Estrangeiros: estamos fechando uma porta que nos fortaleceu

A primeira mudança já está aprovada.

O limite de estrangeiros relacionados cairá dos atuais nove para oito em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e apenas cinco em 2030.

Flamengo e Bahia foram os únicos clubes contrários.

Eu também sou contra essa redução dessa maneira.

Nos últimos anos, o crescimento financeiro do futebol brasileiro permitiu que nossos clubes buscassem jogadores que antes talvez fossem diretamente para México, Estados Unidos, Europa ou outros mercados.

O Brasileirão ficou mais internacional.

E ficou melhor.

Arrascaeta é uruguaio. De la Cruz é uruguaio. Plata é equatoriano. Varela é uruguaio.

Olhe para outros grandes clubes brasileiros e encontraremos argentinos, colombianos, paraguaios e jogadores de várias nacionalidades ajudando a aumentar o nível da competição.

Não estou defendendo contratar estrangeiro simplesmente porque é estrangeiro.

Estou defendendo que o clube tenha liberdade para contratar quem considera melhor.

Se o brasileiro for melhor, joga o brasileiro.

Se o uruguaio for melhor, joga o uruguaio.

O futebol deveria selecionar por qualidade.

O risco da nova regra é justamente o contrário: reduzir artificialmente um mercado que ajudou o Brasileirão a crescer.

E existe também um efeito comercial.

Quanto mais jogadores de diferentes nacionalidades atuam no Brasil, maior a capacidade de o campeonato despertar atenção em outros mercados sul-americanos.

O Brasil virou o grande comprador do continente.

Agora decide limitar sua própria capacidade de comprar.

Não consigo enxergar isso como fortalecimento.

O jovem brasileiro não vai ficar porque tiramos o estrangeiro

A justificativa da CBF passa pelo envelhecimento do campeonato e pela redução da participação de jogadores brasileiros Sub-23.

O diagnóstico merece atenção.

A participação dos brasileiros Sub-23 caiu de 28,3% dos minutos da Série A em 2020 para 11,5% atualmente.

É uma queda enorme.

Só não acredito que o estrangeiro seja a causa principal.

O grande problema do jovem brasileiro é outro: quando ele é realmente diferenciado, vai embora cedo.

Às vezes, muito cedo.

Com 18 anos já existe clube europeu acompanhando. Com 19, aparece proposta. Com 20, muitas vezes já está do outro lado do Atlântico.

E quem permanece?

Muitas vezes o jogador que ainda não despertou interesse internacional.

Então podemos criar espaço no elenco para Sub-23. Podemos aumentar lista. Podemos estabelecer incentivo.

Vai ajudar? Pode ajudar.

Vai resolver?

Na minha opinião, não.

Porque continuaremos formando jogador para vender.

E existe outro efeito que pouco se discute.

E quem volta da Europa depois dos 30?

Se a preocupação passa a ser reduzir a idade média dos elencos e reservar cada vez mais espaço para jogadores Sub-23, alguma coisa precisará ceder.

E esse espaço pode começar a ficar mais apertado justamente para brasileiros experientes que retornam da Europa.

Não estou dizendo que a CBF criou uma regra proibindo jogadores acima de 30 anos.

Não criou.

Estou falando do efeito da lógica.

Jorginho voltou ao Brasil ainda com futebol para oferecer.

Alex Sandro voltou.

Danilo voltou.

São jogadores experientes, vencedores e capazes de elevar o nível técnico e profissional de um elenco.

Se os clubes forem pressionados a rejuvenescer cada vez mais suas listas, esse tipo de contratação poderá ficar menos atraente ou mais difícil.

E aí chegamos a uma contradição.

Para proteger o jogador brasileiro, podemos acabar reduzindo o espaço de jogadores brasileiros de enorme qualidade.

Idade não deveria ser sinônimo de falta de capacidade.

Quer fortalecer a base? Comece na base

Para mim, existe outro caminho.

Se a CBF realmente considera a formação de jogadores uma prioridade nacional, precisa colocar dinheiro nela.

Precisa fortalecer campeonatos de base.

Precisa atrair patrocinadores.

Precisa melhorar transmissão.

Precisa criar competições relevantes, estádios com público e calendário que faça um garoto sentir que disputar uma competição Sub-17 ou Sub-20 é realmente importante.

Formação não começa quando o jogador chega ao profissional.

Começa muito antes.

O Brasil possui talvez a maior matéria-prima de futebol do mundo.

Então por que a solução aparece somente quando o garoto precisa disputar posição no time principal?

Invista antes.

Valorize antes.

Crie uma estrutura forte antes.

A caneta deveria ser a última solução, não a primeira.

Gramado sintético: trocar o problema não significa resolvê-lo

Outro debate que voltará à mesa é o dos gramados.

E aqui minha posição é clara: sou contra gramado sintético no futebol profissional de alto nível.

O futebol nasceu e se desenvolveu no gramado natural. As principais competições do mundo são disputadas predominantemente dessa forma.

Mas existe um argumento utilizado por quem defende o sintético que precisa ser levado a sério.

Nossos gramados naturais muitas vezes estão horríveis.

O próprio Flamengo vem sofrendo com isso no Maracanã.

Léo Ortiz resumiu bem essa contradição recentemente ao dizer que, diante de campos naturais em condições tão ruins, acaba sendo possível entender quem prefere o sintético.

Ele tem razão nessa parte.

Não dá para defender gramado natural e oferecer um campo irregular, castigado e sem condições para futebol de alto nível.

Mas a solução, para mim, também não é simplesmente instalar plástico.

É cuidar do campo.

Contratar empresas especializadas custa caro?

Custa.

Trocar gramado quando necessário custa caro?

Custa.

Manter estrutura profissional custa caro?

Claro.

Mas futebol profissional também é um negócio bilionário.

Se queremos vender um produto melhor, precisamos investir no palco onde o produto acontece.

E existe outro risco.

Aprovar artificial não significa garantir artificial de qualidade.

Um clube rico pode instalar o melhor gramado sintético disponível.

E o clube com menos dinheiro?

Compra o mais barato?

Faz manutenção inadequada?

Dentro de alguns anos teremos também gramados sintéticos ruins?

Trocar a superfície não elimina automaticamente a má gestão.

E agora querem mexer também no rebaixamento?

Existe ainda uma discussão sobre diminuir o número de clubes rebaixados.

Entre propostas colocadas no debate do futebol brasileiro apareceu a possibilidade de reduzir gradualmente as quatro quedas atuais.

Eu também não vejo necessidade.

O Campeonato Brasileiro já possui 20 clubes e 38 rodadas.

Se quatro caem e quatro sobem, existe renovação.

Se diminuirmos para três ou dois, qual é exatamente o problema que estamos tentando resolver?

Evitar que clubes tradicionais sejam rebaixados?

Diminuir o risco financeiro?

Proteger investimento?

Futebol também é risco esportivo.

Se um clube fizer um campeonato ruim, precisa pagar esportivamente por isso.

E existe uma questão evidente: clubes que frequentemente brigam contra o rebaixamento naturalmente terão interesse em diminuir o número de vagas da zona da degola.

É compreensível.

Mas o interesse individual dos clubes não necessariamente representa o interesse do campeonato.

Se queremos diminuir calendário, talvez devêssemos discutir até o número de participantes da Série A.

Isso sim reduziria partidas.

Diminuir os rebaixados mantendo praticamente toda a estrutura atual não resolve o excesso de jogos.

Só altera quem sofre as consequências de uma temporada ruim.

Mudar é necessário. Mudar tudo de uma vez é outra história

Eu reconheço méritos nesta nova disposição da CBF de discutir o futebol brasileiro.

Durante muito tempo reclamamos justamente da ausência de planejamento.

Calendário precisava mudar.

Arbitragem precisa melhorar.

Fair play financeiro é necessário.

Gramados precisam de padrões melhores.

A base precisa ser fortalecida.

Tudo isso é verdade.

Minha preocupação começa quando problemas estruturais extremamente complexos passam a receber soluções rápidas através do regulamento.

O futebol brasileiro não ficou forte por acaso.

Existe dinheiro.

Existe torcida.

Existe formação.

Existe maior capacidade para contratar.

Existe intercâmbio com o restante da América do Sul.

Existe retorno de brasileiros importantes que passaram anos na Europa.

E existe resultado esportivo.

Sete Libertadores seguidas não acontecem por acidente.