O Flamengo passou os últimos anos ouvindo que possui o melhor elenco do Brasil. Em muitos momentos, a discussão foi além: pela quantidade e pelo nível das opções disponíveis, é possível defender que o Rubro-Negro possui hoje o elenco mais poderoso da América do Sul.
Pois chegou a hora de provar isso.
Não em uma final. Não em uma noite de gala. Mas justamente naquela situação para a qual um elenco desse tamanho foi construído.
O Flamengo venceu o Independiente del Valle por 2 a 0 em Quito na quinta-feira, enfrentando 2.850 metros de altitude, desgaste físico elevado e uma partida que exigiu enorme esforço dos jogadores. Agora tem apenas dois dias efetivos de recuperação antes de enfrentar o Corinthians, domingo, pelo Campeonato Brasileiro.
E, quatro dias depois, estará novamente no Maracanã para decidir contra o Del Valle uma vaga na semifinal da Libertadores.
É uma sequência brutal.
Leonardo Jardim já reconheceu isso. Depois da partida no Equador, o treinador afirmou que o desgaste foi efetivo, citou a longa viagem e deixou claro que pretende utilizar contra o Corinthians jogadores que atuaram menos em Quito. Para o português, é justamente nesses momentos que o elenco precisa fazer a diferença.
Ele está certo.
Não existe elenco forte apenas no papel
Um clube não monta um grupo desse tamanho para utilizar sempre os mesmos onze jogadores.
Se a diferença do Flamengo para seus adversários está também na profundidade do elenco, é justamente uma sequência como essa que transforma essa vantagem teórica em vantagem esportiva.
Contra o Del Valle, jogadores importantes começaram no banco. Pedro e Gonzalo Plata, por exemplo, foram opções para o segundo tempo. Outros atletas tiveram poucos minutos ou sequer precisaram carregar o mesmo desgaste daqueles que enfrentaram praticamente toda a partida na altitude.
Agora é a vez deles.
E não deveria existir medo em fazer mudanças.
O Flamengo possui jogadores capazes de serem titulares em praticamente qualquer equipe do futebol brasileiro e que, pela concorrência interna, passam períodos no banco.
Isso precisa servir para alguma coisa.
A ideia de "time reserva" perde sentido quando as peças que entram possuem experiência internacional, salários de protagonistas e qualidade suficiente para disputar posição.
O Flamengo não tem apenas onze titulares.
Tem um grupo que precisa funcionar como tal.
Valencia e Freitas podem entrar no radar
A sequência pode também abrir a porta para jogadores que ainda estão buscando espaço.
Anthony Valencia e Joaquín Freitas já foram regularizados no BID da CBF e estão legalmente disponíveis para atuar. Os dois chegaram recentemente, participaram dos treinamentos e representam justamente a renovação de opções ofensivas que o clube buscou para a reta decisiva da temporada.
Não significa que Leonardo Jardim tenha obrigação de escalar os dois como titulares contra o Corinthians.
Mas significa que chegou a hora de começar a olhar para essas alternativas.
Valencia tem 23 anos, experiência europeia e características de velocidade que podem ser importantes em um jogo de maior transição.
Joaquín Freitas, aos 19, ainda está em processo de adaptação, mas foi contratado com investimento relevante e também precisa, aos poucos, começar a entrar na dinâmica competitiva do grupo.
Se não é possível utilizar jogadores assim quando parte dos titulares retorna exausta de Quito, será difícil encontrar momento melhor para começar essa integração.
Corinthians não permite descuido
Rodar o elenco, porém, não significa tratar o Campeonato Brasileiro como secundário.
Muito pelo contrário.
O Flamengo chegou à rodada na liderança, com 54 pontos, um à frente do Palmeiras. Uma vitória sobre o Corinthians pode ser importante para aumentar a pressão sobre o principal concorrente e consolidar a posição rubro-negra em uma fase decisiva do campeonato.
E existe outro fator.
O Corinthians atravessa um momento difícil no Brasileiro, mas continua sendo o Corinthians.
É um adversário que historicamente cria dificuldades, possui qualidade e não pode ser tratado pela posição momentânea na tabela.
Além disso, existe uma coincidência interessante no caminho continental.
Flamengo e Corinthians estão do mesmo lado da chave da Libertadores. O Rubro-Negro leva vantagem de 2 a 0 contra o Independiente del Valle; os paulistas empataram por 1 a 1 com o Estudiantes na Argentina.
Se os dois avançarem, estarão frente a frente novamente — desta vez pela semifinal da Libertadores.
O jogo de domingo pode acabar sendo uma pequena prévia de um confronto muito maior.
O preço da altitude apareceu no corpo
Quem assistiu à partida em Quito percebeu que o Flamengo terminou no limite físico.
A altitude não é discurso.
Ela cobra.
Jogadores que normalmente suportam grande intensidade demonstraram desgaste evidente, e Leonardo Jardim destacou depois da partida quanto o grupo precisou correr, lutar e trabalhar durante os 90 minutos.
É exatamente por isso que insistir nos mesmos jogadores contra o Corinthians seria um risco desnecessário.
Jorginho, Pulgar, Léo Pereira, Léo Ortiz, Emerson Royal e Bruno Henrique estão entre aqueles que tiveram carga elevada no Equador e aparecem naturalmente como candidatos a receber descanso ou minutagem reduzida.
Poupar agora não é abrir mão de ganhar.
É tentar ganhar domingo sem comprometer quinta-feira.
Essa é a diferença.
Flamengo tem elenco para disputar as duas
Existe ainda um ponto que precisa ser colocado.
O Flamengo já está fora da Copa do Brasil.
Isso significa que, embora o calendário continue extremamente pesado, o clube disputa neste momento essencialmente duas grandes frentes: Campeonato Brasileiro e Libertadores.
E possui elenco para isso.
Não faz sentido construir um grupo dessa dimensão e chegar em setembro escolhendo uma competição para priorizar.
A vantagem competitiva do Flamengo deveria ser justamente conseguir trocar cinco, seis ou até mais jogadores e continuar colocando em campo uma equipe capaz de vencer.
Talvez domingo seja o maior teste dessa ideia até agora.
Leonardo Jardim não precisa escolher entre Brasileirão e Libertadores.
Precisa escolher quais jogadores utilizar em cada partida.
Parece uma diferença pequena.
Não é.
Agora os chamados reservas precisam responder
Existe também uma responsabilidade dos jogadores.
Quem está fora do time titular costuma querer oportunidade.
Pois a oportunidade está chegando.
O calendário não vai permitir que apenas onze atletas carreguem o Flamengo até novembro.
Vai haver suspensão.
Vai haver desgaste.
Vai haver lesão.
Vai haver queda de rendimento.
E vai haver partidas em que um jogador considerado reserva terá que entrar e decidir uma competição.
Por isso o jogo contra o Corinthians não deve ser encarado pelos atletas que receberem uma oportunidade como simples rodízio.
É uma chance de mostrar para Leonardo Jardim que as opções do elenco não existem apenas na folha salarial.
O Flamengo precisa descobrir, nesta reta final, quais jogadores realmente podem ser chamados quando a temporada apertar.
E ela acabou de apertar.




