O forte aumento das receitas da Copa do Brasil a partir de 2027 pode vir acompanhado de uma mudança importante na forma como parte do dinheiro será utilizada pelos clubes.
A CBF apresentou nesta segunda-feira uma proposta para criar uma nova cota fixa destinada às equipes das Séries A e B, independentemente da fase alcançada na competição. A diferença é que esse dinheiro não ficaria necessariamente livre para contratações, salários ou outras despesas do futebol.
Segundo apuração dos jornalistas Rodrigo Mattos e Igor Siqueira, do UOL, a ideia é estabelecer regras para o destino da nova receita conforme a situação financeira de cada clube. Equipes com pagamentos atrasados ou determinados débitos teriam de direcionar os recursos para regularizar suas obrigações. Clubes considerados adimplentes poderiam utilizar a verba em projetos de infraestrutura.
O modelo definitivo e o valor individual da cota ainda não foram fechados.
Copa do Brasil entra em novo patamar financeiro
A mudança só está sendo discutida porque a Copa do Brasil passará a movimentar valores muito maiores.
No dia 10 de setembro, a CBF anunciou a conclusão da maior negociação de direitos de transmissão já realizada pela entidade. O novo ciclo entre 2027 e 2030 supera R$ 4 bilhões e representa crescimento superior a 80% em relação ao contrato anterior. O pacote também envolve direitos da Supercopa Rei.
Atualmente, a receita de televisão da Copa do Brasil gira em torno de R$ 600 milhões anuais. Aproximadamente 80% desse montante é destinado às premiações distribuídas de acordo com o avanço de cada equipe.
O campeão de 2026, por exemplo, receberá R$ 78 milhões pela conquista. Uma parcela significativa da distribuição atual fica concentrada justamente nas fases decisivas.
A intenção da CBF não é acabar com esse sistema.
As premiações por desempenho continuariam existindo. A novidade seria acrescentar uma segunda camada de distribuição: uma cota fixa para clubes das Séries A e B, mesmo que tenham campanhas mais curtas na Copa do Brasil.
Quase R$ 1 bilhão pode entrar nesse novo modelo
A estimativa apresentada na discussão é de que pouco menos de R$ 1 bilhão possa ser destinado a essa nova política ao longo dos quatro anos do próximo ciclo.
É justamente sobre essa parcela adicional que a CBF pretende estabelecer regras de utilização.
Um clube com salários atrasados, dívida reconhecida com outro clube ou determinadas pendências financeiras não poderia simplesmente receber o dinheiro e utilizá-lo para realizar novas contratações.
A prioridade seria regularizar as obrigações existentes.
Entre os destinos previstos estão salários em atraso, pendências tributárias e débitos reconhecidos no sistema da CBF.
Já uma equipe que esteja cumprindo suas obrigações poderia direcionar o recurso para construção ou modernização de centro de treinamento, estádio ou outras estruturas permanentes.
Mais da metade dos clubes já declarou algum débito
A proposta ganha peso quando comparada com os primeiros meses de funcionamento do Fair Play Financeiro brasileiro.
Na segunda verificação realizada pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, a ANRESF, mais da metade dos 40 clubes das Séries A e B informou possuir algum tipo de débito.
A agência monitora três grandes grupos: obrigações com outros clubes, compromissos com atletas e funcionários e dívidas com o poder público.
Para obrigações assumidas antes de janeiro de 2026, existe um período de adaptação até 30 de novembro. Já compromissos assumidos a partir deste ano estão sujeitos ao regime completo de sanções.
As punições previstas podem avançar de advertências e multas até retenção de receitas, bloqueio para registrar jogadores, perda de pontos e, nos casos mais graves, rebaixamento.
Isso ajuda a entender por que a nova cota da Copa do Brasil está sendo discutida junto de mecanismos de fiscalização.
Não seria apenas distribuição de dinheiro.
Seria também uma ferramenta para tentar reduzir a inadimplência dentro do próprio futebol.
Ter dívida não significa automaticamente perder a verba
Existe uma diferença importante nessa discussão.
Praticamente todos os grandes clubes possuem algum tipo de dívida em seus balanços. Isso não significa necessariamente que estejam inadimplentes.
Uma instituição pode possuir financiamento, parcelas futuras de contratações ou outras obrigações e, ao mesmo tempo, manter todos os pagamentos dentro dos prazos acordados.
O próprio Flamengo encerrou 2025 com dívida operacional líquida de R$ 174 milhões, depois de reduzir o indicador que havia chegado a R$ 344 milhões no ano anterior. Ao mesmo tempo, o clube registrou receita bruta recorde de R$ 2,089 bilhões e superávit de R$ 336 milhões.
Esses números, isoladamente, não permitem afirmar se o Flamengo teria ou não liberdade para utilizar uma futura cota da Copa do Brasil em infraestrutura.
A ANRESF trabalha especialmente com o conceito de obrigações vencidas e não pagas, e os critérios específicos para essa nova verba ainda serão definidos.
Esse detalhe é importante para evitar uma interpretação simplista de que qualquer clube que apresente dívida no balanço teria automaticamente o dinheiro bloqueado.
Proposta toca diretamente em debate levantado pelo Flamengo
O tema também encontra um Flamengo que passou os últimos meses cobrando regras mais duras de sustentabilidade financeira.
Desde 2025, o clube vem defendendo que equipes em dificuldades não possam deixar de pagar obrigações e, ao mesmo tempo, utilizar essa folga financeira para ganhar força esportiva no mercado.
Em novembro do ano passado, o Flamengo apresentou sugestões à discussão do Fair Play Financeiro, entre elas mecanismos para impedir que processos de recuperação judicial fossem utilizados como vantagem competitiva.
Em julho deste ano, o clube voltou a defender publicamente o fortalecimento da ANRESF e pediu medidas para evitar que reestruturações financeiras permitam ampliar investimentos esportivos enquanto dívidas permanecem sem pagamento.
Um mês depois, o Rubro-Negro acionou a agência para questionar a situação financeira do Vasco e argumentou que o cumprimento das regras econômicas deveria fazer parte da preservação da igualdade competitiva.
Não há indicação de que o Flamengo tenha criado ou apresentado a proposta discutida nesta segunda-feira.
Mas o princípio utilizado pela CBF — primeiro organizar obrigações financeiras, depois liberar novos recursos para outros investimentos — se aproxima de uma discussão que o clube vem tentando colocar no centro do futebol brasileiro.
Fiscalização será decisiva
O ponto mais delicado estará na execução.
A proposta prevê que o uso da nova cota seja acompanhado pelo sistema de Fair Play, justamente para impedir que o dinheiro tenha uma finalidade oficial e termine sendo usado de outra maneira.
A ANRESF já recebe periodicamente informações financeiras dos clubes e possui calendário de monitoramento durante toda a temporada.
Os clubes precisam informar a situação das suas obrigações em diferentes momentos do ano, além de apresentar demonstrações financeiras e orçamento para a temporada seguinte.
Com a nova cota, esse controle poderá deixar de atuar apenas como fiscalização e passar também a interferir diretamente no destino de uma receita importante.
A Copa do Brasil, portanto, pode entrar em 2027 não apenas mais rica.
Pode se transformar em uma das principais ferramentas utilizadas pela CBF para tentar mudar a cultura financeira dos clubes brasileiros.




