Danilo Lavieri é um jornalista experiente, conhecido e com espaço relevante em um dos maiores grupos de comunicação do país. É justamente por isso que suas afirmações têm peso — e, pelo mesmo motivo, precisam ser analisadas com rigor.
Nos últimos dias, durante participação no UOL News Esporte, Lavieri levantou uma questão legítima: o possível conflito de interesses envolvendo Marcos Motta, vice-presidente de Administração do Flamengo e sócio de um escritório de advocacia com forte atuação no mercado do futebol.
A pergunta cabe. O Flamengo deve respondê-la.
O problema surge quando esse caso é colocado como contraponto à discussão envolvendo Palmeiras, Vasco, Crefisa e a família Lamacchia, criando uma equivalência entre situações de natureza bastante diferente.
Foi justamente esse ponto que Fabrício Chicca, do canal Mundo na Bola, analisou em vídeo publicado posteriormente. Chicca não absolve Marcos Motta e tampouco afirma que o Flamengo esteja acima de questionamentos. Ao contrário: defende que o clube tenha mecanismos claros de governança, impedimento e proteção de informações.
Mas chama atenção para uma diferença essencial.
No caso Marcos Motta, o risco é do Flamengo
A discussão envolvendo Marcos Motta nasce do fato de um dirigente estatutário do Flamengo também ser sócio de um escritório que trabalha com clubes, atletas, empresários e operações no futebol.
Grupos políticos do próprio Flamengo chegaram a pedir seu afastamento, citando, entre outros exemplos, a participação do escritório na assessoria jurídica para estruturação da SAF do Santos e na transferência de Zé Lucas ao Cruzeiro. O Conselho Diretor posteriormente arquivou o pedido.
Existe uma questão a ser discutida? Sim.
Se Marcos Motta tiver acesso a informações estratégicas do Flamengo, o clube precisa garantir que dados sobre orçamento, limites de propostas, negociações e planejamento permaneçam protegidos.
O ponto central, entretanto, é quem seria o primeiro potencial prejudicado caso essas barreiras falhassem: o próprio Flamengo.
A Lei Geral do Esporte estabelece deveres de lealdade e determina que gestores não utilizem informações obtidas pelo cargo em benefício próprio ou de terceiros. Portanto, exigir transparência do Flamengo não é perseguição nem exagero. É governança.
Mas prestar assessoria jurídica a outro clube não transforma, automaticamente, um advogado em proprietário, administrador ou controlador daquela instituição.
Em Vasco e Palmeiras, a discussão ultrapassa os clubes
A situação analisada pela ANRESF é de outra natureza.
Marcos Lamacchia negocia a aquisição da SAF do Vasco. Seu pai, José Roberto Lamacchia, marido de Leila Pereira, está relacionado à estrutura financeira da operação. Leila é presidente do Palmeiras.
Nesse caso, a discussão não se limita à possibilidade de vazamento de uma informação estratégica de um clube.
Ela alcança financiamento, propriedade, garantias, influência económica e a independência entre duas instituições que disputam as mesmas competições.
A diferença é decisiva.
Se uma barreira interna do Flamengo falhar no caso Marcos Motta, o Flamengo pode ser prejudicado.
Se existir influência económica relevante sobre Vasco e Palmeiras dentro de um mesmo núcleo, a preocupação passa a atingir adversários, resultados económicos, decisões administrativas e a própria confiança na independência dos participantes da competição.
Não significa afirmar que haverá manipulação de partidas ou favorecimento esportivo. Não há prova disso e não seria responsável fazer tal acusação.
A função da regulação é justamente agir antes que seja necessário chegar a esse ponto.
Por isso a ANRESF abriu procedimento formal para analisar possível conflito de propriedade e adotou medidas cautelares que restringiram relações comerciais entre Vasco, Palmeiras e o conglomerado ligado à Crefisa durante a análise.
Como resumiu Chicca, a palavra “conflito” pode aparecer nos dois casos. O objeto desse conflito, porém, é completamente diferente.
Não é a primeira controvérsia
A preocupação do Fla Opina com a abordagem de Lavieri não começa agora.
Em outubro de 2025, durante a disputa entre Flamengo e Libra sobre a divisão dos 30% das receitas vinculados à audiência, Lavieri publicou documento com assinatura eletrónica de Rodolfo Landim e sustentou que o então presidente havia concordado com todos os critérios definidos.
A assinatura existia. Isso nunca esteve verdadeiramente no centro da controvérsia.
O ponto levado à discussão era outro: como executar a fórmula de distribuição dos 30% de audiência e qual seria a ponderação atribuída às diferentes plataformas.
No dia seguinte à publicação de Lavieri, o próprio UOL publicou análise explicando que a questão central da disputa judicial não estava na existência ou validade da assinatura de Landim, mas na execução prática do critério de audiência.
Meses depois, em maio de 2026, Flamengo e Libra chegaram a um novo acordo. A própria nota oficial informou que foi encontrado um “ponto de equilíbrio” entre a reivindicação feita pela nova gestão rubro-negra e o modelo defendido pelos demais clubes. Flamengo e Grêmio passaram a ter participação maior nas receitas de audiência em relação ao modelo anteriormente proposto.
Até a publicação desta matéria, o Fla Opina não localizou uma retratação pública de Danilo Lavieri sobre a forma como aquele documento foi apresentado naquele episódio.
E aqui está o motivo desta cobrança.
Não se trata de questionar o direito de Danilo Lavieri criticar o Flamengo. Jornalismo existe também para fiscalizar instituições poderosas — e o Flamengo precisa ser fiscalizado como qualquer outro clube.
Trata-se de exigir cuidado antes de transformar fatos complexos em conclusões simples e de grande repercussão.




