De la Cruz custou mais de R$ 100 milhões: o retorno valeu?

Uruguaio soma 98 jogos em mais de 200 partidas disputadas pelo Flamengo desde sua chegada e convive com lesões, controle de carga, restrições em gramados sintéticos, altitude e desejo de deixar o clube

Quando o Flamengo contratou Nicolás De la Cruz no fim de 2023, ainda durante a gestão de Rodolfo Landim e Marcos Braz, a expectativa era de ter no meio-campo um dos jogadores mais valorizados do futebol sul-americano.

O investimento foi compatível com o tamanho da aposta.

O Flamengo desembolsou US$ 16 milhões para tirar De la Cruz do River Plate, em uma operação que posteriormente passou de R$ 100 milhões quando considerados direitos econômicos, luvas e custos de intermediação.

Era uma contratação para chegar, jogar e assumir protagonismo.

Mais de dois anos e meio depois, porém, a passagem do uruguaio levanta uma discussão que vai muito além de sua qualidade técnica.

A pergunta é outra:

quanto o Flamengo realmente conseguiu utilizar De la Cruz?

Menos da metade dos jogos

Esse talvez seja o número que melhor resume a passagem.

De la Cruz fez seu primeiro jogo pelo Flamengo em janeiro de 2024. Desde então, até a vitória sobre o Mirassol em 2 de setembro de 2026, o Flamengo disputou 206 partidas registradas pelo FlaEstatística.

De la Cruz entrou em campo em 98.

Ou seja:

206 jogos do Flamengo 98 participações de De la Cruz 108 partidas sem entrar em campo

A presença do uruguaio corresponde a aproximadamente 47,6% dos jogos disputados pelo clube no período.

Em outras palavras, desde que chegou ao Flamengo, De la Cruz ficou sem atuar em mais partidas do que efetivamente jogou.

É importante fazer uma ressalva: nem todas as 108 ausências foram provocadas por lesões. Há convocações para a seleção uruguaia, suspensões e decisões técnicas.

Mas justamente aí está um dos pontos centrais deste levantamento.

Com De la Cruz, a disponibilidade não depende apenas de estar ou não no departamento médico.

Um problema que vai além das contusões

Em julho de 2025, quando ainda havia completado apenas um ano e meio de Flamengo, um levantamento do ge já mostrava uma situação preocupante.

Naquele momento, desde sua estreia oficial, o Flamengo havia disputado 112 jogos.

De la Cruz havia participado de apenas 61.

Já eram 51 ausências, equivalentes a 46% dos compromissos.

Das 51 partidas perdidas, 22 estavam diretamente relacionadas a problemas clínicos ou contusões.

O histórico naquele momento incluía:

2024

dores no ombro direito; febre e quadro viral; dores nos dois tendões de Aquiles; trauma no joelho direito; lesão na posterior da coxa direita; nova lesão na posterior da coxa direita.

2025

controle de carga; corte no pé; entorse no joelho esquerdo; novo problema no joelho.

Somente as duas lesões musculares na coxa direita em 2024 provocaram afastamentos importantes e interromperam uma sequência em que o uruguaio vinha sendo um dos principais jogadores do time.

O joelho passou a ser uma preocupação permanente

A questão mais delicada está nos joelhos.

Em julho de 2025, o então chefe do departamento médico do Flamengo, José Luiz Runco, teve uma mensagem interna divulgada na qual tratava a condição do joelho direito de De la Cruz como crônica e também mencionava comprometimento do joelho esquerdo.

A maneira como a situação médica foi exposta provocou forte crise interna e terminou com a saída de Runco.

Independentemente da polêmica em torno das declarações, os fatos posteriores mostraram que a condição física do uruguaio realmente passou a exigir atenção constante.

Bases especializadas registram, entre 2024 e o início de 2026, problemas recorrentes na coxa e principalmente nos joelhos, além de fadiga muscular e outros períodos de afastamento.

O problema deixou de ser apenas tratar uma lesão e devolver o jogador ao campo.

Passou a ser necessário administrá-lo continuamente.

Muitas vezes não está lesionado — mas também não joga

Esse é provavelmente o ponto que melhor explica a sensação do torcedor de que De la Cruz joga menos do que os números brutos indicam.

O uruguaio já ficou fora de partidas mesmo sem uma nova lesão diagnosticada.

Em diferentes momentos, o Flamengo utilizou expressões como:

controle de carga; preservação física; fadiga muscular; gestão de esforço; estresse muscular.

Em agosto deste ano, a situação chegou a provocar divergência interna.

Exames não apontavam uma nova lesão e o departamento médico considerava o jogador liberado, mas Leonardo Jardim optou por não utilizá-lo imediatamente por entender que a carga física ainda precisava ser controlada.

Desde o retorno da Copa do Mundo, naquele momento, De la Cruz havia disputado apenas 14 minutos pelo Flamengo.

É um exemplo claro da diferença entre estar clinicamente liberado e estar efetivamente pronto para competir normalmente.

Gramado sintético também entra na conta

Outro fator passou a interferir diretamente na utilização de De la Cruz: o tipo de gramado.

O Flamengo já decidiu preservar o uruguaio em partidas realizadas em piso sintético para evitar maior impacto nos joelhos.

Em algumas oportunidades, ele nem viajou com a delegação.

O caso não é necessariamente tratado como contusão.

De la Cruz pode estar treinando e, teoricamente, disponível. Ainda assim, dependendo do piso, o clube prefere não expô-lo.

Em julho, quando o Peñarol demonstrou interesse em sua contratação, uma reportagem do UOL destacou exatamente esse cenário: De la Cruz vinha sofrendo com questões físicas e era preservado quando o Flamengo atuava em gramados sintéticos.

Isso amplia a discussão sobre disponibilidade.

O jogador não precisa estar no departamento médico para ser uma ausência.

Altitude é outro fator de preocupação

A altitude também já interferiu no planejamento.

De la Cruz não é automaticamente excluído de toda partida disputada em cidades acima do nível do mar.

Ele já jogou nessas condições.

Mas existem ocasiões em que o Flamengo optou por nem levá-lo.

Em 2025, por exemplo, o uruguaio ficou fora da viagem a Quito para enfrentar a LDU.

Também houve episódios com a seleção uruguaia em que a altitude pesou na avaliação de sua condição física.

Em 2026, antes do confronto contra o Cusco, o Flamengo voltou a discutir internamente a possibilidade de preservá-lo devido à altitude. Naquela ocasião, De la Cruz acabou viajando e atuando.

Portanto, o cenário não é simplesmente “De la Cruz não joga na altitude”.

O correto é dizer que a altitude é mais um elemento que o Flamengo precisa avaliar antes de decidir se poderá utilizá-lo — e em algumas partidas ele sequer viaja.

A gestão física limita até quando ele está disponível

Esse conjunto cria uma situação incomum para um jogador contratado por tamanho investimento.

Para escalar De la Cruz, o Flamengo não avalia apenas:

“Está lesionado ou não?”

O clube também precisa considerar:

qual foi a carga nos últimos jogos; quantos minutos ele disputou; se haverá gramado sintético; se a partida será em altitude; como estão os joelhos; se existe fadiga muscular; e qual será o jogo seguinte.

A consequência é uma dificuldade constante para construir sequência.

E sequência é fundamental para qualquer meio-campista.

De titular absoluto a jogador administrado

Quando chegou, De la Cruz rapidamente mostrou por que o Flamengo havia feito tamanho investimento.

Em seus melhores momentos, apresentou intensidade, capacidade de pressão, qualidade no passe e movimentação que mudavam o meio-campo.

O problema nunca foi identificar sua capacidade técnica.

Foi mantê-lo disponível.

Com o passar do tempo, lesões e controles físicos fizeram com que outros jogadores ganhassem espaço.

Jorginho, Saúl e outros nomes do meio-campo passaram a oferecer alternativas para uma posição na qual, inicialmente, De la Cruz parecia praticamente indiscutível.

A disponibilidade acabou influenciando diretamente a hierarquia.

98 partidas e apenas quatro gols

De acordo com o FlaEstatística, De la Cruz soma atualmente 98 jogos pelo Flamengo e quatro gols.

Seu último jogo registrado foi em 29 de julho, contra o Internacional.

O site oficial do Flamengo registra sete conquistas principais em seu currículo pelo clube:

Libertadores de 2025; Campeonato Brasileiro de 2025; Copa do Brasil de 2024; Supercopa do Brasil de 2025; Carioca de 2024; Carioca de 2025; Carioca de 2026.

Portanto, também seria incorreto afirmar que De la Cruz passou pelo Flamengo sem contribuir.

Ele participou de um período extremamente vencedor.

Mas participação em campanhas coletivas não encerra o debate sobre custo-benefício individual.

Flamengo investiu mais de R$ 100 milhões

A dimensão financeira torna a análise inevitável.

O Flamengo desembolsou aproximadamente R$ 77 milhões na cotação da época somente para tirar o jogador do River Plate.

Posteriormente, informações sobre a operação passaram a apontar um custo total superior a R$ 102 milhões, incluindo direitos, luvas e intermediação.

Em julho deste ano, o próprio presidente do Peñarol citou a dimensão do investimento rubro-negro ao reconhecer a dificuldade de contratar o jogador.

Não se trata, portanto, de uma contratação de baixo risco.

De la Cruz chegou como uma das grandes apostas da gestão anterior.

E mesmo assim já demonstrou vontade de sair

Existe ainda outro elemento que pesa na avaliação.

Em 2024, quando surgiram especulações sobre um possível retorno ao River Plate, De la Cruz afirmou publicamente que não pensava em deixar o Flamengo.

Dois anos depois, o cenário mudou.

Em julho de 2026, o Peñarol iniciou conversas para tentar levá-lo de volta ao Uruguai.

O clube uruguaio recebeu uma sinalização positiva do próprio jogador.

O presidente do Peñarol, Ignacio Ruglio, confirmou conversas com De la Cruz, Bap e José Boto e afirmou que o jogador demonstrava vontade de passar um período em seu país.

Segundo o dirigente, o uruguaio buscava também mais minutos em campo.

Poucos dias depois, informações de bastidores indicavam que De la Cruz já havia comunicado ao Flamengo seu interesse em deixar o clube.

A transferência acabou não acontecendo.

Em agosto, o próprio estafe do atleta divulgou uma nota comunicando o encerramento das negociações com o Peñarol, apesar da vontade existente entre as partes.

De la Cruz permaneceu no Flamengo.

A contradição da passagem pelo Flamengo

A situação de De la Cruz é curiosa.

O Flamengo possui um jogador de enorme capacidade técnica.

Mas precisa administrá-lo constantemente para tentar usufruir dessa capacidade.

Se joga muito, existe preocupação com carga.

Se o gramado é sintético, pode ser preservado.

Se há altitude, sua presença precisa ser avaliada.

Se apresenta fadiga ou estresse muscular, a carga é reduzida.

E, além disso, existem as lesões propriamente ditas.

Tudo isso ajuda a explicar por que, em um período no qual o Flamengo disputou 206 partidas, De la Cruz esteve em campo em apenas 98.

A diferença já passou de cem jogos.