Cristiano Ronaldo não precisava terminar sua história com Portugal dessa maneira.
Essa é a primeira coisa que penso quando olho para tudo que aconteceu nos últimos dias entre o maior jogador da história da seleção portuguesa e Jorge Jesus.
E faço questão de começar reconhecendo o tamanho de Cristiano.
Não estamos falando apenas de um grande jogador.
Estamos falando de um dos maiores jogadores da história do futebol mundial. De um atleta que ajudou a transformar a própria dimensão internacional da seleção portuguesa, que atravessou gerações, que quebrou recordes e que participou diretamente da conquista dos maiores títulos da história de Portugal.
Cristiano merece respeito.
Merece reconhecimento.
E, quando chegar definitivamente a hora, merece uma despedida do tamanho daquilo que representou.
Mas reconhecer tudo isso não significa dizer que Cristiano esteve certo na maneira como reagiu.
Eu não penso assim.
A história não pode retirar a autoridade do treinador
Existe um outro lado nessa história que precisa ser respeitado.
Jorge Jesus é o treinador da seleção portuguesa.
Foi escolhido para tomar decisões.
É ele quem escala, substitui, muda a estratégia e decide quem começa ou termina uma partida.
Nenhum jogador pode estar acima disso.
Nem mesmo Cristiano Ronaldo.
Pode existir uma discussão sobre a maneira como Jorge Jesus conduziu a situação. Cristiano ficou aquecendo durante um período considerável contra a Noruega e acabou não sendo utilizado. Houve conversas posteriores, versões diferentes sobre aquilo que teria sido combinado e uma deterioração evidente da relação.
Tudo isso pode e deve ser discutido.
Mas existe uma diferença entre questionar a condução de uma situação e negar ao treinador o direito de tomar a decisão final.
Se Jorge Jesus entende que Gonçalo Ramos deve começar uma partida, Cristiano precisa respeitar.
Se entende que Cristiano deve entrar aos 60 minutos, também.
E se durante o jogo o treinador muda de ideia e decide não utilizá-lo, por mais frustrante que seja para qualquer atleta, essa ainda é uma decisão que pertence ao treinador.
O currículo de Cristiano Ronaldo não pode funcionar como uma escalação automática.
A reação de Cristiano foi maior do que precisava
É justamente nesse ponto que tenho uma crítica ao comportamento de Cristiano.
Não gosto de chamar um jogador dessa dimensão de infantil. Acho uma palavra pesada demais para alguém que construiu uma carreira profissional extraordinária durante mais de duas décadas.
Mas considero sua reação impulsiva e desnecessária.
Cristiano Ronaldo sabe melhor do que praticamente qualquer jogador do mundo o peso de cada movimento que faz.
Se ele sai de uma concentração, não é apenas mais um atleta deixando um hotel.
Vira notícia em Portugal.
Vira notícia na Inglaterra.
Vira notícia na Espanha.
Vira notícia no Brasil.
Vira notícia no mundo.
Esse é o tamanho que Cristiano construiu para si próprio.
E tamanho também traz responsabilidade.
Por isso acredito que aquela decisão poderia ter sido conduzida de outra maneira.
Poderia existir discordância.
Poderia existir uma conversa dura.
Cristiano poderia posteriormente dar uma entrevista e apresentar sua versão dos acontecimentos.
Tudo isso seria legítimo.
Mas abandonar a concentração transformou uma divergência esportiva numa crise institucional.
E uma história tão grande não precisava caminhar para esse tipo de final.
A nova reunião pode corrigir o caminho
Agora existe uma possibilidade de reconstrução.
A Federação Portuguesa de Futebol tenta promover uma nova conversa entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus.
Jesus já demonstrou disponibilidade para participar.
A resposta de Cristiano é aguardada.
Eu espero sinceramente que ele aceite.
Mas não acredito que essa reunião deva acontecer para discutir se Cristiano precisa recuperar a titularidade.
Também não deveria servir para estabelecer quantos minutos ele terá em cada jogo.
Esse seria novamente o caminho errado.
A conversa deveria tratar de respeito, convivência e principalmente da maneira como uma história dessa dimensão pode terminar.
Talvez Cristiano ainda possa ajudar Portugal esportivamente.
Talvez Jorge Jesus ainda enxergue momentos em que sua experiência e sua capacidade possam ser importantes.
Mas uma coisa parece cada vez mais evidente: Cristiano já não vive na seleção portuguesa a mesma realidade de dez anos atrás.
E isso não diminui absolutamente nada daquilo que ele fez.
O tempo chega para todos
Esse talvez seja um dos momentos mais difíceis para qualquer grande atleta.
Durante anos, ele entra no estádio sabendo que será titular.
O time é construído em torno dele.
Os adversários montam estratégias pensando nele.
Os torcedores esperam que ele resolva.
Os treinadores sabem que têm um jogador diferente.
Até que um dia isso começa a mudar.
Não porque a história desapareceu.
Mas porque o futebol continua.
Lionel Messi também chegará a esse momento com a Argentina.
Luka Modric vive algo semelhante com a Croácia.
Outros gigantes já viveram.
Pelé viveu.
Maradona viveu.
Zidane viveu.
Ronaldo viveu.
Ronaldinho viveu.
O futebol sempre encontra novos protagonistas.
Isso não apaga os anteriores.
Cristiano precisa entender que deixar de ser titular absoluto de Portugal não significa deixar de ser Cristiano Ronaldo.
Esse talvez seja o ponto mais importante.
Portugal precisa saber homenageá-lo
Ao mesmo tempo, não concordo com a ideia de simplesmente virar a página como se Cristiano fosse apenas mais um jogador que perdeu espaço.
Não é.
Portugal precisa saber despedir-se dele.
O futebol precisa aprender a fazer isso com seus grandes ídolos.
Cristiano merece entrar uma última vez em um estádio português sabendo que aquele jogo pertence também à sua história.
Merece ouvir o estádio inteiro reconhecer aquilo que fez.
Merece vestir a camisa de Portugal, receber a braçadeira e ter a oportunidade de dizer adeus pela porta da frente.
Se for possível construir um grande jogo de despedida, melhor ainda.
Não como uma obrigação esportiva para Jorge Jesus.
Não como condição para Cristiano retornar.
Mas como reconhecimento histórico.
Uma homenagem não significa interferir na autoridade do treinador.
Significa apenas reconhecer que existem jogadores cuja trajetória ultrapassa os 90 minutos.
E Cristiano é um deles.
Jorge Jesus também precisa separar as coisas
Da mesma maneira, Jorge Jesus terá de demonstrar inteligência para conduzir esse processo.
Manter autoridade não significa tratar todos os jogadores como se tivessem exatamente a mesma história.
Dentro de campo, o critério precisa ser esportivo.
Fora dele, a gestão humana também existe.
Cristiano não pode escolher quando joga.
Mas também não deveria ser tratado como um jogador qualquer no momento em que talvez esteja chegando ao fim de uma passagem de mais de duas décadas pela seleção.
Existe espaço para as duas coisas.
Autoridade para o treinador.
Respeito para o ídolo.
Esse equilíbrio é possível.
E talvez seja exatamente isso que faltou nos últimos dias.
Uma última imagem diferente
Seria triste demais se uma das maiores histórias do futebol internacional terminasse com Cristiano Ronaldo deixando uma concentração depois de uma entrevista coletiva.
Não combina com aquilo que ele construiu.
Não deveria ser a última imagem.
Cristiano ainda tem a oportunidade de mudar esse final.
Aceitar a conversa não significa admitir que Jorge Jesus estava certo em tudo.
Também não significa renunciar à própria versão.
Significa compreender que algumas histórias são grandes demais para terminar no calor de uma discussão.
Jorge Jesus também pode fazer sua parte.
A Federação Portuguesa de Futebol pode ajudar.
E Portugal pode oferecer ao maior jogador de sua história aquilo que tantos ídolos não tiveram.
A oportunidade de escolher uma última página digna das centenas que vieram antes.
Cristiano Ronaldo não precisa voltar para provar que ainda manda na seleção.
Não precisa voltar para exigir titularidade.
Não precisa voltar para vencer uma disputa com Jorge Jesus.
Precisa voltar porque uma história desse tamanho merece terminar pela porta da frente.
Depois disso, o futebol continuará.
Como sempre continuou.
Mas a maneira como Cristiano sair será lembrada quase tanto quanto a maneira extraordinária como chegou.




