A discussão sobre o número de estrangeiros no futebol brasileiro ganhou força depois da decisão da CBF de reduzir gradualmente o limite de atletas de fora relacionados por partida. Hoje são nove; serão oito em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e cinco a partir de 2030.

Mas existe outra pergunta que merece ser feita antes de olhar apenas para a quantidade:

o que esses jogadores estão entregando ao futebol brasileiro?

Um levantamento do Fla Opina a partir dos números disponíveis da temporada mostra um cenário que vai muito além da ocupação de vagas nos elencos.

Os estrangeiros representam aproximadamente 25% dos jogadores da Série A, mas, em um recorte das primeiras 25 rodadas do Brasileirão, foram responsáveis por 194 dos 647 gols marcados.

Isso representa aproximadamente 30% de todos os gols do campeonato.

Em outras palavras: naquele momento da competição, um em cada quatro jogadores era estrangeiro, mas praticamente um em cada três gols tinha assinatura de alguém nascido fora do Brasil.

161 estrangeiros e um Brasileirão cada vez mais internacional

A Série A conta atualmente com cerca de 161 jogadores estrangeiros em seus elencos profissionais.

É um recorde para o futebol brasileiro, mas está longe de transformar o Brasileirão em uma competição dominada numericamente por atletas de fora.

Os estrangeiros correspondem a aproximadamente 25% dos jogadores da elite.

Para efeito de comparação, algumas das principais ligas europeias trabalham com percentuais significativamente superiores.

O que mudou no Brasil foi a capacidade de atração.

Argentina, Uruguai e Colômbia formam a espinha dorsal desse movimento.

A Argentina tem aproximadamente 49 jogadores na Série A. O Uruguai aparece com 31, enquanto a Colômbia tem cerca de 30.

Somados, são aproximadamente 110 atletas apenas dessas três nacionalidades.

Mas não é somente quantidade.

É produção.

194 gols estrangeiros em 25 rodadas

Após 25 rodadas do Brasileirão, os estrangeiros tinham marcado 194 dos 647 gols da competição.

Os argentinos lideravam o levantamento com 66 gols.

Os colombianos apareciam logo atrás, com 54.

Paraguaios haviam marcado 23 vezes e uruguaios, 22.

Esses quatro países sul-americanos respondiam por 165 dos 194 gols estrangeiros — aproximadamente 85% de toda a produção ofensiva internacional naquele recorte.

E havia gols de jogadores de 19 nacionalidades diferentes.

O Brasileirão deixou, portanto, de receber apenas argentinos e uruguaios em situações pontuais.

Existe hoje uma rede sul-americana — e cada vez mais internacional — dentro da principal competição do país.

O artilheiro é colombiano

Talvez nenhum exemplo seja mais visível nesta temporada do que Kevin Viveros.

O atacante colombiano do Athletico-PR chegou a 18 gols no Brasileirão, superou a marca de Luis Suárez em sua temporada de estreia no campeonato e entrou na disputa pelos maiores números já alcançados por estrangeiros desde o início da era dos pontos corridos.

Suárez marcou 17 vezes pelo Grêmio em 2023.

Viveros chegou a 18.

E o recorde de um estrangeiro em uma única edição do Brasileirão por pontos corridos continua pertencendo ao argentino Germán Cano, que marcou 26 gols pelo Fluminense em 2022.

Não estamos falando apenas de jogadores completando elenco.

Estamos falando de atletas disputando artilharia, decidindo partidas e ocupando posições de protagonismo.

E não são apenas gols

A influência também aparece na criação.

No fim do primeiro turno, o português Josué, do Coritiba, aparecia entre os grandes garçons do campeonato, com oito assistências.

Na mesma lista estavam nomes estrangeiros como Benavídez, Esquivel, Lucho Acosta e Puma Rodríguez.

Ou seja: quando o levantamento sai da simples contagem de atletas e passa a observar produção ofensiva, participação em gols e influência nas equipes, a presença estrangeira fica ainda mais evidente.

A Copa do Mundo mostrou algo ainda maior

Talvez o número mais impressionante nem esteja dentro do Brasileirão.

Está na Copa do Mundo de 2026.

Pela primeira vez na história, 32 jogadores que atuavam na Série A brasileira disputaram uma mesma edição do Mundial.

O recorde anterior era de 27 jogadores, registrado em 1974.

Mas existe uma diferença enorme entre os dois momentos.

Em 1974, 22 daqueles 27 atletas defendiam a Seleção Brasileira.

Em 2026, a história mudou.

Dos 32 jogadores do Brasileirão presentes na Copa, apenas sete estavam com o Brasil.

Os outros 25 defendiam seleções estrangeiras.

É mais do que o triplo do recorde anterior de jogadores de clubes brasileiros representando outros países em uma Copa, que era de sete em 2014.

Uruguai e Paraguai levaram sete jogadores do futebol brasileiro cada. O Equador levou cinco. A Colômbia, quatro. Argentina e Holanda tiveram um representante cada.

E 25 dos 32 jogadores que começaram a Copa vinculados ao Brasileirão ainda avançaram para a segunda fase.

Esse talvez seja um dos melhores indicadores da mudança de patamar do mercado brasileiro.

O campeonato não está apenas importando jogadores.

Ele passou a fornecer jogadores para seleções nacionais.

Quando o mundo passa a olhar para o Brasileirão

Esse efeito é difícil de medir apenas em gols e assistências.

Quando um uruguaio importante atua no Flamengo, um colombiano se torna artilheiro no Athletico ou um argentino representa sua seleção jogando no Palmeiras, existe também um efeito fora do Brasil.

Torcedores desses países passam a acompanhar os jogadores.

Imprensa estrangeira acompanha atuações, convocações, lesões e decisões.

Clubes brasileiros passam a circular com mais frequência em veículos internacionais.

Não é algo completamente novo.

Arrascaeta é um bom exemplo de como um lance produzido no futebol brasileiro consegue atravessar fronteiras.

Em 2019, o uruguaio marcou de bicicleta pelo Flamengo contra o Ceará. O gol foi eleito o mais bonito daquele Brasileirão e posteriormente apareceu entre os finalistas do Prêmio Puskás da FIFA de 2020.

Um lance ocorrido no Campeonato Brasileiro passou a disputar reconhecimento mundial.

Hoje, porém, esse processo acontece com uma quantidade muito maior de jogadores e nacionalidades.

O Flamengo também está dentro dessa transformação

O Flamengo é um dos clubes com maior presença estrangeira no elenco brasileiro.

Mas existe um dado curioso.

Em levantamento realizado no período posterior à Copa do Mundo, aproximadamente 23,3% dos gols do Flamengo naquele recorte tinham sido marcados por estrangeiros.

Era um índice abaixo da média observada entre os clubes da Série A naquele mesmo levantamento, de 28,2%.

Athletico-PR, Grêmio, Palmeiras e Vasco, por exemplo, tinham mais de 40% de seus gols marcados por estrangeiros no período.

Isso ajuda a mostrar que quantidade de jogadores estrangeiros e dependência esportiva não são necessariamente a mesma coisa.

Cada clube possui uma realidade diferente.

A discussão não termina nos números

A CBF apresenta outro lado importante desse debate.

Segundo estudo divulgado pela entidade, a participação dos estrangeiros com mais de 23 anos nos minutos da Série A aumentou de 7,8% em 2020 para 25% em 2026.

Ao mesmo tempo, a minutagem de brasileiros sub-23 caiu.

Somando brasileiros e estrangeiros, jogadores sub-23 representam atualmente 13,8% dos minutos disputados no país, percentual inferior ao observado em grandes ligas europeias.

É justamente essa redução de espaço para jogadores jovens que a CBF utiliza como uma das justificativas para diminuir gradualmente a quantidade de estrangeiros relacionados.

O problema existe.

A pergunta é se limitar estrangeiros será suficiente para resolvê-lo.

Isso será assunto para outro levantamento do Fla Opina.

Porque os números desta primeira pesquisa mostram outra realidade impossível de ignorar:

o jogador estrangeiro deixou de ser coadjuvante no Brasileirão.

Ele marca gols, dá assistências, disputa artilharia, defende seleções e ajuda a colocar clubes brasileiros diante de públicos que anteriormente pouco acompanhavam o campeonato.