O futebol brasileiro já não é visto pela Europa apenas como um fornecedor de jovens talentos. A capacidade de investimento dos principais clubes do país começa a mudar essa imagem — e o Flamengo aparece entre os grandes protagonistas dessa transformação.

Em reportagem publicada pelo jornal espanhol AS, o Brasileirão foi apresentado como um mercado cada vez mais poderoso, competitivo e internacional. A competição chegou ao recorde de 161 jogadores estrangeiros distribuídos entre os 20 clubes da Série A, superando os 157 registrados em 2025.

O Flamengo aparece na lista com nove jogadores estrangeiros de sete nacionalidades diferentes. O número coloca o clube rubro-negro entre os elencos mais internacionais do futebol brasileiro e reforça uma mudança que se tornou ainda mais evidente nas últimas janelas de transferências.

Brasil deixa de apenas vender jogadores

Durante décadas, os clubes brasileiros foram obrigados a negociar seus principais jogadores ainda jovens para equilibrar as contas. O destino habitual eram as ligas da Inglaterra, Espanha, Itália, França e Portugal.

Agora, embora o Brasil continue sendo um grande exportador, os clubes mais ricos também passaram a buscar jogadores no exterior, disputar atletas com equipes europeias e repatriar brasileiros que ainda possuem mercado no Velho Continente.

Especialistas ouvidos pelo jornal espanhol apontam o crescimento das receitas de televisão, patrocínios, premiações e bilheteria como fatores fundamentais para esse novo cenário. Os contratos oferecidos no Brasil também se tornaram mais competitivos, enquanto o Brasileirão passou a proporcionar visibilidade internacional e possibilidade de valorização.

A avaliação mais forte da reportagem compara o papel atual do futebol brasileiro na América do Sul ao exercido pela Premier League diante das ligas periféricas da Europa: o Brasil atrai talentos de outros países, desenvolve esses jogadores, oferece exposição e posteriormente consegue negociá-los por valores maiores.

Flamengo ajuda a elevar o patamar do mercado

O Flamengo é um dos clubes que mais contribuem para essa mudança de percepção.

A contratação de Lucas Paquetá por 42 milhões de euros tornou-se a maior operação da história do futebol brasileiro. Antes dele, o Rubro-Negro já havia investido 22 milhões de euros para contratar Samuel Lino junto ao Atlético de Madrid.

A reportagem espanhola ainda trata o retorno de Paquetá como uma possibilidade, mas a transferência foi concluída pelo Flamengo em janeiro de 2026. O negócio mostrou que um clube brasileiro já consegue retirar da Premier League um jogador em idade competitiva, com passagem pela Seleção Brasileira e mercado na Europa.

Não se trata apenas de trazer jogadores em final de carreira. A nova realidade envolve atletas valorizados, jogadores de seleções nacionais e nomes que poderiam continuar atuando em ligas europeias.

O Flamengo também passou a negociar diretamente com clubes como West Ham, Atlético de Madrid, Milan, Roma, Southampton e Dínamo de Moscou. É uma demonstração de que o Rubro-Negro deixou de ocupar apenas o lado vendedor da mesa.

Estrangeiros encontram vitrine no Brasileirão

A Argentina continua sendo o país com maior número de representantes na Série A, com 47 jogadores. Na sequência aparecem Uruguai, com 31, Colômbia, com 26, Paraguai, com 12, e Equador, com nove.

O campeonato também conta com jogadores provenientes da Europa, África, América Central e de mercados que, até recentemente, tinham pouca presença no futebol brasileiro.

Para muitos atletas sul-americanos, atuar no Brasil tornou-se uma oportunidade de disputar competições continentais, conquistar títulos, receber salários mais elevados e ficar mais próximo das respectivas seleções nacionais.

O Brasileirão funciona, assim, como uma ponte entre mercados menores e o futebol europeu. A diferença é que, atualmente, os clubes brasileiros possuem capacidade para manter esses jogadores por mais tempo e exigir valores maiores em futuras transferências.

Crescimento também exige responsabilidade

O aumento de estrangeiros e de grandes investimentos não representa apenas vantagens.

Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy ouvido pelo jornal espanhol, alertou para a necessidade de impedir que o crescimento do mercado comprometa a formação e o desenvolvimento dos jogadores brasileiros.

Os clubes precisam encontrar equilíbrio entre contratar jogadores prontos e continuar oferecendo espaço às categorias de base. No caso do Flamengo, esse debate ganha ainda mais importância pela tradição do Ninho do Urubu na formação de atletas.

A força financeira deve ser acompanhada por planejamento, observação de mercado e capacidade para transformar investimento em desempenho esportivo.