Hoje à frente do Monaco e vivendo sua primeira experiência como treinador no futebol europeu, Filipe Luís percorreu um caminho pouco comum até chegar ao banco de um dos clubes tradicionais da França. Menos de três anos depois de encerrar a carreira como jogador, o brasileiro passou pelas categorias de base do Flamengo, assumiu o time profissional, conquistou cinco títulos e voltou à Europa, agora do lado de fora das quatro linhas.
Em entrevista concedida à AFP, Filipe Luís voltou ao início dessa trajetória e usou uma definição que ajuda a entender a velocidade da transformação: chamou sua passagem pelo sub-17 do Flamengo de um “laboratório” para descobrir quem seria como treinador.
A experiência começou pouco tempo depois de uma despedida marcante dos gramados.
Filipe Luís encerrou a carreira em dezembro de 2023, diante do Cuiabá, no Maracanã. Naquele momento, fechava uma passagem de quatro anos e meio pelo clube que havia escolhido para retornar ao futebol brasileiro depois de mais de uma década na Europa.
Foram 176 partidas pelo Flamengo entre 2019 e 2023, com 112 vitórias, 32 empates e 32 derrotas. O lateral marcou quatro gols e conquistou dez títulos: Libertadores de 2019 e 2022, Brasileiros de 2019 e 2020, Copa do Brasil de 2022, Supercopas do Brasil de 2020 e 2021, Recopa Sul-Americana de 2020 e os Cariocas de 2020 e 2021.
Mas a transição para a nova profissão começou praticamente imediatamente.
Do vazio da aposentadoria ao campo de treino
Na entrevista, Filipe Luís contou que a aposentadoria deixou um vazio. Depois de anos vivendo diariamente o futebol de alto rendimento, chegou a experimentar outros interesses e atividades fora do esporte, mas percebeu rapidamente que queria continuar ligado ao jogo.
Pouco mais de um mês depois de deixar os gramados, já estava trabalhando na base do Flamengo.
Foi no sub-17 que começou a testar conceitos, entender a relação com jogadores e descobrir como gostaria de trabalhar. O próprio Filipe definiu aquele período como um “laboratório para me descobrir como treinador”.
A evolução foi acelerada.
Em 2024, conquistou a Copa Rio Sub-17 e, poucos meses depois, foi promovido ao sub-20. Na nova categoria, levantou a Copa Intercontinental Sub-20. Em setembro daquele mesmo ano, com a saída de Tite, foi chamado para comandar o time profissional.
O que havia começado como experiência nas categorias de base rapidamente passou a ser testado no nível mais alto do futebol brasileiro.
Cinco títulos no profissional
Filipe Luís assumiu o Flamengo profissional no fim de setembro de 2024 e conquistou a Copa do Brasil ainda naquela temporada.
Em 2025, o trabalho ganhou outra dimensão. Sob seu comando, o Flamengo conquistou a Supercopa do Brasil, o Campeonato Carioca, o Campeonato Brasileiro e a Libertadores.
Ao deixar o clube em março de 2026, Filipe Luís havia comandado o Flamengo em 101 partidas, com 63 vitórias, 23 empates e 15 derrotas, além de aproveitamento de 69,9%.
Os cinco títulos conquistados como treinador profissional o colocaram entre os técnicos mais vencedores da história do clube.
A passagem também produziu uma marca histórica: Filipe Luís tornou-se o primeiro nome a conquistar a Libertadores pelo Flamengo como jogador e como treinador. Em campo, havia levantado a taça em 2019 e 2022. No banco, repetiu o feito em 2025.
Do Flamengo ao Monaco
Depois de deixar o Flamengo, Filipe Luís permaneceu alguns meses fora do trabalho diário até ser anunciado pelo Monaco em julho de 2026.
O clube francês assinou contrato com o brasileiro até junho de 2028 e destacou, no anúncio, justamente a velocidade de sua ascensão como treinador e os títulos conquistados no Brasil.
A mudança também representou uma volta ao continente onde Filipe Luís construiu grande parte da carreira como jogador.
Antes de chegar ao Flamengo em 2019, o lateral havia passado por clubes como Deportivo La Coruña, Atlético de Madrid e Chelsea. Foram 333 partidas apenas pelo Atlético de Madrid, além de títulos importantes no futebol espanhol e inglês.
Agora, o retorno à Europa acontece em outra função e com uma identidade de jogo que começou a ser construída no Brasil.
Influências de grandes treinadores
Filipe Luís também falou sobre as referências que carrega para a profissão.
Diego Simeone, com quem trabalhou durante anos no Atlético de Madrid, aparece como uma das maiores influências. José Mourinho, seu treinador no Chelsea, também é citado.
A passagem pelo Flamengo acrescentou outra referência importante: Jorge Jesus.
Foi sob o comando do português que Filipe Luís viveu uma das temporadas mais marcantes da carreira, em 2019, conquistando Libertadores e Campeonato Brasileiro.
Pep Guardiola completa a lista de treinadores que ajudaram a formar sua visão sobre o futebol.
Mesmo com essas influências, Filipe Luís insiste na construção de uma identidade própria. Sua proposta passa por pressionar alto quando a equipe perde a bola e controlar o jogo quando tem a posse, além de estimular competição interna e responsabilidade individual dentro do elenco.
O Flamengo como ponto de partida
Olhando para a trajetória completa, a palavra “laboratório” ganha ainda mais peso.
Filipe Luís não deixou os gramados e recebeu imediatamente uma equipe profissional. Passou pela formação de jogadores, comandou adolescentes, avançou ao sub-20 e só depois recebeu a oportunidade no time principal.
Esse processo ocorreu dentro do mesmo clube em que havia encerrado a carreira como jogador.
Em menos de dois anos como treinador profissional do Flamengo, conquistou cinco títulos, chegou ao topo da América do Sul e abriu caminho para sua primeira oportunidade na Europa.
Hoje, aos 41 anos, Filipe Luís tenta escrever um novo capítulo no Monaco.
Mas ao relembrar os primeiros meses depois da aposentadoria, o próprio treinador reconhece onde começou a descobrir essa nova versão de si mesmo: nas categorias de base do Flamengo.




