O Flamengo ainda joga menos do que pode

Talvez esse seja o aspecto mais difícil de compreender no Flamengo atual: durante alguns minutos, vemos um time com futebol de campeão. Pouco depois, parece que estamos assistindo a outra equipe.

O Flamengo consegue dominar adversários, controlar o meio-campo, construir oportunidades e apresentar um futebol compatível com a qualidade de seu elenco. Mas essa superioridade frequentemente não dura noventa minutos.

E isso já não pode ser tratado apenas como uma oscilação normal de uma temporada longa.

O Flamengo tem jogadores demais, investimento demais e qualidade individual demais para aceitar como natural essa diferença tão grande entre seus melhores e piores momentos.

Contra o Botafogo tivemos novamente uma demonstração disso.

O Flamengo fez um primeiro tempo de controle, superioridade e autoridade. Samuel Lino marcou, a equipe teve enorme domínio da posse e deu a impressão de que poderia construir uma vitória tranquila.

Depois do intervalo, mudou.

O Botafogo cresceu, o Flamengo perdeu controle e passou um período considerável sem apresentar o mesmo futebol.

No fim, a qualidade individual resolveu.

Carrascal entrou, encontrou Samuel Lino para o segundo gol e depois marcou o terceiro.

O placar terminou em 3 a 0.

Quem olhar apenas o resultado verá uma goleada.

Quem assistiu ao jogo viu uma história um pouco mais complexa.

Um Flamengo de extremos

Esse comportamento não apareceu apenas contra o Botafogo.

O Flamengo de 2026 tem sido um time de extremos.

Existem momentos em que consegue sufocar adversários e apresentar talvez o melhor futebol do país.

Pulgar e Jorginho controlam o centro do campo. Samuel Lino encontra espaços por dentro. Pedro oferece referência. Carrascal consegue mudar o ritmo quando participa.

Quando tudo funciona, existe uma sensação evidente de superioridade.

O problema é o que acontece quando esse funcionamento desaparece.

A intensidade cai.

A posse deixa de produzir.

O adversário começa a encontrar espaços.

E um time que parecia absoluto dez minutos antes passa a depender de alguma jogada individual para recuperar o controle.

É uma diferença grande demais.

Individualidades têm resolvido problemas coletivos

Ter jogadores capazes de decidir partidas é uma qualidade.

Nenhum grande time vence sem individualidades.

O problema começa quando a individualidade deixa de ser complemento e passa a funcionar como solução recorrente para dificuldades coletivas.

Samuel Lino vive excelente momento.

Carrascal começou a entrar e decidir.

Pedro continua sendo uma referência técnica e goleadora.

Jorginho encontra passes que poucos jogadores do futebol brasileiro enxergam.

Pulgar consegue equilibrar setores inteiros praticamente sozinho.

O Flamengo possui esse privilégio.

Só que justamente por possuir tantos jogadores desse nível deveria depender menos de lampejos individuais.

Uma equipe com tantas alternativas precisa transformar talento em funcionamento coletivo.

Esse ainda é o desafio de Leonardo Jardim.

Não falta elenco

Aqui também não existe mais espaço para determinadas desculpas.

O Flamengo investiu.

Contratou.

Renovou.

Manteve jogadores importantes.

Agora chegam Anthony Valencia e Joaquín Freitas para aumentar ainda mais as alternativas ofensivas.

É possível discutir se cada contratação foi correta ou se determinadas posições poderiam ter recebido outro perfil de jogador.

Mas não é possível afirmar que Leonardo Jardim trabalha com poucas opções.

O Flamengo tem elenco para apresentar mais futebol.

Esse é justamente o motivo pelo qual a cobrança deve existir.

Não se cobra desse time porque ele é ruim.

Cobra-se porque sabemos até onde ele pode chegar.

O perigo de confundir resultado com desempenho

O futebol possui uma tentação permanente: explicar tudo pelo placar.

Venceu? Está tudo certo.

Perdeu? Está tudo errado.

Não funciona assim.

Uma equipe pode vencer e apresentar problemas.

Pode perder jogando bem.

E pode construir uma sequência positiva enquanto acumula defeitos que aparecerão justamente nos jogos mais importantes.

É isso que o Flamengo precisa observar agora.

A vitória sobre o Botafogo foi excelente.

Três pontos importantes, três gols e protagonistas aparecendo.

Mas o 3 a 0 não deve apagar o período em que o Flamengo permitiu que o adversário assumisse o jogo.

Na Libertadores, determinados adversários não perdoarão esses momentos.

No Campeonato Brasileiro, partidas assim podem transformar vitórias em empates.

Jardim ainda precisa encontrar constância

Não acredito que o problema seja simplesmente escolher onze jogadores e repeti-los.

O desafio é maior.

Leonardo Jardim precisa fazer o Flamengo reconhecer sua própria maneira de jogar independentemente do momento da partida.

Times campeões também sofrem.

Também são pressionados.

Também passam quinze ou vinte minutos ruins.

A diferença está na capacidade de reduzir esses períodos e recuperar o controle sem necessariamente precisar que um jogador invente alguma coisa.

O Flamengo ainda está tentando alcançar esse estágio.