O Flamengo montou um dos elencos mais profundos do futebol brasileiro.
Há alternativas praticamente em todos os setores, jogadores capazes de exercer mais de uma função e uma disputa por espaço que aumentou ainda mais com as últimas movimentações no mercado.
Mas elenco numeroso não significa que todas as peças sejam substituíveis.
O Flamengo de Leonardo Jardim ainda possui jogadores cuja ausência modifica não apenas a escalação, mas principalmente a maneira como o time funciona.
Hoje, quatro nomes se destacam nessa discussão: Erick Pulgar, Jorginho, Samuel Lino e Pedro.
E talvez o mais difícil de substituir não seja necessariamente aquele que faz mais gols.
Pulgar: o equilíbrio que aparece quando falta
Erick Pulgar talvez seja o caso mais evidente.
O chileno voltou de lesão, recuperou rapidamente a titularidade e retomou a parceria com Jorginho. Desde então, voltou a ser tratado internamente como peça praticamente intocável.
O motivo está na função.
Pulgar protege a frente da área, ocupa espaços deixados pelos laterais, ganha duelos e permite que outros jogadores tenham maior liberdade.
Contra o Cruzeiro, pelo Brasileirão, houve uma demonstração clara dessa importância.
Pulgar saiu durante o segundo tempo. Evertton Araújo entrou em seu lugar e o Flamengo perdeu proteção no meio. O Cruzeiro conseguiu a virada posteriormente.
Uma partida isolada não prova dependência.
Mas ajuda a revelar algo que já aparece em outros jogos: o Flamengo possui outros volantes, porém nenhum reproduz exatamente o equilíbrio oferecido pelo chileno.
Não por acaso, o clube acelerou sua renovação contratual até 2028.
Jorginho: substituir o jogador é possível; substituir o controle é outra história
Jorginho representa uma dependência diferente.
O Flamengo possui jogadores tecnicamente capazes de ocupar sua posição.
O problema é reproduzir sua função.
Jorginho organiza a primeira construção, controla ritmo, oferece linha de passe aos zagueiros e determina quando o Flamengo precisa acelerar ou diminuir a velocidade da partida.
Quando ele está em campo, o time tende a ter uma referência clara para iniciar as jogadas.
Não é coincidência que Jardim tenha retomado rapidamente a dupla Pulgar-Jorginho quando ambos ficaram disponíveis depois da intertemporada. O próprio planejamento do treinador apontava os dois como peças importantes para a sequência da temporada.
Pulgar protege.
Jorginho organiza.
Separar essas duas funções ajuda a entender por que os dois podem ser considerados difíceis de substituir ao mesmo tempo.
Samuel Lino: o jogador que passou a resolver problemas diferentes
Samuel Lino entra na lista por outro motivo.
Produção ofensiva.
No primeiro turno do Brasileirão, já aparecia entre os principais garçons da competição, com sete assistências. Depois, continuou crescendo e chegou à reta final de agosto como um dos jogadores mais decisivos do Flamengo.
Mas os números contam apenas parte da história.
Lino pode jogar aberto, por dentro e como articulador. Jardim já chegou a utilizá-lo como camisa 10 quando Arrascaeta não estava disponível.
Contra o Botafogo, voltou a mostrar outra característica: atacar profundidade e concluir.
Fez dois gols.
Isso cria um problema para qualquer substituto.
Não basta colocar outro ponta esquerda.
É preciso substituir as diferentes funções que Lino passou a exercer.
Pedro: existe substituto no elenco, mas não existe outro Pedro
A contratação de Joaquín Freitas aumentará as alternativas ofensivas.
Mas não muda uma característica importante do elenco.
O Flamengo não possui outro centroavante com o mesmo perfil de Pedro.
O camisa 9 oferece presença física, capacidade aérea, proteção de bola e finalização. Em 2026, acrescentou ainda participação criativa: até 21 de agosto acumulava 24 gols e sete assistências.
Freitas pode jogar centralizado.
Bruno Henrique também pode atuar na posição.
Jardim pode até montar uma equipe sem centroavante tradicional.
Mas nenhuma dessas escolhas reproduz Pedro.
São alternativas táticas.
Não substitutos de características.
Então quem é o mais difícil de substituir?
É justamente aqui que a discussão fica interessante.
Samuel Lino talvez seja hoje o jogador ofensivo em melhor momento.
Pedro possui características que nenhum outro atacante reproduz.
Jorginho controla uma parte fundamental da construção.
Mas Pulgar talvez seja atualmente a peça cuja ausência mais modifica o equilíbrio coletivo do Flamengo.
O elenco oferece alternativas para quase tudo.
Quando Lino não joga, Jardim pode mudar a estrutura ofensiva.
Quando Pedro não joga, pode utilizar um ataque mais móvel.
Sem Jorginho, existem outros jogadores capazes de iniciar a construção, ainda que com características diferentes.
Com Pulgar, a substituição parece mais complicada.
O Flamengo tem Evertton Araújo, De la Cruz e outras possibilidades de composição no meio.
Mas nenhum reúne exatamente a mesma capacidade de proteger a defesa, ocupar espaço, competir fisicamente e ainda participar da circulação.
Isso não significa que Pulgar seja necessariamente o melhor jogador do Flamengo.
Significa algo diferente.
Talvez seja o mais difícil de substituir sem mudar o time.




