O Flamengo corre contra o tempo para tentar resolver uma situação que não nasceu agora. Erick Pulgar tem contrato até o fim de 2027, mas a multa rescisória prevista em sua última renovação caiu para US$ 4 milhões nesta janela — cerca de R$ 20,8 milhões na cotação atual. Com ofertas do exterior e uma contraproposta ainda sem resposta, o chileno quer definir o futuro até a próxima semana.

A pergunta do Fla Opina é simples: por que o Flamengo deixou o caso chegar tão longe?

Não estamos falando de um jogador periférico ou que perdeu espaço. Pulgar é titular de Leonardo Jardim, tem quatro anos de clube, identificação com a torcida e exerce uma função que nem sempre aparece nas estatísticas, mas fica clara no funcionamento do time.

Aos 32 anos, o chileno continua entregando intensidade, marcação, inteligência na ocupação dos espaços e qualidade para iniciar as jogadas. É competitivo e sabe jogar partidas grandes. Em um elenco recheado de jogadores mais jovens e contratados por valores elevados, Pulgar continua sendo um dos nomes que oferecem equilíbrio ao meio-campo.

Por isso, reduzir a discussão à idade seria um erro.

O primeiro problema aconteceu lá atrás

Quando o Flamengo renovou com Pulgar em março de 2025, o novo contrato foi assinado até o fim de 2027. Naquele acordo, entretanto, ficou prevista a redução da multa rescisória para US$ 4 milhões a partir do meio de 2026.

Foi uma escolha conhecida pelo clube. José Boto chegou a explicar publicamente a filosofia de trabalhar em alguns contratos com multas mais factíveis, evitando negociações longas e permitindo que, caso algum interessado pagasse a cláusula, o Flamengo recebesse o dinheiro à vista.

A estratégia pode ter lógica administrativa. Mas futebol também exige avaliar o tamanho esportivo do ativo colocado nessa condição.

No caso de Pulgar, cerca de R$ 20 milhões representam muito pouco diante da importância do volante. Um clube estrangeiro não precisa abrir uma longa negociação com a diretoria. Havendo acordo com o jogador e pagamento da cláusula, o Flamengo praticamente não tem poder de reação.

Esse foi o primeiro risco assumido.

O erro maior foi deixar o tempo passar

Ainda havia uma oportunidade clara para evitar que o problema chegasse ao ponto atual. A redução da multa não apareceu de surpresa em julho. Ela estava prevista no contrato.

Em março deste ano, meses antes de o novo valor entrar em vigor, a situação já era conhecida publicamente. Pulgar continuava valorizado esportivamente e o próprio Flamengo entendia que seria necessário tratar de uma nova valorização.

Abril passou. Maio passou. Junho passou. A janela chegou, a multa baixou e os interessados apareceram.

Somente no fim de julho, segundo o ge, a diretoria apresentou uma nova proposta para renovar por mais um ano e aumentar novamente a multa. Pulgar não aceitou a primeira oferta, apresentou contraproposta e aguarda retorno.

Agora o cenário é outro.

O jogador tem propostas mais vantajosas financeiramente no exterior, embora ainda dê prioridade ao Flamengo. Segundo a apuração, estaria disposto inclusive a ganhar menos do que poderia receber fora para permanecer no Rio, desde que seja valorizado em um patamar compatível com outros nomes importantes do elenco.

O mercado não criou o problema

Se Pulgar estivesse decidido a sair, a discussão seria diferente. Jogadores encerram ciclos e procuram novos mercados. Faz parte do futebol.

Mas quando existe vontade de permanecer e o risco contratual era conhecido com antecedência, o Flamengo precisava ter tratado a questão antes de chegar ao limite.

Agora, com propostas na mesa, a capacidade de negociação é menor. O que poderia ter sido uma conversa tranquila meses atrás virou uma corrida contra o relógio.

E, caso Pulgar saia por US$ 4 milhões, o problema não termina com a entrada desse dinheiro. O Flamengo terá que encontrar alguém capaz de oferecer marcação, passe, leitura tática, experiência e liderança — e provavelmente gastará muito mais para tentar substituir aquilo que já tinha dentro de casa.