Uma demora de poucos minutos no vestiário virou uma conta superior a meio milhão de reais para o Flamengo.
A Conmebol puniu o clube em US$ 60 mil e o técnico Leonardo Jardim em mais US$ 40 mil pelo atraso no reinício da vitória por 2 a 0 sobre o Independiente del Valle, em Quito, pela ida das quartas de final da Libertadores.
Na conversão divulgada junto com a decisão, a soma fica próxima de R$ 510 mil. E o detalhe que ajuda a explicar o tamanho da punição está no regulamento da competição: na fase eliminatória, atraso não é tratado como uma simples ocorrência administrativa. Clube e treinador podem ser punidos separadamente e os valores aumentam conforme a infração e eventual reincidência.
Mas para entender o episódio é preciso voltar àquela noite de 10 de setembro, no Estádio Olímpico Atahualpa.
O intervalo que mudou o jogo
O Flamengo chegou a Quito enfrentando um cenário que já preocupava a comissão técnica antes mesmo de a bola rolar.
O estádio está a aproximadamente 2.850 metros de altitude, e Leonardo Jardim havia preparado o time levando em consideração o desgaste físico provocado pelas condições da cidade. O gramado do Atahualpa também apresentava falhas, e o caminho entre os vestiários e o campo era longo, com uma escadaria que aumentava o esforço dos jogadores naquele ambiente.
Dentro de campo, o primeiro tempo mostrou o tamanho da dificuldade.
O Independiente del Valle controlou a partida, empurrou o Flamengo para trás e terminou a etapa inicial com dez finalizações contra nenhuma do Rubro-Negro. Carlos González ainda acertou a trave de Rossi aos 20 minutos.
O Flamengo sobreviveu.
E foi justamente antes de um segundo tempo completamente diferente que aconteceu o atraso posteriormente registrado pela Conmebol.
Não há indicação pública de que a demora tenha ocorrido por questões táticas, mas aquele intervalo foi importante esportivamente. Depois do jogo, Jardim admitiu que sua equipe havia encontrado dificuldades na primeira etapa e explicou que esperava uma redução da intensidade do Del Valle após o descanso.
Foi exatamente o que aconteceu.
Aos 16 minutos do segundo tempo, Jorginho encontrou Samuel Lino pela esquerda. O atacante cruzou e Bruno Henrique marcou. Era a primeira finalização do Flamengo no gol durante toda a partida.
Pouco depois, Emerson Royal cruzou e Léo Pereira apareceu na área para fazer o segundo.
O Flamengo que não havia conseguido acertar o gol durante todo o primeiro tempo saiu de Quito com uma vitória por 2 a 0 e encaminhou a classificação que seria confirmada uma semana depois no Maracanã.
Como funciona a regra da Conmebol
É aqui que a punição começa a fazer mais sentido.
O regulamento da Libertadores separa o atraso no início da partida do atraso para o começo do segundo tempo.
Quando jogadores ou membros da comissão técnica são responsáveis pelo retorno tardio após o intervalo, clube e treinador podem ser responsabilizados ao mesmo tempo.
Nas oitavas de final, quartas de final, semifinal e final, a tabela disciplinar prevê para a primeira ocorrência multa mínima de US$ 20 mil ao clube, além de US$ 15 mil ao treinador por minuto de atraso.
Em caso de segunda ocorrência ou infrações posteriores, o peso aumenta: a punição mínima do clube pode chegar a US$ 30 mil, enquanto o treinador fica sujeito a US$ 20 mil por minuto de atraso.
Por isso, aquilo que para quem acompanha o jogo pela televisão pode parecer uma demora quase irrelevante entre os dois tempos pode rapidamente virar uma despesa de centenas de milhares de reais.
No caso de Quito, a decisão da Conmebol estabeleceu US$ 60 mil para o Flamengo e US$ 40 mil para Leonardo Jardim.
O Flamengo ainda pode recorrer.
Dinheiro nem passa pela conta do Flamengo
Há outro detalhe importante na punição.
O clube não precisa simplesmente receber um boleto e transferir o dinheiro para a Conmebol. Os US$ 60 mil aplicados ao Flamengo serão descontados das receitas que o clube tem a receber da entidade, relacionadas aos direitos de transmissão e patrocínios da Libertadores.
A punição de Jardim é individual.
A consequência financeira acontece justamente numa campanha em que avançar de fase aumenta significativamente as receitas rubro-negras. Ou seja: parte do dinheiro conquistado dentro de campo acaba retornando à própria Conmebol por uma infração administrativa.
E não foi o único problema daquela noite
O atraso no segundo tempo ainda não encerra o relatório de Quito.
O Flamengo recebeu também uma advertência por descumprimento dos protocolos de entrevistas e zona mista.
A logística no Atahualpa ajuda a entender o episódio. A distância entre o vestiário e a área destinada às entrevistas era grande, e o trajeto envolvia a mesma estrutura de escadas que já havia chamado atenção pelo impacto físico causado pela altitude.
O clube optou por encaminhar os atletas de maneira diferente após a partida, mas a regra da Conmebol determina que os jogadores devem passar pela zona mista mesmo quando não pretendem conceder entrevistas.
Desta vez houve advertência, e não uma nova multa financeira.
O episódio transforma uma das melhores vitórias do Flamengo na Libertadores em uma noite que continuou produzindo consequências quase duas semanas depois.
Dentro de campo, aquele segundo tempo mudou completamente a situação rubro-negra no confronto.
Fora dele, os minutos anteriores ao reinício custaram caro.




