O Flamengo recebeu uma notícia importante fora de campo em meio à crise provocada pela proibição das casas de apostas no Brasil. O Governo Federal esclareceu que clubes, fabricantes e lojistas poderão continuar comercializando camisas produzidas anteriormente com marcas de empresas do setor, incluindo os uniformes rubro-negros que estampam a Betano.

A orientação representa um alívio para o Flamengo, que enfrentava o risco de acumular um estoque estimado entre 100 mil e 150 mil camisas sem condições de comercialização. Entretanto, a autorização possui limites claros: ela permite a venda das peças antigas, mas não libera novamente a exposição publicitária das bets durante partidas ou treinamentos.

A medida surge poucos dias depois da entrada em vigor das restrições determinadas pela Medida Provisória nº 1.394/2026, que alterou drasticamente a relação entre as casas de apostas e o futebol brasileiro.

Governo esclarece situação das camisas já fabricadas

A autorização foi apresentada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), em resposta a um questionamento da Associação pela Indústria e Comércio Esportivo (Ápice).

A entidade reúne empresas do setor de artigos esportivos e procurou esclarecer como ficaria a comercialização de produtos fabricados legalmente antes da mudança nas regras.

O principal argumento era que essas mercadorias já estavam inseridas na cadeia comercial e haviam sido produzidas sob uma legislação diferente.

Na interpretação apresentada pela Secom, a simples venda de uma camisa fabricada anteriormente não constitui, por si só, uma nova campanha publicitária ou uma nova ação de patrocínio.

A diferença está na finalidade da operação. Comercializar uma mercadoria existente é uma atividade diferente de produzir novas peças com uma marca proibida ou organizar campanhas para promover uma empresa de apostas.

Essa distinção permite que os estoques antigos cheguem ao consumidor sem que fabricantes e comerciantes precisem descartar produtos já confeccionados.

Flamengo tinha até 150 mil camisas sob risco comercial

A situação era especialmente sensível para o Flamengo pelo tamanho de sua operação comercial.

Segundo levantamento divulgado anteriormente pelo UOL, o clube possuía um estoque estimado entre 100 mil e 150 mil camisas com a marca Betano, incluindo produtos destinados à comercialização.

O problema ganhou proporções maiores porque parte dos uniformes passou a ser fabricada já com o patrocinador master aplicado, diferentemente de modelos nos quais a marca poderia ser colocada posteriormente.

Isso significa que simplesmente retirar a identificação da Betano não seria necessariamente uma solução simples para todas as peças.

Com a mudança nas regras, surgiu o risco de milhares de camisas permanecerem sem saída comercial, criando dificuldades para fabricantes, distribuidores, lojas e para a cadeia de produtos oficiais do clube.

A orientação do governo reduz essa ameaça ao permitir o escoamento do estoque existente.

Entretanto, não há confirmação de que todas as unidades serão vendidas, nem de quanto dinheiro efetivamente será recuperado com a comercialização. O resultado dependerá da demanda dos consumidores e das condições de venda.

Torcedor poderá comprar a camisa, mas jogadores não poderão usá-la em campo

Um dos pontos mais importantes da autorização está na diferença entre a comercialização dos produtos e a publicidade durante eventos esportivos.

O Flamengo poderá manter à venda os uniformes que já tenham sido fabricados antes da mudança nas regras e que atendam às condições estabelecidas pelo governo.

Por outro lado, a orientação não autoriza o clube a voltar a utilizar a marca Betano em jogos, treinamentos, instalações esportivas ou novas campanhas promocionais.

Também não representa autorização para produzir novos lotes com a identidade visual da empresa de apostas.

Na prática, cria-se uma situação incomum: o torcedor poderá encontrar nas lojas uma camisa com a Betano, enquanto os jogadores deverão continuar entrando em campo sem o mesmo patrocinador, salvo uma nova mudança no cenário jurídico.

Isso ocorre porque a comercialização de mercadorias antigas foi tratada de maneira diferente da exposição publicitária realizada após a proibição.

Contrato milionário continua sem solução definitiva

Apesar do alívio comercial, o maior problema financeiro do Flamengo permanece.

O clube mantém com a Betano um acordo de aproximadamente R$ 268,5 milhões por temporada, firmado em 2025 e previsto originalmente para continuar até o final de 2028.

O contrato representa uma das maiores receitas comerciais do futebol brasileiro e se tornou uma peça relevante do planejamento financeiro rubro-negro.

A possibilidade de vender os uniformes já produzidos não significa que o clube esteja autorizado a retomar normalmente o patrocínio master.

São duas questões distintas.

A primeira envolve produtos que já estavam fabricados e poderiam perder valor comercial. A segunda diz respeito à continuidade de um contrato que previa exposição da marca, campanhas e contrapartidas publicitárias durante várias temporadas.

A definição sobre o futuro dessa parceria continua dependente dos desdobramentos jurídicos e regulatórios da proibição das apostas.

O Supremo Tribunal Federal analisa questionamentos relacionados à medida provisória, mas a autorização para vender camisas antigas não antecipa nem substitui uma decisão sobre a legalidade das restrições.

Decisão também pode beneficiar outros clubes

O Flamengo não é o único clube afetado pela mudança nas regras.

Diversas equipes brasileiras haviam incorporado marcas de apostas aos uniformes, criando estoques de produtos e contratos comerciais que não poderiam ser modificados imediatamente.

A possibilidade de vender mercadorias antigas beneficia a cadeia esportiva de maneira mais ampla, incluindo fabricantes, distribuidores, varejistas e clubes.

Ainda assim, as estratégias adotadas pelas equipes são diferentes. Algumas passaram a utilizar outras marcas nos uniformes, enquanto outras mantêm espaços sem patrocinador ou buscam alternativas comerciais.

Para o Flamengo, o esclarecimento representa uma redução de danos em um problema que envolve cifras muito maiores do que a venda de camisas.

O clube ganhou uma saída para o estoque já fabricado, mas continua diante de uma questão decisiva: como preservar a receita comercial de seu principal patrocinador caso a proibição permaneça em vigor.

A autorização resolve uma parte operacional da crise. O futuro financeiro da parceria com a Betano, entretanto, segue indefinido.