Flamengo líder do Brasileirão: raça acima do talento

Tem dias em que não é só talento.

Tem dias em que é vontade, raça, amor e paixão.

E talvez poucas frases expliquem tão bem aquilo que significa vestir o manto rubro-negro quanto essas.

O Flamengo que entrou em campo diante do Remo, no Mangueirão, não apresentou aquela partida tecnicamente perfeita que todos nós gostamos de assistir. Não foi uma noite de futebol bonito durante os 90 minutos. Não foi um daqueles jogos em que a qualidade individual resolve tudo com facilidade.

Foi diferente.

Foi uma partida de vontade de ser campeão brasileiro.

E, para mim, isso vale muito.

O clima esteve presente de todas as maneiras possíveis em Belém. Calor, sensação abafada, estádio cheio, pressão da torcida adversária e, depois, uma chuva intensa que praticamente transformou o gramado em outro campo.

Mas existia também outro clima.

O clima dentro do Flamengo.

Era intensidade. Era entrega. Era vontade. Era um time entendendo que aqueles três pontos poderiam representar muito mais do que simplesmente uma vitória fora de casa.

Naquele campo, em determinado momento, não havia como o talento falar mais alto.

A bola não corria normalmente. O gramado ficou pesado. Jogadas trabalhadas ficaram cada vez mais difíceis. Aquilo que normalmente diferencia os jogadores tecnicamente mais fortes perdeu espaço para outra característica.

A raça precisou superar o talento.

E superou.

Não foi o Flamengo mais bonito. Foi o Flamengo que precisava vencer

É claro que queremos ver um Flamengo dominante, técnico, trocando passes, criando oportunidades e controlando seus adversários.

Esse é o tamanho do elenco que o clube possui.

Mas quem acompanha Campeonato Brasileiro sabe que título não é conquistado somente nos dias bonitos.

Campeão também precisa saber jogar quando tudo parece complicado.

Precisa ganhar quando o gramado não ajuda.

Precisa suportar pressão.

Precisa enfrentar estádio hostil.

Precisa entender que, às vezes, não haverá espaço para espetáculo.

Contra o Remo foi assim.

Samuel Lino apareceu para marcar o gol da vitória por 1 a 0 e o Flamengo protegeu uma vantagem que, àquela altura, valia ouro.

Quando o jogo acabou, os 54 pontos estavam garantidos.

Faltava esperar.

Horas depois, Botafogo e Palmeiras empataram sem gols no Nilton Santos. O Palmeiras chegou aos 53 pontos.

E aquilo que começou a ser construído debaixo da chuva em Belém virou realidade:

o Flamengo é líder do Campeonato Brasileiro.

Pela primeira vez nesta edição, o Rubro-Negro chegou ao topo.

Agora esperamos que seja para não sair mais.

A torcida também jogou

Mas existe uma imagem dessa noite que, para mim, não pode passar despercebida.

A torcida do Flamengo.

O torcedor visitante precisou pagar R$200 pela arquibancada e R$400 pela cadeira no Mangueirão. Apenas 10% da carga estava destinada aos flamenguistas.

E mesmo assim os ingressos do setor visitante esgotaram rapidamente.

Quando a bola rolou, a Nação estava lá.

Cantando.

Empurrando.

Transformando uma parte do Mangueirão em arquibancada rubro-negra.

E que festa.

Não sei quantas vezes aquele estádio recebeu uma torcida visitante capaz de produzir uma imagem daquela dimensão, mas tenho certeza de uma coisa: o Flamengo não esteve sozinho em Belém.

A torcida também enfrentou preço alto, deslocamento, chuva e toda a atmosfera de uma partida decisiva.

E fez sua parte.

Foi bonito de ver porque existe uma conexão muito clara entre aquilo que acontecia dentro e fora do campo.

Na arquibancada havia paixão.

Dentro das quatro linhas havia entrega.

O Flamengo mostrou que quer essa taça

O que fica deste domingo, véspera do 7 de Setembro?

Fica, evidentemente, a primeira posição na tabela.

Flamengo, 54 pontos. Palmeiras, 53.

Mas, para mim, fica algo além da classificação.

Fica a demonstração de um time que parece ter entendido aquilo que será necessário para buscar esse Campeonato Brasileiro até o fim.

Talento o Flamengo possui.

Poucos times no continente têm tanta qualidade técnica disponível.

Mas somente talento não entrega taça.

Será preciso raça.

Será preciso suportar adversidades.

Será preciso vencer jogos como esse.

Será preciso ter disposição para disputar uma bola quando o campo não permite trocar dez passes.

E será preciso entender que alguns dos três pontos mais importantes de um campeonato podem surgir justamente nas partidas menos bonitas.

Foi isso que vimos no Mangueirão.

O Flamengo não saiu de Belém deixando uma obra de arte.

Saiu deixando algo que, nesta altura da temporada, talvez seja ainda mais importante:

uma demonstração de fome pelo título.

Agora a liderança é realidade.

O Flamengo chegou ao lugar que buscava.

E a partir daqui o desafio muda.

Não é mais correr atrás do primeiro colocado.

É defender a primeira posição rodada após rodada, jogo após jogo, ponto após ponto.

Porque, para ser campeão brasileiro, não basta ter talento.

É preciso ter vontade.

É preciso ter raça.

É preciso colocar em campo todo o amor que representa vestir essa camisa.

Clube de Regatas do Flamengo. Em busca de mais um título. Em busca de mais um Campeonato Brasileiro.