O Flamengo transformou a preocupação com a integridade física de seus jogadores em uma cobrança pública à arbitragem brasileira. Nesta segunda-feira (12), o clube divulgou um comunicado intitulado “Recorde negativo no Brasil”, denunciando nove fraturas sofridas por atletas em partidas disputadas pelo Rubro-Negro ao longo de 2026.

A manifestação ocorreu depois do clássico contra o Fluminense, vencido pelo Flamengo por 1 a 0, no domingo (11), no Maracanã. O zagueiro Danilo sofreu duas fraturas na mandíbula após um choque com o goleiro Fábio e precisou passar por cirurgia.

A denúncia, porém, vai além do episódio mais recente. O clube recupera um histórico de lesões graves, questiona decisões dos árbitros e sustenta que existe permissividade diante de ações agressivas contra seus jogadores.

Danilo: a lesão que provocou o novo protesto

Danilo havia entrado aos 44 minutos do segundo tempo, substituindo Carrascal, quando participou de uma jogada ofensiva nos instantes finais do clássico.

Ao avançar para a área do Fluminense, o defensor recebeu a devolução de uma combinação com Gonzalo Plata e acabou atingindo a mandíbula no ombro do goleiro Fábio.

O jogador caiu no gramado, recebeu atendimento e apresentou sangramento na boca. Mesmo assim, permaneceu até o encerramento da partida, utilizando gaze para conter o sangue.

Após o confronto, foi encaminhado ao hospital, onde exames de tomografia identificaram duas fraturas na mandíbula. A cirurgia foi realizada nesta segunda-feira (12), com sucesso, pelo cirurgião bucomaxilofacial Gustavo Machado, acompanhado pelos médicos Fernando Sassaki e Luiz Macedo, do Flamengo.

O clube informou que havia previsão de alta hospitalar ainda nesta segunda-feira, mas não estabeleceu oficialmente um prazo de retorno aos gramados.

O Flamengo questionou especialmente a decisão da arbitragem de permitir a continuidade da partida após o choque. A jogada seguinte quase terminou em gol do Fluminense, enquanto Danilo necessitava de atendimento.

O histórico de fraturas que preocupa o Flamengo

A reclamação não começou agora. Em 25 de maio, depois da fratura sofrida por Jorginho diante do Palmeiras, o Flamengo já havia divulgado um protesto contra a arbitragem.

Naquela ocasião, o departamento médico contabilizava seis fraturas em menos de seis meses de temporada.

Os casos documentados naquele levantamento envolviam cinco jogadores:

  • Lucas Paquetá: fratura no quarto metacarpo da mão direita, identificada após a partida contra o Cruzeiro, em março. O meia conseguiu continuar atuando com proteção.
  • Everton Cebolinha: fratura de uma costela depois do confronto contra o Red Bull Bragantino, no início de abril, permanecendo afastado por aproximadamente duas semanas e meia.
  • Arrascaeta: fratura na clavícula direita durante o jogo contra o Estudiantes, pela Libertadores, em 29 de abril. A lesão exigiu cirurgia e afastamento prolongado.
  • Emerson Royal: duas fraturas nasais na mesma partida contra o Estudiantes. O lateral recebeu proteção facial e pôde continuar jogando.
  • Jorginho: fratura no dedão do pé direito depois do confronto contra o Palmeiras, em maio. O volante precisou ficar afastado das partidas seguintes.

Esses cinco jogadores representavam seis fraturas contabilizadas naquele momento, porque Emerson Royal havia sofrido duas fraturas no nariz.

Em outubro, com a inclusão do episódio de Danilo, o Flamengo atualizou sua contagem para nove ocorrências.

O novo comunicado não apresenta uma relação individualizada dos registros adicionais entre maio e outubro. Por isso, o total de nove deve ser entendido como o levantamento divulgado pelo próprio clube, sem presumir que corresponda a nove jogadores diferentes.

O que o Flamengo já havia cobrado em maio

No protesto divulgado depois da lesão de Jorginho, o Flamengo afirmou que nenhum jogador adversário havia sido expulso nos lances associados às seis fraturas então contabilizadas.

A diretoria também criticou a ausência de cartões amarelos em determinadas jogadas, inclusive no confronto contra o Palmeiras.

Agora, quase cinco meses depois, o discurso voltou a ganhar força.

A repetição das reclamações mostra que o Flamengo considera o problema persistente. O clube não está apenas questionando uma decisão de arbitragem específica, mas a interpretação e a punição de jogadas que, na avaliação da diretoria, expõem seus jogadores a riscos excessivos.

Carrascal também entrou na denúncia

O comunicado divulgado nesta segunda-feira menciona outro episódio ocorrido no Fla-Flu.

Segundo o Flamengo, Jorge Carrascal sofreu uma cotovelada de Guilherme Arana e deixou o gramado com um hematoma na face.

O meia colombiano iniciou tratamento ainda no vestiário e ficou sob acompanhamento do departamento médico para nova avaliação.

O clube utilizou esse episódio como mais um exemplo de sua insatisfação com a condução disciplinar das partidas.

O caso de Carrascal não foi apresentado como uma fratura, mas como outro incidente físico que reforçou o posicionamento divulgado pela diretoria.

Menos faltas cometidas, mais preocupação com a proteção

Um dos argumentos utilizados pelo Flamengo envolve o comportamento estatístico da equipe no Campeonato Brasileiro.

De acordo com a nota oficial, o Rubro-Negro figura entre os quatro times que menos cometem faltas na competição e lidera o levantamento de tempo de bola rolando em suas partidas.

A diretoria utiliza esses indicadores para sustentar que a equipe busca um futebol com menos interrupções, mas estaria enfrentando adversários beneficiados por critérios disciplinares considerados permissivos.

Existe, entretanto, uma diferença relevante entre os indicadores: cometer poucas faltas não comprova, isoladamente, que os adversários pratiquem mais jogadas violentas. Da mesma forma, a ocorrência de uma fratura não significa necessariamente que houve uma infração disciplinar.

Para avaliar a denúncia em sua totalidade, seria necessário examinar individualmente as nove ocorrências, os lances, as decisões tomadas em campo e as imagens disponíveis.

Ainda assim, o histórico médico apresentado pelo clube evidencia uma sequência de lesões com consequências esportivas importantes.

O impacto na temporada decisiva

O Flamengo chega a outubro disputando simultaneamente a liderança do Campeonato Brasileiro e uma vaga na final da Libertadores.

Com 64 pontos após a vitória sobre o Fluminense, o Rubro-Negro mantém vantagem de apenas um ponto sobre o Palmeiras.

Na quinta-feira (15), a equipe de Leonardo Jardim enfrentará o Estudiantes pela partida de ida da semifinal continental.

A ausência de Danilo reduz as alternativas defensivas justamente em um período de decisões. Arrascaeta também está afastado após sofrer uma fratura no punho esquerdo durante um amistoso pela seleção uruguaia, lesão que o Flamengo fez questão de excluir da contagem das nove ocorrências registradas em jogos do clube.

O cenário demonstra como diferentes lesões podem comprometer o planejamento técnico em momentos decisivos, independentemente de suas causas.

Uma cobrança que ultrapassa o Flamengo

A discussão apresentada pelo clube coloca em evidência o papel da arbitragem na proteção física dos atletas e na aplicação uniforme das regras.

O futebol envolve contato, disputas intensas e acidentes que nem sempre configuram faltas. Entretanto, entradas com força excessiva e condutas violentas exigem a aplicação das punições previstas nas regras.

Ao tornar pública sua contagem de fraturas, o Flamengo procura ampliar o debate sobre a maneira como essas situações são avaliadas no futebol brasileiro.

A nota não anuncia uma medida judicial ou disciplinar específica contra a arbitragem. Trata-se, até o momento, de uma manifestação institucional.

O dado mais expressivo é que a reclamação feita em maio voltou à discussão em outubro, agora acompanhada da grave lesão de Danilo.

Enquanto o departamento médico trabalha para recuperar os atletas, permanece uma questão central: as decisões de arbitragem estão aplicando de maneira consistente os critérios necessários para proteger os jogadores sem comprometer a intensidade natural do futebol?

Para o Flamengo, os nove registros contabilizados em 2026 são motivo suficiente para exigir respostas.